Publicado 01 de Junho de 2021 - 10h31

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

Família desempregada terá de se virar para cuidar de uma vítima de AVC e com sequelas de covid num barraco de 20m

Ricardo Lima/Correio Popular

Família desempregada terá de se virar para cuidar de uma vítima de AVC e com sequelas de covid num barraco de 20m

A disseminação da covid-19 e o drama da falta de leitos que a cidade enfrenta para atender a demanda de doentes por conta da pandemia expõe situações desumanas em Campinas, ao ponto de um quarto de hospital ter que ser improvisado em um barraco de madeira na favela para receber um paciente que precisa se recuperar de complicações decorrentes da doença fora do ambiente hospitalar, liberando um leito de enfermaria.

Essa é a realidade enfrentada pela família da faxineira Neusa Lopes Laurelino, 57 anos, e que ontem aguardava a transferência da paciente do hospital Ouro Verde para um quarto de um barraco de terra batida, coberto por telha de amianto e plástico na ocupação Jardim Rosália 4, localizado na Vila Padre Anchieta.

Às margens da linha férrea, o quarto hospitalar foi organizado em três dias graças a mobilização de moradores da ocupação que pediram doações pelas redes sociais. O tempo, segundo a família, foi o prazo que tiveram entre a comunicação sobre a alta médica da paciente por parte do hospital Ouro Verde, onde a paciente está internada, até a efetiva transferência, prevista para hoje.

Família aguarda a chegada de dona Neuza em frente ao barraco na ocupação Rosália 4

Família aguarda a chegada de dona Neuza em frente ao barraco na ocupação Rosália 4

Para entrar no barraco, a maca com a dona Neuza em estado vegetativo depois de um acidente vascular cerebral provocado pelos mais de 20 dias de intubação, vai percorrer um caminho feito de pedaços de portas de armários espalhados pelo chão para evitar o barro que se forma no local.

Com dois cômodos, um deles construído esse final de semana, cozinha e banheiro, a dona Neusa, agora acamada, dividirá o barraco com o filho, a nora e três crianças na tentativa de se recuperar das sequelas deixadas pela covid. O Jardim Rosália 4 é uma ocupação que existe há 12 anos e abriga cerca de 420 famílias.

A paciente está deixando o hospital Ouro Verde com uma sonda gástrica para alimentação e uma traqueostomia, que segundo a família, foi a opção médica para permitir a respiração, já que no barraco a energia elétrica é clandestina e não suporta o uso de um respirador.

"Jogaram uma dinamite nas minhas costas. A gente não tem estrutura, nem local adequado. Moramos em um barraco. Não temos nada, mas o hospital me chamou e comunicou que ela iria para a casa e estamos aqui esperando para ver o que vai ser", disse a nora Marcela Angelina dos Santos, 31 anos.

Treinamento

Para receber a Dona Neuza, Marcela conta que foi na última sexta feira no hospital Ouro Verde realizar um treinamento para poder cuidar da paciente em casa. "Fui até o hospital e as enfermeiras me mostraram os procedimentos, como limpar, dar banho, limpar a sonda e cuidar da traqueostomia. Agora é tentar aplicar isso em casa", disse.

A Prefeitura por meio de uma nota informou que o serviço social Hospital Ouro Verde está em contato com a família da dona Neusa e que os familiares informaram que não possuem problemas em recebê-la, que inclusive a aguardavam na residência ontem. Informou ainda que em contato com familiares adiou em um dia o planejamento da alta hospitalar da paciente, que foi suspensa temporariamente por um dia. A Prefeitura informa ainda que o caso já está sendo acompanhado pelo Centro de Saúde de referência da paciente, bem como pela Secretaria de Assistência Social, Pessoa com Deficiência e Direitos Humanos.

Família ganha cama hospitalar, colchão e lençóis pelas redes sociais

Para conseguir uma estrutura mínima para receber a dona Neusa a comunidade da ocupação do Jardim Rosália apelou para as redes sociais e garantiu a organização da "UTI na favela". Com a repercussão do vídeo dos familiares foi possível conseguir uma cama hospitalar, um colchão, lençóis e alguns insumos básicos, mas que duram no máximo três dias.

A voluntária Ana Cláudia que arrecadou doações para a instalação da UTI na favela. 

Fotos: Ricardo Lima/Correio Popular

A voluntária Ana Cláudia que arrecadou doações para a instalação da UTI na favela

Os integrantes da família estão desempregados e sobrevivem com o auxílio do Bolsa Família, pouco mais de R$ 310 por mês. Ontem, gastaram R$ 92 com um colírio receitado para os cuidados da paciente em casa. Segundo a família, o gasto foi necessário devido o colírio estar em falta na farmácia do posto de saúde que serve a região do Jardim Rosália 4.

A técnica em enfermagem Adriana Solinski, 50 anos, foi uma das pessoas que se mobilizou com o drama após ver os vídeos divulgados pela família nas redes sociais. Ela disse que auxiliou a família na tentativa de buscar uma casa de repouso para acolher momentaneamente a dona Neuza, mas foi informada que não tinha vaga disponível.

"É uma situação muito delicada. Um absurdo na verdade. Estamos fazendo o que podemos, mas a paciente não tem condições nenhuma de vir se recuperar aqui. É desumano. A paciente inspira muitos cuidados, e a família não tem condições nenhuma de oferecer", explica.

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Rodrigo Piomonte/Correio Popular