Na semana passada, falamos da origem e da flexão dos verbos “pedir”, “despedir”, “impedir” e “expedir”. A certa altura, vimos que, na segunda pessoa do plural do presente do indicativo, temos “(vós) pedis”, “(vós) despedis”, “(vós) impedis” e “(vós) expedis”, respectivamente. O caro leitor deve lembrar que insisti na pronúncia dessas formas, que, não custa repetir, são oxítonas, o que significa que a vogal tônica dessas quatro flexões verbais é o “i” da última sílaba (“dis”).No uso efetivo da língua de hoje, o pronome pessoal “vós” agoniza, se é que já não morreu de vez. Seu conhecimento, no entanto, é essencial para quem quer dominar determinadas variedades da língua. Não será a primeira vez que digo que é puro delírio a tese (defendida por alguns falsos progressistas) de que, por ter caído em desuso, o pronome “vós” deve ser abolido das aulas de português. O pronome “vós” pode e deve frequentar essas aulas, desde que o professor tenha a capacidade de mostrar aos alunos as situações em que se registra o emprego do pronome reto da segunda pessoa do plural.Posto isso, vamos voltar às flexões verbais de verbos como os citados no início deste texto. Vamos ver especificamente a segunda pessoa do plural do presente do indicativo dos verbos terminados em “ir”. Em 99,99% desses verbos, essa forma é representada por uma oxítona terminada em “is”: de “insistir”, “vós insistis”; de “conseguir”, “vós conseguis”; de “mentir”, “vós mentis”; de “preferimos”, “vós preferis”; de “dirigir”, “vós dirigis” etc.E por que “99,99% dos verbos” (e não 100%)? A razão é simples: “vir” e derivados (como “intervir”, “convir”, “provir” etc.), “rir” e derivados (como “sorrir” e “ressorrir”) e “ir” são os vilões da história. Temos, respectivamente, “vós vindes” (“intervindes”, “convindes”, “provindes” etc.), “vós rides” (“sorrides” e “ressorrides”) e “vós ides”.É sempre bom lembrar que, no imperativo afirmativo da língua padrão, as duas segundas pessoas (“tu” e “vós”) vêm do presente do indicativo, sem o “s” final. É por isso que de “fazeis” (“vós fazeis”, segunda do plural do presente do indicativo de “fazer”) temos “fazei”, no imperativo afirmativo: “Fazei de mim um instrumento da Vossa paz”. Sabe de que texto é essa frase, não?Vejamos outro caso: “Dizei uma só palavra, e minha alma será salva”. “Dizei” é a segunda pessoa do plural do imperativo afirmativo de “dizer”. De onde vem “dizei”? Vem da eliminação do “s” final de “dizeis” (de “vós dizeis”, do presente do indicativo). Com a forma “dizei”, os fiéis se dirigem ao Criador e Lhe pedem que diga a eles uma só palavra para que a alma deles seja salva.Há algum tempo, um dos mais importantes vestibulares do País (da Unesp) pediu aos candidatos que apontassem, num dos sermões do Padre Antônio Vieira, a única passagem em que o pregador se dirigia diretamente ao público. A resposta (que poucos acertaram) era “reparai”, segunda pessoa do plural do imperativo afirmativo do verbo “reparar”. O baixo índice de acerto provavelmente seja fruto do mau estudo/ensino desse ponto do programa de língua portuguesa. Ou não se toca no assunto (para que se cumpra a tese dos “progressistas”) ou se faz a garotada decorar, sem entender, sem ver na prática, nos textos, nos registros efetivos.