Publicado 30 de Maio de 2021 - 15h03

Por Tássia Vinhas/Correio Popular

O ex-prefeito Hélio de Oliveira Santos, em visita ao Correio Popular, onde concedeu entrevista exclusiva: sem comentários sobre o futuro político

Ricardo Lima/Correio Popular

O ex-prefeito Hélio de Oliveira Santos, em visita ao Correio Popular, onde concedeu entrevista exclusiva: sem comentários sobre o futuro político

"A única coisa que eu gosto de falar para a imprensa é o seguinte: por que não perguntam qual foi, onde está o laptop do policial federal suicidado, o que continha o telefone celular do Richard Fagnani de Moraes, quem foram os agentes públicos que conversaram nas últimas 48, 72 horas com ele?" O desafio à Polícia Federal é do ex-prefeito de Campinas Hélio de Oliveira Santos, que teve seu nome envolvido no escândalo de fraude em licitações da Sociedade de Abastecimento de Água e Saneamento (Sanasa), o que resultou em seu impeachment do cargo de prefeito de Campinas, em 2011.

Doutor Hélio (PDT), como é conhecido, afirma ter recebido em casa documentos sigilosos e pen drives com gravações da investigação da Justiça Federal, e cobra uma investigação mais detalhada da Polícia Federal. "Outra coisa que é uma pergunta fácil de ser feita é por que esse, que era coordenador da "Operação Manilha" da PF, que se suicidou, por que quem tocou o processo dele foi o pessoal da Corregedoria da Polícia Civil?"

No livro "Conspiração na terra de Carlos Gomes", o ex-prefeito conta detalhes sobre esses documentos e dos bastidores do que ele acredita ter sido um complô e uma traição. Durante visita ao presidente-executivo do Grupo RAC, Ítalo Hamilton Barioni, Dr. Hélio analisou o atual cenário político brasileiro e por diversas vezes reforçou que prefere deixar o passado para trás. Ele também se esquivou de perguntas relacionadas ao seu futuro político.

Correio Popular - Como o senhor vê esse panorama que se desenha agora com a possibilidade de uma polarização para as próximas eleições?

A polarização já está posta. A grande mídia costuma colocar a perspectiva da terceira via, mas a população está demonstrando que o interesse dela não é de encontrar via, é de encontrar uma solução para esse problema da inadequada administração pela qual nós estamos passando. Isso se resolve democraticamente. Vai ter voto o ano que vem, então, o povo vai saber olhar para trás, olhar pra diante, para dizer o que quer. Nós temos que voltar àquele Brasil respeitado lá fora, respeitado internacionalmente, com políticas públicas.

O sr. que viveu como administrador, como gestor municipal, o vê como positiva a volta de Lula?

Eu sou varguista da época democrática e o Getúlio Vargas, há mais de 60 anos, optou no regime democrático dele por uma política voltada às cidades, porque existia, naquela ocasião, uma influência maléfica de governos. Reunia os famosos 'café com leite', todos os fazendeiros de São Paulo e Minas, e eles que decidiam quem seria o próximo presidente da República. Nós passamos por isso, quem não se lembra de Campos Salles? Ele foi eleito pela grande força dos fazendeiros do café e algodão.

Torno a perguntar, o sr. vê com bons olhos a volta do Lula?

Eu não posso dizer se eu vejo com bons olhos porque sou amigo dele. Fica uma coisa piegas. Agora eu estou no PDT e o partido vai ter o seu candidato a presidente. Então, no momento certo, penso que as forças políticas,vão se convergir, não necessariamente as forças políticas de esquerda. Não cabe, no momento, em um país atrasado no seu desenvolvimento, com desequilíbrio fiscal tremendo, com 14,7% de desempregados, começar a dizer que vamos nos dividir. É preciso conversar com todas as forças vivas da comunidade, é preciso diálogo. Dessa forma, no ano que vem, será preciso pensar muito bem para se chegar à composição situação versus oposição. Correio

Essa discussão ideológica, o senhor teme que ela fragmente o centro esquerdo e possa favorecer mais uma vaga para o Bolsonaro?

Acho importante ter na presidência da República o sujeito que vai se candidatar. Ele não é de um partido, ou melhor, ele não deve ser sequestrado por um partido. Foi o que falei na minha primeira coordenação: "olha, tem uma coisa, o presidente vai para o segundo mandato dele, ele não é candidato do PT, ele é candidato do povo brasileiro". Esse é o modelo, essa é a realidade, ele é candidato do povo brasileiro e o povo brasileiro vai do pequeno e médio empresariado, dos tecnológicos, dos democratas, dos professores acadêmicos e assim por diante, não é uma coisa fechada do ponto de vista ideológico.

