Publicado 21 de Maio de 2021 - 15h07

Por Cibele Vieira/Correio Popular

Luiza Corradini e o tambor com restos de alimentos que serão utilizados na compostagem termofílica, composto orgânico rico em nutrientes e microorganismos benéficos à saúde do solo

Ricardo Lima/Correio Popular

Luiza Corradini e o tambor com restos de alimentos que serão utilizados na compostagem termofílica, composto orgânico rico em nutrientes e microorganismos benéficos à saúde do solo

Sustentabilidade é a palavra do momento. A maioria das pessoas reage com simpatia a ela, mesmo não praticando. A compostagem das sobras da cozinha é um bom exemplo. Ideia genial essa de reciclar a vida da terra. Então, porque será que 51% do volume acumulado nos aterros sanitários é de resíduos orgânicos, a matéria-prima da compostagem? Porque nem todos têm tempo, espaço ou disposição para construir e manter uma composteira. Foi observando isso que dois empreendedores de Campinas decidiram criar, em janeiro de 2020, uma usina de compostagem abastecida com as sobras de alimentos recolhidos em casas e restaurantes.

Cerca de 650 quilos de resíduos orgânicos são recolhidos por mês em 50 pontos – entre residências e negócios – pelo Projeto Guaráipu e transformados em composto que volta para alimentar a terra em hortas e jardins.

Os participantes pagam uma mensalidade (R$ 60) para cobrir os custos de retirada e de transporte. Recebem baldes com tampa, limpos e higienizados para recolher os resíduos e aguardar a retirada semanal. Luiza Corradini e seu marido Talles Abreu construíram, nos fundos da chácara onde moram, no bairro Village Campinas, oito leiras que comportam, cada uma, uma tonelada de resíduos. O espaço é compartilhado também por uma horta orgânica, onde o composto final é testado.

 

A revolução dos tambores

O Projeto Guaráipu realiza a compostagem de materiais gerados por pessoas físicas e jurídicas, que produzem menos de 120 litros de resíduos orgânicos por dia. A empresa fornece tambores e baldinhos para o armazenamento dos resíduos orgânicos (legumes, verduras, frutas, filtro de café, guardanapo, carne, pão, bolo, comidas cozidas, folhas) e toda semana coleta a embalagem cheia deixando um recipiente limpo. Todos os participantes recebem um relatório no final do mês especificando o volume coletado e compostado.

O sonho de Luiza e Talles é ter uma área para praticar a permacultura, um estilo de vida que consegue integrar vários sistemas, como a produção de alimentos, reciclagem, captação da água de chuva, tratamento ecológico do esgoto, compostagem e outros. Antes de investir na gestão de resíduos, o casal trabalhou com manejo de abelhas nativas sem ferrão (chamadas Guaráipu, por isso, o nome do projeto). Para o período pós-pandemia, fazem planos de realizar projetos de educação ambiental em escolas. Luiza é engenheira ambiental.

 

Rio de Janeiro é pioneiro em sistema de resíduos orgânicos

Luiza Corradine defende o incentivo do poder público a programas sustentáveis

O Rio de Janeiro foi pioneiro na implantação de um sistema e coleta de resíduos orgânicos, por meio da Ciclo Orgânico, criada em 2015 e hoje com 2.400 clientes. Mas é da região Sul do País que vem o exemplo mais significativo desse sistema. A cidade de Florianópolis tem uma lei municipal obrigando o encaminhamento dos resíduos para compostagem. Isso estimulou a criação de várias empresas e o envolvimento maior da população.

Em Campinas, apesar do plano municipal de gestão de resíduos, a compostagem não é obrigatória e falta educação ambiental à população. Luiza Corradine comenta que falta o poder público levar responsabilidade ao cidadão, repassar informações e investir em campanhas que esclareçam e motivem a participação em programas sustentáveis. Quem quer conhecer unidades em outras regiões pode buscar o mapeamento nacional no instagram: @composteirosdobrasil

Processo termofílico

No Projeto Guaráipu é realizada compostagem termofílica, ou seja, são criadas condições de equilíbrio entre a matéria orgânica úmida (os alimentos, ricos em nitrogênio), a matéria orgânica seca (folhas, serragem, ricas em carbono), umidade (água) e aeração (oxigênio). Essa mistura equilibrada gera um ambiente propício para os microorganismos decompositores se desenvolverem. Quando os fungos e as bactérias realizam seu trabalho, há um aumento na temperatura e evaporação da umidade. É um processo que imita a decomposição na natureza, eliminando todo tipo de patógeno e liberando os nutrientes após a estabilização do processo. A aeração é realizada manualmente e a maturação do composto se completa no período de 60 a 90 dias.

Diferentemente do processo de compostagem por meio do minhocário, o produto final não é o conhecido húmus, explica Luiza, mas sim um composto orgânico rico em nutrientes e microorganismos benéficos à saúde do solo. Cada tonelada de resíduos e serragem rende cerca de 250 kg de composto, vendido em embalagens de 10 kg e 2 kg. Melhor caminho seria a redução do desperdício de alimentos dentro de casa. Ela ressalta ainda que a compostagem é um processo biológico que exige cuidados. Se não tiver os parâmetros certos, pode se tornar um impacto ambiental.

 

 

 

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Cibele Vieira/Correio Popular