MARIA DE FÁTIMA

Caminhante solitário

Correio Popular
04/06/2013 às 10:41.
Atualizado em 25/04/2022 às 13:28

Tenho observado já há algum tempo que andarilhos caminham às margens das rodovias paulistas. A maioria deles é de psicóticos, que andam sem rumo definido, sem objetivo claro, enfim, sem razão plausível que justificasse aquele andar solitário. São homens, e principalmente esses, e mulheres que sozinhos ficaram, abandonados por suas famílias, por seus amigos e pelo Estado.Antes de serem sujeitos errantes, eram pacientes internados em hospitais psiquiátricos, mas com o movimento de desinternação também conhecido como Luta Antimanicomial, perderam um espaço, que mesmo público porque mantido pelo Estado, era a única referência de vida privada que possuíam.Sei que é difícil acreditar que as instituições totais possam oferecer alguma privacidade a alguém, mas ao menos a cama que o paciente usava, sentia como sendo sua. Talvez realmente esse fosse o seu único “bem” que possuía no hospital, e até mesmo em sua vida.Os problemas que advém das internações, como o hospitalismo, são inúmeros e geralmente degradam o paciente. De fato a internação hospitalar deve ser usada como último recurso para aqueles que estejam colocando em risco a sua integridade física e a dos outros, e não como única moradia dos doentes mentais abandonados ou rejeitados por suas famílias, mesmo que esses não apresentem o risco mencionado.O Estado não pode simplesmente desinternar essas pessoas sem oferecer uma condição de vida digna para elas. Isso que está acontecendo vai contra os Direitos Humanos, pois um deles é exatamente o de viver com as necessidades básicas atendidas.A estrada, por mais liberdade que ela represente, e, portanto, é o oposto do hospital psiquiátrico, não deve ser o único caminho que esses pobres indivíduos encontraram para viver. Eles precisam ser olhados com respeito e a eles devem ser dispensados os cuidados que necessitam por sua condição singular.É aviltante observarmos um Estado que tanto arrecada de impostos, proporcionar uma situação miserável aos seus cidadãos insanos desamparados, rejeitados e incapazes.

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