Tese virou livro: psicoterapeuta da Unicamp analisa obras desse gênero literário que propõem receitas prontas para ser bem-sucedido nos relacionamentos amorosos
"Acredito que as pessoas vêm buscando cada vez mais essas receitas rápidas para tudo na vida, inclusive para os relacionamentos. (?) A ânsia por ajuda em busca da realização de metas motiva as pessoas na procura por soluções prontas, por manuais de felicidade" (Adriano Rosa/Especial para a Metrópole)
Foto: Adriano Rosa/Especial para a Metrópole "Acredito que as pessoas vêm buscando cada vez mais essas receitas rápidas para tudo na vida, inclusive para os relacionamentos. (?) A ânsia por ajuda em busca da realização de metas motiva as pessoas na procura por soluções prontas, por manuais de felicidade" Um pouco de atenção ali, um bocado de feminilidade aqui, uma dose de pulso firme e algumas colheres de carisma. Mexa bem e nunca, em hipótese alguma, deixe de seguir o que está prescrito. Receitas rápidas e manuais de conduta que levam a resultados certeiros são cada vez mais buscados pelo ser humano em todas as áreas da vida, inclusive nos relacionamentos amorosos. Entre as fontes de informação para os que procuram um norte para o sucesso pessoal, a literatura de autoajuda, já há algum tempo, se destaca como uma tentativa de resposta imediata a tantas questões. Se os livros, de fato, auxiliam ou não, não se pode afirmar. Mas que existem pontos em comum nas obras não há dúvidas, uma vez que boa parte delas sugere como objetivo final de felicidade o mesmo propósito: o casamento. Debruçada sobre esse tema, a psicoterapeuta e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Vera Lucia Pereira Alves acaba de lançar Receitas Para a Conjugalidade: Uma Análise da Literatura de Autoajuda (Editora Annablume, 270 páginas), em que faz uma análise sobre algumas dessas obras. O livro, viabilizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é fruto de uma tese que a profissional defendeu há dez anos, mas que continua pra lá de atual. “É porque esses modelos ainda estão muito presentes na sociedade, perpetuados. A conjugalidade pregada nos livros pesquisados faz parte de uma série de valores culturais ainda muito atuais”, defende a autora. O objetivo, de acordo com ela, não é criticar ou atribuir juízo de valor às obras de autoajuda, mas propor uma reflexão sobre elas. E foi nesse clima que a psicoterapeuta bateu um papo com a Metrópole na semana passada.Metrópole – Para início de conversa, existem receitas para a conjugalidade ou qualquer outro relacionamento humano? Por que o ser humano vive a buscá-las? Vera Lucia Pereira Alves – Não existem. Esse, inclusive, não é um livro de receitas, como diz o título dele, bem capcioso. No entanto, acredito que as pessoas vêm buscando cada vez mais essas receitas rápidas para tudo na vida, inclusive para os relacionamentos. Estamos em um mundo fast-food e queremos tudo para agora. A ânsia por ajuda em busca da realização de metas motiva as pessoas na procura por soluções prontas, por manuais de felicidade.Qual foi o principal objetivo da pesquisa e da obra que acaba de ser lançada? Quais as motivações que a levaram a pesquisar sobre esse tema? Meu objetivo era analisar a literatura de autoajuda, especialmente, com relação ao tema conjugalidade. O ponto não é criticar ou demonizar essas obras, jamais. Mas, sim, propor uma reflexão a respeito do que ensinam, normatizam e quais semelhanças existem entre elas. Sempre atendi muitos casais na minha clínica e via pacientes bastante inseguros quanto ao amor e seus relacionamentos em geral. Quando essas pessoas iam explicar suas preocupações e referências, citavam muitos produtos culturais, como novelas, filmes e livros de autoajuda. Quantas publicações foram analisadas durante o estudo e quais os assuntos tratados em cada uma? Como foi feita a escolha? Ao todo, li 38 livros para a pesquisa, mas trabalhei com 12 deles. Tentei fazer uma seleção bem democrática, com títulos nacionais e de outros países, que divergiam tanto em forma quanto em conteúdo. Na verdade, ainda não existe uma definição sobre o que é autoajuda, mas considerei as obras que traziam uma espécie de “manual” ao leitor, propondo tarefas para o alcance de uma meta. Quais características em comum a senhora observou nos livros analisados com relação às orientações transmitidas ao leitor? A maior parte deles está centrada em gênero e é voltada para o público feminino. A mulher é quem, geralmente, precisa conquistar o homem. Só li um livro do qual o homem era o leitor em potencial – a obra tratava de como conseguir uma namorada. Eles levam você a fazer um pente fino no seu comportamento para que, individualmente, se torne alguém mais apto a conquistar o outro, sendo que o objetivo final é, normalmente, o casamento. É como se o amor fosse algo obrigatório e que houvesse uma receita certa para a felicidade. São obras que orientam o indivíduo a se aprimorar, desempenhar um trabalho sobre si mesmo, o que ensina muito mais a individualizar do que, de fato, a conjugar. Na verdade, tudo depende de onde vem esse livro e da cultura local, já que a cada dia são formatadas novas ideias de casamento. Porém, esse é um valor que, culturalmente, está presente a todo momento. Na sua avaliação, qual é a diferença entre a ajuda oferecida por obras desse gênero literário e pela psicoterapia? São duas coisas muito diferentes. O processo terapêutico é vivencial, enquanto que o livro é algo cognitivo. Na psicoterapia, existe o diálogo, a troca; é um momento diferente. Não é tão simples assim mudar comportamentos. É preciso refletir, entender. A busca por respostas é sempre louvável, mas existem materiais que nem sempre ajudam a pensar, diferentemente do processo terapêutico. Além da literatura de autoajuda, a senhora acredita que haja outras abordagens semelhantes quando o assunto é relacionamento? Sim, com certeza. Pensando no sentido de prescrições e manuais de conduta, vejo muito conteúdo desse gênero em revistas e na própria internet, em forma de listas. Além de falar sobre relacionamentos, há dicas sobre saúde, dietas mirabolantes e outras receitas ditas infalíveis rodando por aí, o que é ainda mais perigoso. Na verdade, tudo o que for informação, seja em sites ou livros de autoajuda, é válido, sempre. E pode, sim, ajudar muita gente. Só é preciso conhecer quem escreve e refletir sobre o conteúdo, não apenas absorvê-lo.