ig-antonio-contente (AAN)
Aquela não foi a primeira briga entre Guilherme e Carlota. A novidade, no caso, pintou na fúria com que a mulher reagiu. Enfiou o indicador no nariz do camarada: — Esta casa é minha, comprei com meu próprio dinheiro, sabia? Portanto, a porta da rua é a sua serventia! — É minha serventia? — Rua! – Ela consegue aumentar o volume da voz. Vendo-o agora sem ação, indica: — Quero que você vá pra rua! Vá pra baixo do viaduto! Sem outra alternativa Guilherme obedeceu, saindo. Ecoa novamente a voz da esposa: — Leve suas coisas. Leve suas coisas, pois não quero ter mais o desprazer de ver sua cara!Ele nem olhou para trás. Saiu batendo a porta com certa força. No segundo ato desta história relativamente surreal Barra, o melhor amigo do casal, estava trabalhando tranquilamente no escritório, numa das travessas mais movimentadas do centro da cidade. Ficou surpreso ao ver Carlota entrar na sala. Usa a velha frase: — A que devo a honra?... — Problemas – a palavra saiu numa espécie de grunhido. — Problemas? É o que mais tenho neste escritório de advocacia. Por favor, sente. Ela obedece acentuando que não estava ali em busca de serviços profissionais. — Separei do Guilherme. Não quero mais ver a cara dele; nem pintada de verde e amarelo. — Vamos com calma. Conte direitinho o que aconteceu. — O que aconteceu é que desta vez ele extrapolou. — Houve violência? — Não, nada de violência. Ele apenas me apareceu em casa, alta madrugada, num porre federal e... Como ela parara de falar, o advogado insiste: — E... — E com o colarinho da camisa completamente borrado com marcas de baton. Baton de vigarista, claro, pois no xis da madrugada nenhuma santa vai limpar a boca no colarinho de ninguém...Pinta entre os dois silêncio quase sepulcral. Quem torna é a mulher. — Barra, você é o melhor amigo do cretino do Guilherme. Assim, quero te pedir um favor. — OK, OK, diga lá o que você precisa? — Procure o sacana, e pegue a chave de casa que ele levou. À noite você passa lá comigo que quero também te entregar as coisas dele. Súbito, ela volta a ficar áspera: — Se você não fizer isso, pego o que o bebum deixou e tasco no meio da rua. O advogado, que era um tranquilo, um cabeça fria, garante: — Vamos com calma. Vamos fazer tudo com calma que nada dará errado. Finalmente Carlota concede um sorriso: — Eu não queria te envolver nisso, mas não tinha outro jeito. Desde já, obrigada. Barra sabia onde encontrar o outro e, no fim da tarde, estava diante de Guilherme, no bar de todo dia. Contou o que tinha acontecido, pediu as chaves; ao final, suspirou: — Talvez seja melhor assim. Tenho um quartinho de fundos em casa, levarei teus bagulhos pra lá.Daí olha em volta; aponta: — Menos cerveja, amigo... Menos cerveja... Finalmente sozinho no meio da noite iniciada, Barra começou a sentir o peso daquela chave no bolso. Deu várias voltas em torno de praças conhecidas e, desta vez, quem procurou uma bebida foi ele, numa das esquinas da vida. Durante horas e horas pensou na situação do amigo e, ao olhar no relógio verifica, espantado, que passava bastante da meia-noite. Pagou a conta das várias doses e saiu. Agora ali estava ele, de pé, diante da casa de Carlota, em certa rua arborizada, quase meiga. Mete a mão no bolso, com a ponta dos dedos toca as chaves. Tira. Dando quatro ou cinco passos firmes pra frente, enfia a gazua na fechadura. Abre. As luzes estavam todas apagadas e caminhou direto para um dos quartos, pois conhecia o imóvel como a palma da própria mão. Entreabrindo a porta, escuta a respiração de Carlota, que dormia. Senta na beira da cama, o perfume da dona era mais suave na escuridão quase total. Passa as mãos nos cabelos. Resvala um beijo nos lábios da criatura, que se mexe. O resto aconteceu com perfeição incrível, fora do comum. E cerca de hora e meia depois, sem a troca de uma única palavra, Barra saiu de forma tão silenciosa como entrou. Pelas 10 horas da manhã, no escritório, o moço sentiu que as pernas balançaram ao ver Carlota entrar. Ela vinha sorridente, vazando luz. — Onde o Guilherme está? — Eu não sei... — Esteve em casa de noite, ainda bem que você não pegou as chaves com ele, conforme pedi – a mulher suspira – e aconteceu algo maravilhoso. Na escuridão senti logo o cheirinho de cerveja... Mas foi espetacular, como nos velhos tempos. Fala pra ele que pode voltar. É um cretino, mas pode voltar... Disse isso e saiu. O advogado, com as mãos tremendo, quase não consegue acender o cigarro.