O Ciro Gomes, por exemplo, tem crédito internacional, esteve lá na universidade de Havard e o Lula tem títulos honoríficos em todo o mundo. Então nesse modelo, hoje, o que eu vejo é que não podemos cair nessa balela de que vai aparecer um Luciano Huck, com um perfil de sucesso. Ele não emplacou e não vai emplacar. Nós que somos da política, eu sou da política, eu sei muito bem o que significa esse rótulo, esse rótulo é estigmatizante. Campinas depressiva está aí, quatro, oito anos depressiva, andou pra trás em tudo quanto é projeto. Os projetos que foram adiante foram com verba minha, aprovada em parceria com o governo Dilma, governo Lula. Então, essa coisa do Novo, para mim significa, no meu modo de entender, preconceito contra a velhice.

E qual é a avaliação que o sr. faz destes últimos oito anos de governo em Campinas?

Ah deixa pro povo, deixa pro povo. Político não avalia político. O povo sabe comparar, discernir.

Vamos entrar numa análise mais técnica, Campinas viveu um momento na sua administração, na educação, que foi algo reconhecido, ganhou prêmio.

Esse negócio da nave-mãe, eu gosto de falar, não foi um projeto que veio de rodapé de jornal. Isso foi estudado vinte e poucos anos, enfrentei ação do ponto de vista sindical. Eu fui discutir isso na Sorbonne. Foi aprovado. De lá eu ganhei a medalha por conta desse projeto internacional, ganhei prêmio e o nacional, ganhei das mãos do Lula. A ONU estabeleceu que até 2015 todos os países teriam que ter zerado o déficit de creche e pré-escola, e eu consegui zerar a pré-escola antecipadamente em três anos. Então, ganhei o ODM - os Objetivos do Milênio, da ONU. E esse é o projeto de uma dimensão importante.

Quem mais o sr. trouxe para Campinas?

Trouxe o Jaime Lerner, que foi responsável por fazer a continuidade do projeto de expansão do novo centro de Campinas. Comecei com a rodoviária, depois com o ramal metropolitano ao lado e o chamei pra fazer o projeto de expansão com moradias, escritórios, faculdade de música, teatro... Depois, convidei o Lerner pra fazer o projeto das estações do TAV (Trem de Alta Velocidade). A Dilma veio aqui pra conhecer esse projeto e estive com Sérgio Cabral pra mostrar como ele podia fazer isso lá no Rio de Janeiro. A de Campinas eu é quem introduziu.

O sr. acredita que essa parceria com o governo federal foi importante para a sua administração?

Não existe administração de Campinas sem ter um eixo bem ajeitado no plano nacional. O governo de estado está com um pires na mão, pedindo dinheiro pra pagar os servidores da ativa, aposentados e a saúde. Então, tem que ter credibilidade no âmbito nacional, e essa credibilidade é difícil de ser conquistada, não de uma hora para outra, não é com molecagem. Precisa de parcerias, a verba federal só chega em municípios se for em cima de parcerias, não é só amizade não.

O sr. tem alguma pretensão política para 2022? 

Política só se faz em anos pares, em anos impares, a conversa é outra, você tem que estudar. A minha preocupação, de fato, hoje, é fazer bem feito a cartilha de prevenção de mortes. Não dá pra ficar com as pessoas paradas, sem dinheiro. A fome está voltando. Hoje, vi governador dando 14 mil cestas básicas, mas antes dávamos setenta mil no meu programa “Prato Cheio”, toneladas de alimentos.

O que o poderia ser feito?

Veja, se eu estou no poder, pego e imprimo até moeda, dinheiro para poder salvar a vida humana, que não tem preço. Agora, se for ficar "não, porque o desequilíbrio fiscal e não sei o quê"... Pegue os seis maiores biliardários dos Estados Unidos e veja quanto é que eles doaram para o combate à covid. Aqui, os empresários pegaram materiais da sua própria fábrica. Agora, põe aí um imposto, uma contribuição provisória, que não a CPMF, para os mais ricos, para que eles possam dar um pouco mais, Nós fazemos chover! Agora, falar que vai dar desequilíbrio fiscal e que, portanto, tem que ver se não dá seiscentos agora, dá cento e cinquenta, é um absurdo a meu ver. A ajuda financeira tem que ser expressiva, para o indivíduo que tem o seu comércio, o seu pequeno negócio, a sua pequena empresa, uma ajuda mensal durante o lockdown e o lockdown real, concreto, é trinta dias. Tem toda uma fórmula que tem que começar a praticar nas cidades.

O sr. acredita que houve falha nos municípios?

Sim, em muitos. O município tem autonomia, orçamento e obrigação. Em junho, julho, do ano passado, no governo passado, Campinas era a cidade que mais morreu gente e estava aí todo mundo flexibilizado, porque não aguentam a pressão de um dono de shopping, porque o cara mexe na política, então, essas coisas, o camarada tem que ter autoridade. Se não tiver autoridade e decisão... O município tem autonomia, mas o município não se utiliza dessa autonomia por indecisão, desconhecimento.

