Publicado 28 de Maio de 2021 - 11h32

Por Rodrigo Piomonte/Correio Popular

A enfermeira Érica de Sousa Silva relata o drama que viveu para saber notícias do irmão, internado com covid em estado grave no Mário Gatti

Kamá Ribeiro/Correio Popular

A enfermeira Érica de Sousa Silva relata o drama que viveu para saber notícias do irmão, internado com covid em estado grave no Mário Gatti

A crise do setor público de saúde parece ter voltado com força máxima com a ameaça da chegada de terceira onda de contaminação pelo novo coronavírus no município. O hospital municipal Dr. Mário Gatti, que recebe demanda espontânea de casos de covid e não covid, está no centro do furacão. Além de enfrentar há meses a ocupação máxima na questão de leitos de enfermaria e Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes covid-19, o hospital é alvo há um ano de uma investigação do Ministério Público do Trabalho da 15ª Região, em Campinas, que apura denúncias de descaso com os trabalhadores que atuam na área da saúde no hospital.

Nos últimos dias, inclusive, o hospital vem sendo alvo de uma enxurrada de denúncias de profissionais de saúde e usuários, que reclamam das condições de trabalho e do atendimento. A Prefeitura diz reconhecer o problema e informa que vem buscando soluções para minimizar os impactos que a pandemia traz ao setor público de saúde.

A enfermeira Érica de Sousa Silva, 44 anos, irmã de um paciente internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) covid-19 do hospital, relata o drama que os parentes vêm passando para receber informações sobre o estado de saúde dos pacientes internados.

"Não temos notícias. O hospital alega ter dias certos para entrar em contato e passar as informações. Porém, ninguém liga. Se eu não fosse enfermeira e tivesse insistido não teria conseguido informações sobre o meu irmão que está em estado grave. Chega a ser desumano. Imagino quem não consegue ter esse acesso que eu consegui. É muito triste", disse.

Membros do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Municipal de Campinas (STMC), que realiza fiscalizações rotineiras acerca das condições de trabalho em várias áreas no hospital, principalmente na saúde, também relatam problemas que vão desde o fornecimento em quantidade e qualidade de equipamentos de proteção individual (EPIs), até o pagamento de insalubridade aos profissionais na pandemia.

Parte dos apontamentos do sindicato embasaram as denúncias investigadas pela procuradora Luana Duarte, do MPT. Segundo o sindicato, os problemas enfrentados pelos trabalhadores no hospital durante a pandemia causam reflexos diretos no atendimento à população. Ontem, inclusive, em nota enviada à imprensa, o sindicato informou sobre novas denúncias que serão protocoladas e anexadas ao processo em andamento no MPT.

Desta vez a entidade aponta irregularidades que vão desde equipamentos de uso cotidiano quebrados no hospital até o risco de contaminação de trabalhadores que atuam na recepção do hospital, devido à falta do cumprimento dos protocolos sanitários considerados básicos.

A alta demanda de pacientes na Sala Vermelha, local em que os pacientes ficam à espera de encaminhamentos quando dão entrada no hospital via espontânea ou trazidos pelo resgate do Corpo de Bombeiros, ou pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu), também foi incluída. Na denúncia, o sindicato descreve o local, atualmente, como "cenário de guerra".

Cancelamento de cirurgias

A Rede Mário Gatti informou ontem que suspendeu as cirurgias eletivas para desafogar a sala vermelha. Segundo o hospital, serão mantidas apenas as cirurgias de urgências, as ortopédicas decorrentes de fraturas e algumas inadiáveis, sempre com avaliação criteriosa de risco e benefício para o paciente. Cirurgias oncológicas estão mantidas.

A Rede informou também que converteu 16 leitos de enfermaria covid para não covid. E, com a abertura de mais 15 leitos de UTI covid no Hospital Metropolitano, a Rede vai abrir espaço para gerenciamento de mais leitos não covid no hospital Mário Gatti.

A prefeitura informou ainda que conseguiu desafogar a sobrecarga de demanda na sala vermelha, que é um espaço de transição no hospital Mário Gatti, que recebe pacientes do resgate, SAMU e de demanda espontânea. São casos agudos, como agravamento de doenças crônicas e vítimas de acidentes de trânsito. Ontem, o local estava com 16 pacientes. Chegou a estar com mais de 20 nesta semana.

Sobre os pacientes com suspeita de covid a prefeitura informou que todos são atendidos exclusivamente na unidade Mário Gatti - Amoreiras (antigo Hospital Metropolitano). Todos os pacientes que chegam ao Pronto Socorro (PS) do Mário Gatti são testados. Aqueles com sintomas são encaminhados para a sala de isolamento ou para o hospital Metropolitano.

Com relação ao elevador da unidade Mário Gatti, a Rede informa que já foi feito o conserto. O equipamento ficou parado enquanto uma peça quebrada foi encomendada pela empresa responsável pela manutenção, mas já está funcionando.

A prefeitura ressalta que todos os pacientes seguem os protocolos sanitários com rigor, ficam de máscara e a unidade mantém distanciamento entre macas. Em relação à sobrecarga dos profissionais de saúde, a Rede informa que está ciente do trabalho e dedicação dos trabalhadores.

 

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