Filme de Kathryn Bigelow foi ignorado pelo Oscar, mas é belo relato de como agem os EUA
A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow, é a história (ficcionalizada) da caça da CIA a Bin Laden, que terminou com a morte do líder da Al-Qaeda em 2 de maio de 2011 e foi saudada como vitória da América contra o terror. O filme, no entanto, vem despertando polêmica, e não apenas no exterior, o que poderia ser debitado na generosa conta do antiamericanismo, mas é contestado no país que sofreu o atentado de 11 de setembro.
Por quê? Em especial pelas cenas mostradas na primeira parte, quando informações para chegar a Bin Laden eram arrancadas à base de tortura. Bigelow não poupa o espectador dessas imagens, praticadas a comando de agentes da CIA e na presença daquela que será transformada na heroína da história, a novata Maya (Jessica Chastain). Ela é destacada para a missão, chega ao grupo meio timidamente, enfrenta a situação (inclusive presenciando e endossando a tortura) e logo se tornará a principal animadora da caçada. A Hora Mais Escura é, também, uma história de determinação, tão a gosto da cultura norte-americana.
A questão da tortura é um ponto delicado. Os americanos, Bigelow entre eles, estão prontos a admitir que a guerra é uma coisa feia e coisas ruins acontecem nessas circunstâncias. Mas daí a admitir que o país campeão da democracia pratique a tortura atribuída no passado às repúblicas bananeiras, mesmo que seja com o fim de desvendar o paradeiro do inimigo público número um, vai certa distância. Por isso, como a história se desenrola ao longo dos anos, há uma cena importante quando os agentes da CIA veem, desolados, uma transmissão de TV em que Barack Obama garante que as forças americanas não praticam tortura e que isso prejudicaria a posição moral do país no exterior. Do que se depreende que, durante o governo Bush era assim, e de maneira consensual.
Kathryn Bigelow tem se defendido de críticas. E o faz da maneira básica: o fato de mostrar a tortura em seu filme não quer dizer que endosse a prática. Tem dito, em entrevistas, que é totalmente contra a tortura. Além disso, ajunta, o filme não é um documentário, mas uma ficção. E assim ela, e seu roteirista, Mark Boal, juntam duas linhas de defesa um tanto contraditórias. Primeiro: a tortura está no filme porque foi assim mesmo que aconteceu, pelo menos na primeira fase da caça a Bin Laden. Segundo: fazemos o que queremos porque se trata de uma obra de ficção e a obra de arte é livre para inventar. Certo, mas, em se tratando de uma "obra de ficção baseada em fatos reais" essa liberdade se subordina a uma interpretação pelo menos razoável dos fatos. Tal contradição não escapou ao crítico da New Yorker, David Denby. "Bigelow e Boal invocam a autoridade do fato e a liberdade da ficção ao mesmo tempo e a contradição prejudica esse ambicioso projeto", escreve.
Para dirimir as dúvidas, Kathryn escreveu um artigo sintomático para o Los Angeles Times. Numa linha de argumentação, ela dizia o óbvio, isto é, que não se deve confundir a representação artística de um fato (como a tortura) com o apoio do artista a ele. É explícita: "Bin Laden foi capturado graças a um engenhoso trabalho de detetive. No entanto, a tortura foi, como sabemos todos, empregada nos primeiros anos da perseguição. A guerra, obviamente, não é uma coisa bela, e não estamos interessados em retratar essa ação militar como se fosse desprovida de consequências morais".
Certo, uma no cravo. E, agora, no parágrafo seguinte, outra na ferradura, ou seja no sentido patriótico americano: "Bin Laden não foi vencido por super-heróis descidos do céu, mas por americanos comuns que combateram com bravura, mesmo se algumas vezes (sometimes) cruzaram determinadas linhas morais, trabalharam dura e intensamente, deram tudo de si mesmos na vitória como na derrota, na vida como na morte, pela defesa da nação". Enfim, para quem sabe ler... Mas, no fundo, tudo já estava no filme: se não a defesa da tortura, pelo menos a compreensão de que esses "danos colaterais", essa ultrapassagem de fronteiras morais, faz parte do universo da guerra.
Fora isso, A Hora Mais Escura é um filme de ação a que se assiste sem despegar os olhos da tela. Todos sabem que Kathryn Bigelow é atualmente o diretor mais viril de Hollywood, bastando lembrar o ótimo Guerra ao Terror com o qual ganhou o Oscar de 2010, derrotando o favorito Avatar, do seu ex-marido James Cameron.
A busca das pistas a Bin Laden, passado o primeiro momento truculento nas prisões americanas, ganha o tom de uma investigação intrincada e tensa. Ao mesmo tempo, vai crescendo a personagem de Maya, mostrando, no corpo frágil, a força e determinação que faltam aos machões - que é o viés, digamos, feminista, a história. Enfim, há adrenalina e senso de tensão.
A energia e a obstinação - sintetizadas no ar angelical de corpo frágil de Jessica Chastain -, dão a certeza de que a caçada é impulsionada menos pelo desejo racional de prevenir novos atentados, mas pelo mais elementar dos sentimentos, a vingança. Essa testosterona, bem captada pela câmera máscula de Kathryn, empresta musculatura ao filme e nos arrasta com ele em sua voragem de revanche. As cenas do assalto ao refúgio de Bin Laden são de uma truculência espantosa, mas àquela altura já nos habituamos a tudo.
Há um momento de fragilidade da personagem que tem sido interpretado de maneira benévola por alguns observadores, mas que também pode ser um álibi para todo o conjunto da sua ação, pois afinal pouco sabemos de sua vida. Algo como "Somos todos fracos e estamos diante de coisas que vão além do nosso poder de controlá-las." Pode ser também a tentativa final de humanizá-la, confiando-se que a última impressão é a que fica.
Cabe ao espectador inteligente interpretar e tirar suas conclusões sobre esse filme tão intenso quanto problemático