Publicado 30 de Maio de 2021 - 16h22

Por Gilson Rei/Correio Popular

De acordo com os grafiteiros, imagens desestressam, animam e convidam as pessoas a refletir sobre temas da atualidade

Diogo Zacarias/Correio Popular

De acordo com os grafiteiros, imagens desestressam, animam e convidam as pessoas a refletir sobre temas da atualidade

A arte de rua do grafite ganha cada vez mais espaço em diferentes pontos urbanos de Campinas, como edifícios, muros, vigas de viadutos e áreas públicas de diferentes gêneros. As intervenções servem de contraponto à fria atmosfera da metrópole, frequentemente permeada por máquinas, asfalto e prédios. Traços e cores que alegram, denunciam ou trazem refrigério à correria do dia a dia se oferecem gratuitamente aos passantes, tornando o caminho deles menos banal.

Os grafites são bem recebidos pela população em geral e têm até o incentivo do Poder Público e de empresas. Estabelecimentos comerciais buscam com mais frequência esse tipo de intervenção artística, que é vista também em escolas públicas e particulares, além de áreas de lazer, como a Praça das Águas, no bairro Ponte Preta. O local é frequentado por skatistas, ciclistas e usuários de patins.

Marcelo Fidelis, estudante do ensino médio e morador da região, disse ontem que a praça é um espaço em que as pessoas praticam esporte e, ao mesmo tempo, utilizam para o convívio social. "É um ambiente de amizade, liberdade e que traz muita riqueza para as nossas relações sociais", comentou. "A arte estampada nas paredes deixou este local mais vivo", destacou.

Skatista faz manobra na Praça das Águas, no bairro Ponte Preta: interação com a arte em espaço aberto

O lugar é repleto de imagens coloridas e está sempre sendo usado por jovens e adultos que cultivam a arte. Sérgio Justino, engenheiro ambiental, estava praça com sua bike. "Estas intervenções artísticas trazem uma filosofia que expressa a liberdade. São obras de arte expostas na rua para todos apreciarem", ressaltou. Basta andar pelas principais ruas e avenidas de Campinas para constatar que o grafite está presente em todas as partes. Essa forma de manifestação também se consolida na periferia.

No Taquaral, por exemplo, a Praça da Arautos da Paz mostra painéis gigantes. Nas vigas de viadutos da região, outras artes estão estampadas e fazem parte do cotidiano dos atletas, corredores, ciclistas e pessoas que fazem suas caminhadas. Nas colunas do Viaduto São Paulo, conhecido como "Laurão", desenhos deram nova vida ao local, transformando os congestionamentos e o vaivém dos veículos uma prática menos estressante. O movimento dos grafiteiros é percebido também na região da Avenida Aquidabã, no Centro, e nos muros do prédio da Informática dos Municípios Associados (IMA), no bairro Ponte Preta.

O empresário Luis Carlos Mendes, que estava com o carro parado no semáforo do Laurão, disse que o trânsito na região é intenso, principalmente nos horários de pico. Segundo ele, as imagens estampadas na estrutura da ponte ajudam a aliviar a tensão. "É muito bom ver estas artes. A gente acaba se desligando um pouco dos problemas que a cabeça da gente carrega diariamente", comentou.

Skatista faz manobra na Praça das Águas, no bairro Ponte Preta: interação com a arte em espaço aberto

Novo painel

Um novo mural colorido está na fase final de conclusão na alça de acesso da marginal Piçarrão para a Avenida Prestes Maia, na Vila João Jorge. O projeto teve a iniciativa do artista de Rua Ângelo Moai, que idealizou e buscou parcerias para realizar a obra, reunindo um grupo de grafiteiros. Os artistas esperam concluir a obra neste final de semana. O idealizador do painel artístico explicou que a obra tem como tema o "Fundo do Mar". "Cada artista adota a temática com toda a liberdade de se expressar. O painel marca os 20 anos de atuação do New Family Crew, grupo de artistas que atuam em Campinas com ações nas ruas, aulas de grafite e faz curadoria em eventos", revelou.

