ANTONIO CONTENTE

As chaves do amor

26/09/2013 às 05:00.
Atualizado em 25/04/2022 às 01:32

Aquela não foi a primeira briga entre Guilherme e Carlota. A novidade, no caso, pintou na fúria com que a mulher reagiu. Enfiou o indicador no nariz do camarada:— Esta casa é minha, comprei com meu próprio dinheiro, sabia? Portanto, a porta da rua é a sua serventia!— É minha serventia?— Rua! – Ela consegue aumentar o volume da voz.Vendo-o agora sem ação, indica:— Quero que você vá pra rua! Vá pra baixo do viaduto!Sem outra alternativa Guilherme obedeceu, saindo. Ecoa novamente a voz da esposa:— Leve suas coisas. Leve suas coisas, pois não quero ter mais o desprazer de ver sua cara!Ele nem olhou para trás. Saiu batendo a porta com certa força.No segundo ato desta história relativamente surreal Barra, o melhor amigo do casal, estava trabalhando tranquilamente no escritório, numa das travessas mais movimentadas do centro da cidade. Ficou surpreso ao ver Carlota entrar na sala. Usa a velha frase:— A que devo a honra?...— Problemas – a palavra saiu numa espécie de grunhido.— Problemas? É o que mais tenho neste escritório de advocacia. Por favor, sente.Ela obedece acentuando que não estava ali em busca de serviços profissionais.— Separei do Guilherme. Não quero mais ver a cara dele; nem pintada de verde e amarelo.— Vamos com calma. Conte direitinho o que aconteceu.— O que aconteceu é que desta vez ele extrapolou.— Houve violência?— Não, nada de violência. Ele apenas me apareceu em casa, alta madrugada, num porre federal e...Como ela parara de falar, o advogado insiste:— E...— E com o colarinho da camisa completamente borrado com marcas de baton. Baton de vigarista, claro, pois no xis da madrugada nenhuma santa vai limpar a boca no colarinho de ninguém...Pinta entre os dois silêncio quase sepulcral. Quem torna é a mulher.— Barra, você é o melhor amigo do cretino do Guilherme. Assim, quero te pedir um favor.— OK, OK, diga lá o que você precisa?— Procure o sacana, e pegue a chave de casa que ele levou. À noite você passa lá comigo que quero também te entregar as coisas dele.Súbito, ela volta a ficar áspera:— Se você não fizer isso, pego o que o bebum deixou e tasco no meio da rua.O advogado, que era um tranquilo, um cabeça fria, garante:— Vamos com calma. Vamos fazer tudo com calma que nada dará errado.Finalmente Carlota concede um sorriso:— Eu não queria te envolver nisso, mas não tinha outro jeito. Desde já, obrigada.Barra sabia onde encontrar o outro e, no fim da tarde, estava diante de Guilherme, no bar de todo dia. Contou o que tinha acontecido, pediu as chaves; ao final, suspirou:— Talvez seja melhor assim. Tenho um quartinho de fundos em casa, levarei teus bagulhos pra lá.Daí olha em volta; aponta:— Menos cerveja, amigo... Menos cerveja...Finalmente sozinho no meio da noite iniciada, Barra começou a sentir o peso daquela chave no bolso. Deu várias voltas em torno de praças conhecidas e, desta vez, quem procurou uma bebida foi ele, numa das esquinas da vida. Durante horas e horas pensou na situação do amigo e, ao olhar no relógio verifica, espantado, que passava bastante da meia-noite. Pagou a conta das várias doses e saiu.Agora ali estava ele, de pé, diante da casa de Carlota, em certa rua arborizada, quase meiga. Mete a mão no bolso, com a ponta dos dedos toca as chaves. Tira. Dando quatro ou cinco passos firmes pra frente, enfia a gazua na fechadura. Abre.As luzes estavam todas apagadas e caminhou direto para um dos quartos, pois conhecia o imóvel como a palma da própria mão. Entreabrindo a porta, escuta a respiração de Carlota, que dormia. Senta na beira da cama, o perfume da dona era mais suave na escuridão quase total. Passa as mãos nos cabelos. Resvala um beijo nos lábios da criatura, que se mexe.O resto aconteceu com perfeição incrível, fora do comum. E cerca de hora e meia depois, sem a troca de uma única palavra, Barra saiu de forma tão silenciosa como entrou.Pelas 10 horas da manhã, no escritório, o moço sentiu que as pernas balançaram ao ver Carlota entrar. Ela vinha sorridente, vazando luz.— Onde o Guilherme está?— Eu não sei...— Esteve em casa de noite, ainda bem que você não pegou as chaves com ele, conforme pedi – a mulher suspira – e aconteceu algo maravilhoso. Na escuridão senti logo o cheirinho de cerveja... Mas foi espetacular, como nos velhos tempos. Fala pra ele que pode voltar. É um cretino, mas pode voltar...Disse isso e saiu. O advogado, com as mãos tremendo, quase não consegue acender o cigarro.

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