
ig-zeza-amaral (AAN)
É um canivete comum, sem enfeite algum no cabo preto. Mas esconde em suas entranhas uma lâmina de aço afiadíssima, embora manchada de pequenas pintas, iguais as que nasceram no dorso de minhas mãos, indicação de muito uso e vida. Pertenceu ao meu avô materno, o único que tive, e que agora está comigo, uma espécie de herança que ele me deixou antes de partir, no terceiro dos anos setenta.Quando vinha nos visitar, costumava contar das suas andanças pelas florestas de Mato Grosso onde, segundo ele falava e eu imaginava, ele enfrentava toda a sorte de perigo, lutando contra índios canibais e matando animais ferozes, história reforçada por uma fotografia, provavelmente tirada por um lambe-lambe, onde ele aparece em trajes de caçador africano lutando com uma enorme onça-pintada. É a minha foto preferida no álbum de família.Conheci o canivete quando não tinha nem sete anos. Foi com ele que o meu heroico avô salvou o boi que pertencia a um fazendeiro que lhe deu guarida. Comido por uma sucuri que aterrorizava o pantanal mato-grossense, meu avô esperou que a cobra dormisse, abriu a barriga da bitela com o seu afiadíssimo canivete e tirou o boi de lá, vivinho da silva. Depois, encheu a cobra de pedras e costurou o rasgo com cipó. Ao acordar, a sucuri caiu na água e morreu afogada. E o melhor da história era o canivete que ele exibia à plateia infantil e depois deixava a gente pegar como se fosse joia rara. E era.Tirando uma figurinha de futebol, e que nem carimbada era, do centro-avante Índio, injustamente não convocado para a Copa de 58, o canivete do meu avô até hoje permanece comigo. Não sei se foi com ele que o meu avô cortou o meu umbigo, numa longínqua madrugada de Primavera, no século passado. Fumo de corda é um ótimo antisséptico, como bem sabe o raro leitor. E o canivete herdado picou muito fumo que eu sei, além de laranjas, gomos de cana e mangas verdes. Prefiro acreditar que sim, pobre que sou de histórias interessantes e invejoso contumaz das muitas que a mim foram relatadas por privilegiados e ungidos desconhecidos e amigos.Perdoe-me, raro leitor, por esta humilde historieta, pessoal e intransferível. Sou homem de poucas aventuras e tudo o que eu tenho é quase nada, um fiapo de lembrança aqui, outra acolá, mas que me dá uma certa sustança para seguir em frente e acreditar que uma grande aventura ainda me aguarda, quem sabe na próxima esquina, ou na virada do ano, quem sabe na morte, essa derradeira e idiota aventura que para nada serve, e que de tão besta também morre porque jamais será contada...Guardo o canivete porque ele me traz recordações do meu único avô, das histórias que ele inventava já antevendo que o seu pequeno neto não seria homem de se envolver em grandes aventuras. As minhas aventuras sãos as do meu avô, inventadas ou mais ou menos acontecidas, eu sei, mas que me provocam os pelos até hoje, com uma adrenalina que não posso evitar e que é real, tão real quanto o corte que acabo de fazer no dedo ao manusear o canivete. Não percebi o ferimento até que uma gorda gota de sangue manchou o envelope da carta que eu abria. Foi um corte profundo, mas sem despertar qualquer dor, e que assim ficou até o estancar do sangue, como a sucuri que teve o ventre aberto e continuou sonhando...Pablo Neruda escreveu o livro Confesso Que Vivi; Jaguar escreveu Os Bares Que Bebi; Cervantes, Dom Quixote; James Joyce, Ulisses; e eu apenas digo que tive avô, avó, pai, mãe, irmãos, duas primas e um tio e uma tia; e também bons amigos de pelada, escola e quermesse, sem contar meus filhos e netos. Acho que tudo isso está de boa monta para um cronista suburbano, provinciano, que já enterrou algumas saudosas paixões e que segue molhando as plantas do apartamento e tratando de um passarinho cantador.A vida segue apesar das safadezas políticas que tanto nos entristecem. E bem mais há alegrias que essas idiotas dores políticas, mesmo porque as panelas das cozinhas brasileiras sempre estarão atentas para o bater do que der e vier. E tenham todos uma boa véspera de São Pedro.Bom dia.