Publicado 30 de Maio de 2021 - 14h30

Por Gilson Rei/Correio Popular

Fachada do Centro de Convivência Cultural com fiação elétrica exposta: cidade espera há anos pela reforma do teatro interno

Diogo Zacarias/Correio Popular

Fachada do Centro de Convivência Cultural com fiação elétrica exposta: cidade espera há anos pela reforma do teatro interno

A Cultura de Campinas está jogada às traças e sofrendo um processo de desmonte. A Secretaria Municipal de Cultura e a Diretoria da pasta estão à deriva, pois estão sem seus titulares há dois meses. Enquanto isso, a cidade assiste à tragédia do abandono e da degradação de museus, teatros, casas de cultura e espaços de arte. Ao mesmo tempo, artistas da cidade buscam recursos para sobreviver na pandemia, mas não conseguem ter acesso a financiamentos que deveriam ter sido liberados em situações de emergência, previstos em lei municipal, via Fundo de Investimento para a Cultura (FIC).

Quanto aos cargos desocupados, Campinas viu a secretária municipal de Cultura, Sandra Ciocci, pedir para deixar a função no dia 22 de março, alegando motivos de ordem pessoal. O prefeito Dário Saadi aceitou a solicitação e nomeou a diretora administrativa da Secretaria de Cultura, Marianne Bockelmann, para assumir interinamente. Ao mesmo tempo, a diretora de Cultura, Daniela Gatti, também deixou o cargo. A situação não se alterou e nestes 68 dias a gestão na Cultura da cidade aguarda uma posição do prefeito, que parece ter dificuldades para encontrar uma pessoa capaz de gerir o setor. Enquanto isso, a interina Marianne Bockelmann acumula três funções, situação que torna impossível que atenda às demandas necessárias.

Sede do Museu da Cidade com janela sem vidros e com fios aparentes e detalhe da área externa do Palácio dos Azulejos: patrimônios históricos entregues à própria sorte

Sede do Museu da Cidade com janela sem vidros e com fios aparentes e detalhe da área externa do Palácio dos Azulejos: patrimônios históricos entregues à própria sorte

O enredo do filme trágico que conta a história atual da Cultura da cidade segue com as cenas de desmanche dos equipamentos culturais no ritmo do tempo, com degradação a cada dia. Um exemplo é a Estação Cultura. O local demonstra sinais de abandono, com vidros quebrados e fios soltos. No piso superior, o teto está caindo e com sérios problemas. A equipe administrativa da Orquestra Sinfônica foi transferida por causa do risco. Além disso, os banheiros estão em sua maioria com problemas. As portas do imóvel histórico estão também com problemas, prejudicando a segurança. Constantemente, veículos são furtados no local.

Outros equipamentos importantes sofrem estão em franca deterioração, como o Museu da Cidade Lidgerwood; o Museu da Imagem e do Som (MIS); o Casarão de Barão Geraldo; a Casa de Cultura Fazenda Roseira; o Lago do Café, entre tantos outros redutos da arte e da cultura. O MIS, que fica no histórico Palácio dos Azulejos, está com o teto desmanchando aos poucos e as paredes com o reboco caindo. Há infiltração de água por causa de danos no telhado.

A atual e as futuras gerações perdem muito com esta situação. O MIS preserva e difunde um importante acervo de memória audiovisual de Campinas, com centenas de equipamentos de produção e reprodução de imagens e sons. Abrange áreas de vídeo e áudio, fotografia, música, cinema, objetos tecnológicos e educação patrimonial. A mesma situação de decomposição é evidente no Museu da Cidade, que vive coberto pela poeira, expondo fios soltos e desencapados.

As janelas apresentam vidros quebrados e o local mais se parece com um prédio assombrado. O Museu da Cidade foi inaugurado em abril de 1992, na antiga sede da empresa Lidgerwood Manufacturing & Co, que é um exemplar emblemático da industrialização estimulada pela economia cafeeira no final do século XVIII. O Museu da Cidade está fechado há pelo menos cinco anos. Resultou da fusão entre os museus Histórico, do Índio e do Folclore, que funcionavam no Bosque dos Jequitibás, a partir de concepções museológicas mais contemporâneas, dinâmicas e integradoras, voltadas para a valorização da diversidade cultural.