O grafiteiro Daniel Dime: arte ao alcance de todos

O grafiteiro Daniel Dime: arte ao alcance de todos. Foto: Kamá Ribeiro

Moai explicou que o grafite passou a ser mais reconhecido nos últimos cinco anos. "Além do apoio do Poder Público, que autoriza intervenções em praças e áreas públicas, a arte de rua ganhou o gosto da população", comentou. "A meta é ampliar estes espaços", acrescentou o artista. O grupo New Family Crew, por exemplo, espalha grafites pela cidade e divulga a arte de rua por meio de cursos. "O objetivo é deixar um legado, pois muitos artistas que começaram há 20 anos já não estão mais nas ruas. Uma nova geração vem surgindo e estamos passando para frente técnicas para que esse tipo de expressão artística não morra", comentou.

Moai destacou que o grafite tem uma função social. "Traz vida para a rua e o espaço passa a ser notado. Muitos começam a perceber que existe ali um espaço, instigados pela cor e pela arte, mudando o cotidiano daqueles que passam pelas vias", explicou. "O interessante é que cada pessoa tem o seu olhar para a arte e isto faz muita gente crescer internamente", afirmou.

Outro aspecto está no despertar democrático para a arte. "Estes registros de rua levam as pessoas a gostar da arte, afinal cada artista tem seu estilo e os painéis podem ser observados de graça. É uma arte democrática, que não visa lucro e todos podem ver. É diferente da arte voltada para a elite e que fica nos museus, teatros, centros de exposição. A arte de rua é gratuita e o objetivo é de quebrar tabus", comentou.

Entre os artistas do grupo no painel do Piçarrão estão também Daniel Dime e Renan Nan, que atuam no grupo em outros painéis. Nan disse que começou como tatuador e que há dez anos adotou o grafite. Ele reforçou o papel social da arte de rua. "Cada artista de rua traz seu estilo e uma temática, e pode levar mensagens para qualquer pessoa. É uma democratização da arte e muitas intervenções levam um novo ambiente para as áreas urbanas", disse.

Prefeitura declara que apoia as intervenções

A Prefeitura de Campinas informou que apoia a arte de rua com grafite, mas não considera as pichações como uma expressão artística, por terem um aspecto de poluição visual e de vandalismo contra locais públicos e particulares não autorizados. A Secretaria Municipal de Cultura informou, por meio de nota, que prestigia a intervenção artística no espaço urbano. Segundo a nota da Prefeitura: "o grafite traz cor e vida para a cidade". O estimulo da Prefeitura é institucional, por meio da aprovação de painéis e oferecendo serviços de sinalizações no trânsito, quando necessário.

Segundo a Administração, o artista que tiver algum projeto cultural com grafite deve procurar a Secretaria de Cultura para apresentar a sua proposta, que será analisada a viabilidade da intervenção em espaços públicos. A Secretaria já participou em anos anteriores de projetos de grafiteiros como parceira e com apoio institucional. Lembrou também que há projetos em estudo de painéis de grafite aprovados pelo Programa de Ação Cultural (ProAc) do Governo do Estado para promover mais iniciativas desta arte urbana na cidade. Quanto às pichações, o Poder Público destacou, entretanto, que segue leis e movimentos que vão contra este tipo de manifestação.

ORIGEM

Grafite é um termo que provém do francês (graphite): designa o mineral de cor negra utilizado no fabrico de lápis. Essas palavras têm, na sua composição, o elemento "Graf", do grego gráphein, que significa "escrever" ou "gravar". O grafite é um tipo de arte urbana caracterizado pela produção de desenhos em locais públicos como paredes, edifícios, ruas, etc. Na Itália, o termo grafitto significa "escrita feita com carvão".

De acordo com os grafiteiros, imagens desestressam, animam e convidam as pessoas a refletir sobre temas da atualidade

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Gilson Rei/Correio Popular