Publicado 26 de Maio de 2021 - 12h23

Por Gilson Rei/Correio Popular

A farmacêutica Rhaissa Martins Alves, que trabalha em uma drogaria de Campinas:

Diogo Zacarias/Correio Popular

A farmacêutica Rhaissa Martins Alves, que trabalha em uma drogaria de Campinas: "A venda dos medicamentos controlados está em alta desde o início da pandemia"

A pandemia por covid-19 provocou um aumento de pelo menos 17% na comercialização de medicamentos antidepressivos para tratar pacientes de depressão, ansiedade e insônia agudas. Uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF), divulgada no fim de fevereiro deste ano, indicou que quase 97 milhões de caixas de antidepressivos e estabilizadores de humor foram vendidas em todo o país durante o ano de 2020, um aumento de 17% na comparação com os 12 meses anteriores. Nas farmácias pesquisadas em Campinas, a venda de antidepressivos teve aumento médio de 20%.

Dados da pesquisa apresentada pelo Conselho Federal de Farmácias mostraram que o uso desses medicamentos vem crescendo ao longo dos últimos anos no Brasil e tornou-se mais efetivo com a situação de isolamento social; aumento do desemprego; dificuldades financeiras e perdas de entes queridos, dentre outras questões que se agravaram com a pandemia de covid-19.

Em 2017, o Conselho contabilizou a venda de 67,69 milhões de caixas desses medicamentos no país, número que subiu para 73,83 milhões em 2018 e 82,76 milhões em 2019. No ano passado, o total de caixas vendidas foi de 96,62 milhões. Em alguns estados brasileiros, o consumo de antidepressivos no ano passado foi ainda maior que a média do país. Amazonas e Ceará apresentaram os maiores índices de consumo desses medicamentos durante pandemia, ambos com 29%. Na sequência aparecem Maranhão (27%), Roraima (26%) e Pará (25%). Rio de Janeiro aparece com 20% de aumento e São Paulo com crescimento de 18% nas vendas deste tipo de medicamento.

Campinas

A maior procura por antidepressivos em Campinas foi confirmada nas 25 farmácias pesquisadas pela reportagem. Marco Castro, gerente da Drogaria Drugstore Popular, do Jardim Nova Europa, disse que as vendas foram acima de 20% no caso de antidepressivos neste período de um ano. "Muita gente procura a farmácia para comprar esses medicamentos, alegando estarem em crise, mas a venda é feita somente com prescrição médica. Recomendamos a procura de um médico para avaliar o grau da doença", contou.

Rhaissa Martins Alves, farmacêutica da Drogaria Drugstore Popular, loja dois do Jardim Proença, destacou que as vendas foram até superiores a 20%, considerando também os medicamentos naturais fitoterápicos, indicados em casos de estresse e insônia. "A venda dos medicamentos controlados está em alta desde o início da pandemia, principalmente os de tarja preta", comentou. "Só para se ter uma ideia, a drogaria vendeu 53 antidepressivos somente no período da manhã desta segunda-feira", exemplificou a farmacêutica.

Segundo Rhaissa, os antidepressivos são aliados importantes da saúde mental em casos como depressão, ansiedade e insônia agudas, problemas que têm ocorrido com maior frequência durante a pandemia. "Porém, quando usados de forma inadequada, podem causar dependência e danos à saúde. Por isso, a drogaria vende apenas com prescrição e recomendamos sempre buscar a orientação de um médico para indicar o melhor tratamento para cada caso", afirmou.

Outro aspecto detectado pela farmacêutica na drogaria, desde o início da pandemia, é que os antidepressivos são procurados por todas as faixas etárias. "Antes estes medicamentos eram vendidos para pessoas com mais de 40 anos. Atualmente, percebemos que pessoas de todas as idades estão na lista de compradores", comentou.

Compradores

Uma mulher que entrou na drogaria para comprar um antidepressivo durante a visita da reportagem preferiu manter seu nome em sigilo, mas disse que nunca imaginou ter que recorrer aos remédios para reverter um caso de ansiedade e depressão. "Perdi o emprego no ano passado e não consegui mais uma colocação. Meu marido também teve que fechar seu comércio e uma depressão tomou conta da gente", explicou.