Sede do Museu da Cidade com janela sem vidros e com fios aparentes e detalhe da área externa do Palácio dos Azulejos: patrimônios históricos entregues à própria sorte

O Casarão de Barão Geraldo, por sua vez, corre o risco de ficar inacessível, pois alguns moradores querem transformar a área em uma espécie de condomínio com restrição de entrada, guarita e outras medidas, restringindo o acesso ao espaço publico. A administração do condomínio nega a intenção. Nas Casas de Cultura faltam estrutura e segurança. Arrombamentos com furto de patrimônio e incêndios criminosos ocorrem com freqüência. As casas de Cultura do Itajaí; da Fazenda Roseira; Andorinhas; e da Tainã já sofreram furtos e ações de vandalismo.

Para artistas, Prefeitura relega setor a plano secundário

Representantes da comunidade artística de Campinas alegam que não existe uma política pública de cultura na cidade e reclamam que o orçamento destinado ao setor é baixo. Alegam que há mais de 10 anos não é realizado concurso público, o que ocasiona falta de funcionários diante das aposentadorias e mortes de servidores. Segundo os artistas que acompanham as discussões no Conselho Municipal de Cultura, a defasagem da equipe é enorme nas bibliotecas públicas e em centros culturais. Alertam que falta estrutura para acomodar os acervos na Orquestra Sinfônica e que há carência de músicos, equipe administrativa e operacional.

Radamés Bruno, produtor, gestor cultural e ator, disse que o descaso é enorme. "A falta de atenção com a cultura não é algo exclusivo de Campinas. Infelizmente, muitos a consideram como algo secundário, supérfluo. Veja a situação do nosso Ministério da Cultura", comentou. "Sobre Campinas, os problemas gritam aos olhos. Falar sobre isso é chover no molhado. Além de manutenção, falta material humano", acrescentou.

Radamés destacou o que precisa ser feito na área cultural. "Pode não parecer, mas tem muito trabalho na pasta, pois o alcance é muito vasto. Mas, isso depende, em primeiro lugar, de gente que conheça a área. Que viva, conheça e entenda as peculiaridades, necessidades e todo o potencial. É necessário um gestor capacitado para a pasta. Que conte com uma equipe com conhecimento técnico e prático dos departamentos e coordenadorias abrangidas pela Cultura", defendeu.

A falta de gestão foi criticada por ele. "Não dá para ter uma secretária interina, que pouco ou quase nada entende de Cultura. A necessidade de definição é urgente, em respeito a todos os artistas e realizadores culturais da cidade. Faz-se necessário uma reestruturação", sugeriu. Sobre a verba para a Cultura, Radamés afirmou: "é a primeira área a ter verbas cortadas. Por isso a necessidade de gestores culturais, que viabilizem parcerias, convênios e apoios. O dinheiro precisa sair de algum lugar. A Cultura pode ser a maior garota propaganda de um governo", finalizou.

Raquel Gouveia, que atua na área da dança, disse que Campinas padece por investimentos. "Falta incentivo e compromisso há mais de 20 anos, mas isso se agravou com a pandemia e com a falta de uma gestão na Cultura, que está sem secretária e diretora há mais de dois meses. O atual governo segue a mesma linha dos últimos 20 anos. Não dá a importância que a Cultura deve ter na cidade", disse.

Gouveia afirmou que é urgente agir para cessar esta situação de desmonte. "O quadro é caótico. Os equipamentos culturais estão desmontando. Um exemplo é o descaso com o FIC, que não é executado há cinco anos para auxiliar os artistas em suas atividades. Além disso, os equipamentos estão se decompondo por falta de investimento, manutenção e contratação de funcionários. Não há um projeto municipal claro e evidente para a gestão da Cultura", queixo-se.

Raquel lembrou que em outubro do ano passado o Plano de Cultura de Campinas foi criado, depois de muitos debates com representantes da classe artística e da sociedade. "Este plano tem que ser colocado em prática. O que falta para este governo é apenas executar o plano, mas isso não está ocorrendo. É necessário ter uma pessoa técnica para esta função na gestão da secretaria", disse.

Andrea Mendes, eleita pela sociedade civil para a presidência do Conselho Municipal de Cultura, reforçou que é fundamental ter uma gestão técnica na Secretaria para cumprir com o Plano de Cultura, pois a secretária interina acumula três funções. "Não é uma crítica à interina, que é uma diretora administrativa competente e experiente. Porém, torna-se impossível gerir os três cargos ao mesmo tempo. Vivemos um sucateamento na Cultura, desde a Fazenda Roseira e o Casarão de Barão Geraldo, até os outros equipamentos que já vêm sofrendo degradação nos últimos anos", ressaltou.

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Gilson Rei/Correio Popular