Falando do passado, a que o sr. atribuiu toda essa movimentação que o derrubou?

À traição de uma pessoa que foi meu amigo de infância. Competente, porque o cara é formado na Unicamp, foi diretor de uma série de empresas tecnológicas, não é um bobo. Mas eu não esperava que os costumes fossem derrotados por ambição, por inveja. Ele já queria ser candidato a prefeito na minha época, eu tive que segurar. Já começou a fazer praça com chafariz para atender vereador, churrasco não sei pra onde e ainda teve o fato de andar em festas com muito álcool, mulheres, orgias nas casas da Nova Campinas. Tudo gravado. Aí virou briga de quadrilha e deu no que deu. Depois, ele passou a me culpar e eu paguei caro, porque fui eu quem escolhi ele para presidente da Sanasa. A perseguição dos meus secretários foi uma coisa incrível. Nessas questões políticas, não vou voltar atrás, porque está escrito no meu livro "Conspiração na Terra de Carlos Gomes". A única coisa que falo para a imprensa é o seguinte: por que não perguntam aonde está o laptop do policial federal que se suicidou? O que continha o telefone celular do Richard Fagnani de Moraes? O que tinha lá? Quem foram os agentes públicos que conversaram com ele nas últimas 48, 72 horas? Por que ele, que era coordenador da operação manilha da polícia federal e se suicidou?

O senhor então acredita que esse foi o início de tudo?

Não tenho a menor dúvida e nem me importa muito, porque nas últimas eleições não fiz campanha nenhuma, nem na penúltima e nem agora. E mesmo inelegível, em todas essas eleições eu sai com mais de 20% de intenção de votos. Então, existe efetivamente um resultado, como dizia o Padre Vieira, o que fica efetivamente são as obras. As obras na minha gestão foram marcantes e não foi dado continuidade a nada disso.

O sr. teve acesso a documentos relacionados a essa investigação?

A imprensa não teve acesso, mas eu recebi durante dois anos e pouco na minha casa documentos, pen drive, inclusive de fatos sigilosos, relacionados à operação Durkheim, que veio em seguida, com a polícia federal investigando a polícia federal, a morte do Richard Fagnani de Moraes, documentos que ficaram sob sigilo na justiça federal, mas que eu recebi na minha casa, cerca de duas mil páginas. Cito isso no meu livro.

Nos bastidores, comenta-se que o senhor foi cassado pela Câmara porque não dispensou a atenção necessária aos vereadores de sua base política. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Eu não sou moleque, não vou nem comentar isso, que a história é outra. O problema é mais embaixo. Em relação à comissão, teve uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que foi negada, porque foi demonstrado que não houve absolutamente nada...

Na sua avaliação sobre sua gestão, o que o senhor acredita que faltou?

Olha, pra mim faltou contra-inteligência. Se eu tivesse dado conta com inteligência, não cairia nesses engôdos todos. Isso faltou. Agora, é evidente que as coisas devem ter continuidade, e isso não aconteceu depois do meu governo. Houve, isso sim, uma descontinuidade.

A sua mulher, Rosely Santos, era apontada como a que estava nos bastidores de tudo. Qual era o papel dela?

O papel da secretária de governo, que é o de solver problemas...se ela contasse... Meu Deus! Sai debaixo! As estátuas iriam sair andando, porque é duro. Ela nunca foi política. É firme, professora da Unicamp. Sofri bastante porque só foram pra cima dela por minha causa e o "Sistema de Burla o Poder" é dessa maneira, pega a mulher do cara e fala que está com dinheiro lá fora. O jogo é esse... mas é um jogo político, que ela não quer mais se envolver.

Essa última absolvição que teve em relação ao caso do Instituto Cidad, o sr. acha que o Ministério Público tem muita ingerência? Faltou cautela?

Isso é uma vergonha! Porque o Tribunal de Justiça disse "não há crime". Então por que fui condenado? Segundo lugar: todos os pareceres jurídicos e tributários no contrato da unicidade, todos estão corretos. Terceiro: não houve prejuízo ao erário público, ao contrário, a Prefeitura tinha pago R$ 900 mil, que mandei devolver, e, recebeu mais de R$ 30 milhões. E vai receber muito mais se tiver interesse de receber, porque, por trás disso, está o interesse de proteger banqueiro. Aponte-me, uma cidade do Brasil que recebe ISS de serviços bancários? O banco empresta pra adquirir casa, carro, pra vender seguro. Isso é serviço. Por que, então, a cidade não vai receber?

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Tássia Vinhas/Correio Popular