O funcionamento de prédios públicos devidamente equipados e cumpridos os requisitos técnicos de construção passou a ser uma preocupação para toda a sociedade, despertada para os riscos potenciais que o desleixo e a falta de fiscalização podem trazer aos indivíduos. A tragédia de Santa Maria, onde mais de duas centenas de jovens morreram de uma forma antes impensável, deixou um rastro de dor e perplexidade, mas também uma lição a ser aprendida rapidamente.
A falta de condições ideais de funcionamento da boate Kiss mostrou que muitos desses espaços de lazer e entretenimento não são observados pelos próprios clientes, quanto menos passam por uma fiscalização adequada do poder público. As autorizações são dadas sem nenhum rigor, as fraudes são comuns, os proprietários beiram a irresponsabilidade por fazer vista grossa às irregularidades, em conjunto de fatores que, em situações extremas, levam às catástrofes.
A análise das condições do palco da tragédia despertou a atenção de todos sobre o sistema existente. E mais surpresas foram constatadas. Por todo o Brasil, autuaram-se casas noturnas irregulares, o esquema de concessão de alvarás e laudos de fiscalização falsos foi desmascarado, mostrando que a sociedade está muito mais vulnerável do que se poderia imaginar. Além das casas noturnas, também se constatou que prédios públicos em geral também estão irregulares muitas das vezes, mostrando que a inação e irresponsabilidade não cabem apenas para locais de lazer. O próprio Paço Municipal, onde circulam centenas de pessoas diariamente, funciona sem o laudo do Corpo de Bombeiros por falta de uma brigada interna de incêndio. Muitas igrejas e clubes passam pela mesma situação, e agora todos passam por um processo de regularização (Correio Popular, 7/2, A10).
Infelizmente, são necessários momentos profundamente tristes para que sejam reavaliadas as posturas em relação a questões de segurança. O compromisso com a prevenção é alardeado como a mais sensata postura, mas parece que está sempre sujeito a adiamentos que podem ser fatais. Agora não se tolera menos que uma fiscalização intensiva, rigor na aplicação da lei, modificação da legislação para não permitir brechas que favoreçam os infratores e a instalação de um modelo de segurança impecável. A sociedade deve ainda exercer o seu direito cobrando as medidas imprescindíveis, fazendo denúncias e boicotando aqueles que desrespeitam a integridade dos demais em troca de lucro irresponsável.