Publicado 20 de Maio de 2021 - 13h32

Por Gilson Rey/Correio Popular

Fachada da sede do Desenvolve SP: banco se limita a informar que colabora com as investigações e a criticar a reportagem do Correio Popular

Diogo Zacarias/Correio Popular

Fachada da sede do Desenvolve SP: banco se limita a informar que colabora com as investigações e a criticar a reportagem do Correio Popular

Como sempre ocorre com as grandes fraudes financeiras, especialmente no Brasil, a que está sendo investigada atualmente pela Polícia Federal sob o nome de "Operação Black Flag" está repleta de mistérios. Um deles está relacionado ao fato de as agências financeiras públicas de fomento, como o banco Desenvolve SP, terem feito empréstimos vultosos a empresas sem verificar, com o necessário rigor, se os recursos estavam sendo aplicados corretamente, segundo os critérios estabelecidos pelas próprias instituições. Mas, há outro enigma igualmente intrigante no golpe bilionário, este ligado especificamente ao Desenvolve SP. De acordo com a PF, os documentos relacionados aos créditos envolvidos no escândalo simplesmente desapareceram dos arquivos do banco.

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De acordo com informações do delegado da PF em Campinas, Edson Geraldo de Souza, o banco ligado ao governo do Estado de São Paulo está sendo investigado porque não forneceu à Receita Federal os processos relacionados aos empréstimos. "A investigação vai tentar descobrir como se deu o desaparecimento desses documentos", explicou o policial. A julgar pela complexidade do processo de análise de um pedido de crédito, os investigadores terão muito trabalho para chegar aos eventuais responsáveis pelo sumiço das possíveis provas da fraude.

Na teoria, o sistema adotado pelo Desenvolve SP para analisar uma solicitação de financiamento é rigoroso. Um empresário que queira obter recursos junto ao banco tem primeiro que fazer um cadastro online no site da instituição. Em seguida, receberá um e-mail que dará acesso ao pedido de crédito propriamente dito. Superada essas etapas, o pleito vai ser analisado por diversas áreas e instâncias, cujo propósito é verificar, entre outros aspectos, se o solicitante é idôneo e se tem o perfil adequado à concessão dos recursos.

Pelos critérios estabelecidos pelo Desenvolve SP, depois das análises iniciais, os pedidos que superam determinado valor, hoje fixado em R$ 30 milhões, têm que ser aprovados pela Diretoria Executiva. Em seguida, também precisam da anuência do Conselho de Administração. Todo esse trâmite gera um processo em papel, que depois é digitalizado. Ou seja, cada documentação conta com backup, para garantir a preservação das informações relacionadas às atividades do banco. A missão da Polícia Federal é descobrir como a papelada - e o arquivo digital - referente às operações investigadas pela Operação Black Flag desapareceu e quem foi o responsável pelo sumiço.

Na época em que os empréstimos foram concedidos às empresas investigadas pela PF, em 2011, a diretoria executiva do banco era formada por Milton Luiz de Melo Santos (presidente) e pelos diretores Paulo Roberto Penachio, Julio Themes Neto e Claudio de Oliveira Torres. Com cadeiras no Conselho de Administração estavam Carlos Henrique Flory, Isamu Ohtake, Humberto Batistella Filho, Tomás Brginski de Paula e David Zaia, sendo que este último é bastante conhecido em Campinas, onde desenvolveu carreira sindical e política, tendo inclusive ocupado uma vaga na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Atualmente, Zaia é presidente do diretório municipal do partido Cidadania, em Taubaté.

Na ocasião, nenhum dos integrantes do alto escalão do Desenvolve São Paulo, que até então tinha o nome de Nossa Caixa Desenvolvimento, viu qualquer irregularidade nas operações que a PF está investigando na atualidade. Tanto que o dinheiro foi liberado. O banco é, portanto, vítima do golpe, bem como o cidadão paulista, que financia, por meio do pagamento de impostos e tributos, as linhas de financiamento para as micro, pequenas e médias empresas do Estado. Resta saber, e a PF está empenhada nisso, quem patrocinou a fraude.

Os mistérios que temperam esse intrincado escândalo financeiro não param por ai. Há acontecimentos surreais que dão ao episódio um caráter de filme de suspense. O Correio Popular, que tem acompanhado o desenrolar das investigações, trará mais detalhes em suas próximas edições. De acordo com a PF, as averiguações em torno do caso tiveram início há dois anos. As fraudes contra instituições bancárias, o Desenvolve SP entre elas, foram descobertas a partir de ações da Receita Federal, que identificou "movimentações financeiras suspeitas".

Um inquérito então foi instalado, e a PF descobriu "uma complexa rede de pessoas físicas e jurídicas fictícias" na região de Campinas, responsável por movimentar um valor da ordem de R$ 2,5 bilhões em operações financeiras. A reportagem não conseguiu localizar David Zaia para comentar se chegou a analisar pessoalmente alguns dos financiamentos objetos de fraude.

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Gilson Rey/Correio Popular