Publicado 25 de Maio de 2021 - 13h11

Por Moara Semeghini/Correio Popular

A voluntária Rosa Alice Brito Araújo ajuda na organização das doações feitas pela população à Bancada Solidária:

Diogo Zacarias/Correio Popular

A voluntária Rosa Alice Brito Araújo ajuda na organização das doações feitas pela população à Bancada Solidária: "Tem mãe que não come para dar para os filhos"

Assim como a população de diversas cidades do País e do mundo, os campineiros também sentem o impacto da fome em um dos piores momentos da pandemia do coronavírus. A gravidade da crise, representada pelo aumento do desemprego e o colapso na saúde, coloca em evidência o número crescente de pessoas carentes que dependem de um ato solidário para sobreviver. Pessoas que, em função da doença, se tornaram mais vulneráveis.

A solidariedade, os trabalhos voluntários, o desejo de contribuir com o bem-estar do outro, a generosidade têm se multiplicado em muitos lugares do Brasil. Empresas, instituições e voluntários se mobilizam para arrecadar e doar alimentos, de modo a atender diariamente milhares de pessoas. Entre elas, estão desde moradores de rua até trabalhadores informais que ficaram sem remuneração neste período.

Um bom exemplo de ação socialmente responsável é a "Bancada Solidária", entidade organizada por um grupo de voluntários que distribui cestas básicas a famílias carentes de Campinas. Criada no início da pandemia, a organização está localizada na entrada do Kartódromo do Parque Taquaral. A iniciativa tem sido um sucesso.

A ação já atraiu filas quilométricas ao redor do parque. Somente neste ano, já arrecadou mais de quatro toneladas de alimentos. "Ainda este mês, chegaremos a cinco toneladas", calcula Conrado Ziggiatti Guth, voluntário da ONG e um dos responsáveis pela organização, distribuição e controle dos mantimentos. Segundo ele, a entidade é a que mais entrega cestas básicas em Campinas.

 

Histórico

Tudo começou com um pequeno varal feito por uma empresária. O varal solidário, como foi chamado, ficava esticado na portaria do Kartódromo. Nele, era possível pendurar lanches, frutas e outros alimentos para as pessoas que moram na rua ou que enfrentam algum tipo de necessidade. "Quando começou a pandemia, percebemos que haveria uma demanda maior e que aquele varal não ia atender mais a todos. De fato, o varal ficou pequeno para a necessidade crescente de um grande número de pessoas", afirma Conrado.

Um dos voluntários, que hoje é um dos organizadores da Bancada Solidária, resolveu, então, colocar uma estante no local para receber um número maior de doações. Logo as colaborações preencheram o móvel, dando início ao surgimento da Bancada.

"A ideia era a seguinte: quem pode, coloca a doação de alimentos; quem precisa, pega. Era uma coisa bem aberta. Começou a aumentar o movimento e algumas pessoas, que estavam atentas, observando, aqui da região, viram a necessidade de começar a organizar, pois muita gente passou a vir buscar alimentos. Chegou o momento em que foi preciso delimitar uma área em volta da bancada para evitar aglomeração", explicou Conrado.

"No início, o pessoal vinha buscar coisas na estante, mas dava briga porque não tinha uma ordem. Passamos uma 'cordinha' em volta da estante, pois percebemos a necessidade de ter uma organização", explica André Índio, vice-presidente da entidade. Depois dos ajustes, a estante ficou pequena diante de tanta doação. O passo seguinte foi utilizar portas velhas de madeira para produzir uma enorme mesa.

Mudanças na entrega

Daí em diante o sucesso da ação aumentou sucessivamente. Com o êxito, também vieram os problemas. Milhares de pessoas esperavam horas para receber a cesta básica. A situação das filas ficou insustentável, pois gerava um enorme risco de contaminação para as pessoas e para os voluntários. Preocupada, a Prefeitura de Campinas fez um pedido para que os organizadores da bancada realizassem uma mudança na distribuição, devido à aglomeração que a ação causava. A responsabilidade de não colocar as pessoas em risco obrigou a Bancada Solidária a agir de outra forma.

