Publicado 22 de Maio de 2021 - 12h01

Por Mariana Camba/Correio Popular

A relações públicas, Marilena Glair Baldasso (à esquerda), sente falta de abraçar todos os dias, pois simboliza a troca do amor e a amizade

Diogo Zacarias/ Correio Popular

A relações públicas, Marilena Glair Baldasso (à esquerda), sente falta de abraçar todos os dias, pois simboliza a troca do amor e a amizade

O Dia Nacional do Abraço é celebrado hoje, como representação do amor e do carinho. Através desse gesto é possível se sentir acolhido e em segurança. Abraçar é poder trocar emoções com o toque, sentir o outro de perto e mergulhar em um sentimento que não tem como ser expressado em palavras. Durante a pandemia, eles foram "banidos" do dia a dia, devido ao isolamento social. São poucos os que ainda conseguem ter essa alegria e desfrutar da troca que apenas o abraço proporciona.

Segundo o médico e professor de clínica médica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jamiro da Silva Wanderley, desde criança todos se vêem envolvidos em um abraço, através da amamentação, que é sinônimo de carinho, aproximação, e que traz uma sensação de conforto. "Todos nós, quando bebês, ficávamos quentinhos e satisfeitos devido ao abraço materno. É como se o nosso subconsciente entendesse o carinho como sinônimo de segurança. Quando nos abraçamos sentimos tranquilidade", explicou Wanderley.

Os abraços, de acordo com o médico, sempre estão atrelados a momentos agradáveis ou zonas de conforto. Wanderley ressaltou que quando duas ou mais pessoas se abraçam elas se sentem acolhidas, através de um ato de generosidade. "Ninguém abraça uma pessoa que não confia, por isso o gesto é tão importante e especial, quando sincero", afirmou o médico. Para ele, as pessoas conseguem sobreviver sem o carinho, portanto ele não é uma necessidade. "Mas, assim não teríamos momentos tão bons de felicidade. O gesto é uma forma de recarregar as baterias, de desabafar e de encontrar a alegria", acrescentou.

Segundo o médico, o abraço sincero é quando se sente o coração do outro pulsar, como se as pessoas envolvidas no gesto se "sintonizassem". Há os gestos afetivos que remetem às memórias boas, e tem os que ajudam a curar a dor. "Abraçar libera serotonina, o hormônio da felicidade. Ele é tão importante, que tem gente que precisa repor através de remédio", ressaltou. De acordo com o médico, através do gesto também há a liberação da endorfina, o hormônio do prazer, por isso o gesto revigora "o corpo e a alma".

Diante do caos provocado pela chegada da covid-19, lembrou Wanderley, as pessoas ficaram mais carentes de um abraço sincero. "A gente precisa encontrar outros meios para manter a troca de energia e de afeto. São saídas para não bloquearmos a afetividade, no momento em que mais precisamos dela", considerou. Segundo a psicóloga do Hospital PUC-Campinas, Alessandra Lima, abraçar melhora a saúde mental da pessoa, e inclusive relaxa o corpo. "Quem abraça mais, corre menos risco de desenvolver uma doença cardíaca, reduz o estresse, tem maior controle da ansiedade e fortalece o sistema imunológico", explicou Alessandra.

De acordo com a psicóloga, desde o início da pandemia aumentou o número de pacientes que reclamam da falta do afeto. Todos citam a falta de carinho durante as sessões. "É comprovado cientificamente que uma pessoa que recebe abraços é mais feliz. Ele é essencial para que a gente possa viver em sociedade, e demonstrar o que sentimos ao próximo, através da ação e da sensação que o gesto proporciona", concluiu Alessandra.

Remédio

Segundo o oncologista, André Deeke Sasse, o abraço pode ser usado como remédio durante o tratamento de doenças graves, como o câncer. "A doença é muito solitária. Por mais que o paciente compartilhe o momento junto com a equipe médica, a solidão é sentida de forma permanente", afirmou Sasse. Por isso que, segundo ele, é importante estimular as pessoas que estão passando por um momento difícil, a conversarem com seus familiares, e abraçarem quem ama por ser uma forma muito particular de contato e de "transferência de emoções".

Para Sasse, o resultado dessa experiência é benéfico para todo mundo. "É necessário que as pessoas entendam que abraçar também é um cuidado, em prol da própria saúde", garantiu o oncologista. Para ele, o carinho humaniza as relações interpessoais e propicia a melhora das pessoas, com elas mesmas e com os demais. "Agora estamos enfrentando esse desafio de substituir o abraço com palavras, ou com gestos virtuais. Precisamos encontrar meios de manter a troca da positividade de alguma forma, daqui em diante", concluiu Sasse.

“Eu sou uma pessoa movida pelo coração”

A relações públicas, Marilena Glair Baldasso, de 67 anos, afirmou que sente falta de abraçar todos os dias, pois simboliza a troca do amor e a amizade. "Um abraço é aconchegante". Para ela, a pandemia escancarou o quanto a ausência do contato físico é angustiante. Marilena não vê a família há alguns meses e, segundo ela, o pior problema é não poder abraçar a mãe, os irmãos e os amigos mais próximos.

"Quando encontro alguém por acaso é instintivo abraçar. Eu sou aquela pessoa movida pelo coração. E agora essa troca foi cessada. Nunca senti tanta falta de ter pessoas por perto", lamentou.

Para a vendedora, Lindsay Vogt Salles, 33 anos, o gesto é uma forma de não se sentir sozinha. Por causa do isolamento social, o único lugar que ela tem ido é na casa da mãe. "Moro sozinha com os meus filhos.

Quando chego em casa do trabalho, abraço a todos. A emoção é grande por saber que tenho os que amo por perto", contou. Segundo a vendedora, o abraço vale mais do que o dinheiro pode pagar. "Esse carinho é uma forma de falar eu te amo. Não tem preço! É o meio que tenho encontrado desde o último ano para nutrir a alma e o coração. Esses dias eu abracei a minha mãe bem forte, porque eu não sei até quando vou tê-la ao meu lado. Precisamos viver todos os dias como se fosse o último", garantiu.

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Mariana Camba/Correio Popular