Segundo ela, a orientação médica foi fundamental. "Eu e meu marido estamos melhorando porque conseguimos ter orientação conjunta de uma psicóloga e um psiquiatra. O antidepressivo surtiu efeito, mas ainda temos que ter um monitoramento dos médicos para ver quando vamos parar de nos medicar. Fico pensando nas pessoas que não têm como ser atendidas por médicos e comprar os medicamentos", afirmou.

Um rapaz que comprou um antidepressivo na mesma drogaria não quis também se identificar e contou que passa por depressão por conta da morte de sua mãe, vítima da covid-19. "Toda a família ficou abalada e está difícil vencer esta batalha contra a depressão. Além dos remédios, busco ajuda de médicos e da fé em Deus para sair dessa", desabafou.

Depressão tem origem multifatorial, esclarece psiquiatra

A depressão está ligada ao estresse crônico, à ansiedade e à associação de outros fatores, segundo o médico psiquiatra Eduardo Henrique Teixeira, chefe do serviço de Psiquiatria do Hospital da PUC-Campinas. "Na verdade, é uma associação de fatores que o corpo humano, na maior parte das vezes, não está preparado para reagir sozinho", comentou. Segundo Teixeira, o ser humano está preparado para reagir a um estresse agudo, que ocorre em alguns momentos da vida. "Nestes casos, as pessoas reagem e superam naturalmente sem uso de medicamentos, porém o estresse crônico é uma situação que o corpo humano não está preparado", reforçou.

O estresse crônico é a situação de pressão contínua vivenciada nestes tempos de pandemia. "Esta pressão contínua é provocada pelo medo da morte, pela proibição de sair de casa, pelo medo de perder um ente querido e por tantos outros medos, incluindo o medo de ter seqüelas e o medo de não ter mais um emprego", exemplificou o psiquiatra. Segundo Teixeira, o corpo humano reage muito mal ao estresse crônico. "Produz hormônios ligados ao estresse que geram alterações no corpo físico. Um dos hormônios é o cortisol, que é produzido pela glândula adrenal. Isso leva a uma descarga adrenérgica e causa alterações físicas", afirmou.

Além de mudanças físicas, o estresse crônico provoca alterações no cérebro. "O corpo sente esta mudança, assim como a pessoa sente alterações também das respostas dos neurotransmissores, que são substâncias que circulam no cérebro e respondem de forma importante nas emoções comportamentais e mentais", explicou. "Esta alteração nas respostas dos neurotransmissores no cérebro resulta em quadros de depressão e síndromes", acrescentou.

O psiquiatra destacou também que outras causas estão associadas ao surgimento da depressão, como a herança genética, traumas, situação familiar, dentre outras. As pessoas com depressão apresentam sintomas diversos. "Um dos sintomas é a perda do prazer natural por situações da normalidade. Perde o prazer de ler um livro, de estar com amigos, de comer um tipo de refeição, de exercer um trabalho, de praticar esporte, dentre outras atividades", exemplificou o psiquiatra.

Outro sintoma destacado por Teixeira é o humor deprimido. "A pessoa sente uma tristeza exagerada, pensa em morte e sente que a vida não tem mais sentido". Outros sinais que relacionados à depressão são as alterações do sono, do apetite e da concentração. "O choro fácil, as alucinações, os delírios e o sentimento de culpa pela morte estão também na lista dos sintomas", complementou.

Além do próprio paciente, a família também deve ficar alerta a esses sintomas e sinais. "A família tem que estar atenta e perceber que a pessoa está depressiva. Depois deve procurar um médico. Os medicamentos antidepressivos são mais eficazes atualmente e apresentam poucos efeitos colaterais. Além disso, os preços estão mais acessíveis. As pessoas devem ter a orientação médica porque existe um tempo certo de aplicação para cada caso e deve ser acompanhado pelo psiquiatra e pelo psicólogo de forma conjunta", finalizou. 

 

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Gilson Rei/Correio Popular