EDITORIAL

Brasil precisa decifrar o eco que sai da rua

23/06/2013 às 16:59.
Atualizado em 25/04/2022 às 11:38

As ainda difusas intenções das manifestações de rua realizadas por várias cidades brasileiras, e cujos efeitos ainda ecoam aos ouvidos das autoridades e políticos, trouxeram para o País uma enorme pauta de reivindicações que há tempos vinha se acumulando no ideário popular. A insatisfação tomou a forma de um protesto que teve uma origem que praticamente se perdeu, a reivindicação de uma tarifa zero para todos os serviços públicos, até porque uma causa sem lógica ou sustentação plausível pelo bom-senso.

Mais que a surpresa da sociedade com o alcance e a violência registrados durante as passeatas que se propõem pacíficas, o que ressalta no movimento é a espontaneidade, abrangência e o foco difuso das reivindicações, que se catalisaram no propósito comum de reverter o estado de coisas que domina o Brasil há mais de uma década. O eixo do protesto, para a maioria dos manifestantes, é a corrupção no seio da política.

Espanta o grau de rendição dos atuais líderes políticos diante de uma situação de caos iminente. Desde o início dos protestos, prefeitos, governadores, deputados, senadores e o estafe presidencial se fecharam em copas, surpresos com a dimensão do grito da sociedade, mal conseguindo decifrar o recado que ecoava das ruas. O silêncio foi brutal e as poucas manifestações de uma subjetividade colossal.

Na noite de sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff (PT) veio a público em rede nacional de televisão para o que se esperava uma posição oficial a respeito do vandalismo e violência que grassavam, além de medidas de mudança que pudessem atenuar a insatisfação latente. Em pronunciamento meticulosamente montado, não conseguia manter-se parada, denotando estar pouco à vontade na função. Tratou de evasivas justificativas, condenou a violência, acenou com a continuidade de ações do governo, tentou esquivar-se das denúncias de superfaturamento na construção dos estádios como se a farra não estivesse sendo financiada pelo BNDES, e concluiu fazendo um apelo para que a população apoie o evento da Fifa ameaçado de realização. Mais uma vez, a tentativa de colocar o esporte e a paixão nacional como lenitivo para a indignação.

No resumo, postou-se simpática às manifestações — como se não estivesse no epicentro das críticas—, fez um apelo a um vago pacto nacional, buscou reforçar a postura de provedora da Pátria, esqueceu-se da herança recebida de seu antecessor que desaguou na atual crise, e finalizou sem respostas. Apegou-se a um modelo de argumentação que se mostra desgastado e sem efeito. Resta saber se, desta vez, o povo vai se deixar enganar.

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