"Gostaríamos muito de entregar para as pessoas diretamente, mas não podemos fazer isso, pois não temos capacidade de efetuar esse controle. Então, mudamos o procedimento e passamos a entregar os alimentos para as entidades assistenciais sérias. Elas têm esse filtro", explica Índio.

"Nós entregamos para mais de 50 instituições de caridade, tais como Casa da Sopa, Casa da Criança Paralítica, Instituto A Esperança. Tem de tudo: creches, asilos, algumas representações de bairro, todas com penetração popular", conclui.

Chave do sucesso está no envolvimento dos voluntários

Dar comida a quem tem fome é considerada uma missão por pessoas que dedicam parte do tempo a fazer o bem

As voluntárias Rosa Alice Brito Araújo e Dilma Silva Rezende, que passam o dia recebendo as doações na “Bancada Solidária”, já estiveram entre as pessoas que ficavam na fila para receber doações. "Elas vinham aqui pegar alimentos. Conheci as duas na fila, quando vinham pegar para outras pessoas. Hoje, elas nos ajudam muito, são duas voluntárias incríveis, sempre estão aqui", conta André Índio.

"Eu e minha amiga vínhamos pegar alimentos para levar para algumas das 72 famílias que vivem em uma ocupação nas proximidades. A gente levava para os moradores de lá e avisávamos para que eles viessem pegar também", conta Rosa. Quando a Bancada mudou a estratégia de doação e passou a doar apenas para as entidades, a dona de casa resolveu criar uma entidade que representasse as pessoas que ela ajudava.

Levou todos os documentos necessários para poder criar a organização, passando a receber as doações das cestas básicas. "Já que nós estávamos sendo ajudadas, me interessei em saber como eu também poderia fazer para ajudar". Ela e Dilma levam os mantimentos para centenas de pessoas carentes que não fazem parte das outras associações cadastradas.

Água com açúcar para filho

"É gratificante", diz Dilma. "Peço para que as pessoas continuem doando, pois está sendo de muita serventia para muitos necessitados", acrescenta. "Tem gente que não tem o que comer. Quando chegamos nessas comunidades, encontramos mãe que está dando água com açúcar para o filho, no lugar de leite ou arroz com feijão", revela Rosa.

"Tem mãe que não come para dar para os filhos", completa ela, que às quintas-feiras recebe a ajuda da nora, que sai do Jardim São Marcos e passa o dia ao seu lado, recebendo contribuições e ajudando na organização. "Temos a credibilidade da população por estar em um lugar de fácil acesso e dar transparência para o que a gente faz", acredita Índio.

"O número de pessoas que passam necessidade hoje aumentou muito. Muitas não estavam acostumadas a pedir, porque faziam parte de outra classe social. Entretanto, passaram a ter dificuldades até mesmo para se alimentar, assim que a pandemia começou. É o caso de cabeleireiros que deixaram de trabalhar", exemplifica Índio.

As boas energias da solidariedade parecem estar sempre por ali. Uma vez, acabou a comida e ainda havia 50 pessoas na fila para receber alimentos. "Pensei, com muita fé, que precisava que mais alguém chegasse com doações. Em poucos minutos, apareceu um cara com 100 cestas básicas na caminhonete", lembra Índio. As 100 unidades foram doadas no mesmo dia. "Esse é o espírito. Por isso, nós precisamos muito da população para colaborar conosco sempre", completa.

Índio acredita que essa grave crise causada pela pandemia do novo coronavírus deverá demorar a passar. Destaca ainda que a necessidade de alimentar milhares de pessoas que passam por dificuldades é diária.

"Venho aqui todo mês. Eu tive uma consulta médica aqui perto e aproveitei para doar. Aqui funciona até às 17h, que é o horário que paro de trabalhar. Sempre dou um jeitinho de correr aqui e doar", afirma a analista de sistemas de 38 anos, Andréa Pavan Áreas, que deixou um pacote de mantimentos na bancada. "Gosto de doar aqui porque sei que é fixo, então, sei que sempre está no mesmo lugar, não precisa de campanhas", explica.

Segundo Índio, a “Bancada Solidária” está prestes a se tornar uma associação beneficente. "O CNPJ já está para sair. A “Bancada Solidária” surgiu com a pandemia e vai ficar para sempre em Campinas", promete Índio.

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Moara Semeghini/Correio Popular