Publicado 13 de Janeiro de 2022 - 8h52

Por Julio Maria

Voz: Violão é o nome do show que Maria Rita faz ao lado do violonista Leandro Pereira por dois dias, sábado, 8, e domingo, 9, no Teatro J. Safra, em São Paulo. Há dois pontos gramaticais entre a voz e o violão, algo que não pode passar desapercebido. Eles estão ali para dizer que o violão é a própria voz e vice-versa, uma simbiose na qual o timbre de Maria se embrenha num palco de teatro pela primeira vez. E o que o fato de estar ao lado de um violonista e não mais de um pianista ou de um grupo maior muda em um show? Tudo.

Por ser um grande músico e por estar a seu lado desde o projeto Samba da Maria e do álbum de 2018, Amor e Música, Leandro Pereira sabe do tempo interno de Maria Rita. E isso, mais do que ter cada acorde debaixo do dedo, é o que faz um sideman. O violão, por sua vez, também impõe novas condições vocais. E, disso, Maria fala melhor: "Existe uma diferença muito grande entre voz e violão e voz e piano. Piano é um instrumento forte, com volume e extensão maior. Violão é mais suave, mais sutil. Como sou muito expansiva, tive de procurar um roteiro que permitisse que essa minha característica de interpretação não tomasse o espaço do violão. Fico um pouco mais contida do que em formações maiores, e este é um lugar ao qual nunca tinha ido, mas me divirto da mesma forma."

Ainda não se trata, no entanto, de um tubo de ensaio que venha configurar material para um novo trabalho. Maria, sem um álbum de inéditas desde 2018, deve voltar, no palco, a canções como Tá Perdoado, Maltratar Não é Direito, Num Corpo Só, Cara Valente e Romaria, e parece respeitar o tempo das coisas, sem se jogar a marolas de colaborações e singles à deriva. Ela sorri com a pergunta inevitável e pleonástica sobre "planos para o futuro": "Você me conhece há 20 anos, eu estou sempre preparando alguma coisa. Ainda mais depois dessa pandemia, estou com uma gana de palco muito grande. Mas, como sou supersticiosa, não vou falar muito (sobre o projeto novo)."

Alma e voz

E onde está seu coração quando se trata de música? É cantando o quê que sua voz se aproxima mais de sua alma? Muitos entrevistados amortecem a pergunta com evasivas. Afinal, em todos os lugares, música é música. Mas Maria é direta. De todos os cantos por onde passou, à frente de orquestras, duos ou grupos menores, ela responde sorrindo como se desabafasse. "No samba. É no samba que eu sou mais completa, que me sinto mais relevante, mais compreensível e mais compreendida. O samba me permite mais. O amor, o desamor, a indignação, a malandragem, a sensualidade, o samba tem tudo isso. Ele me deixa ser tudo o que eu sou. O samba não é só o que me deixa mais próximo da alma, mas o que também bota fogo em mim."

Ah, a mãe. E que mãe

Elis Regina, sua mãe, será muito lembrada por quem tem saudades de sua voz há 40 anos. Foi em uma manhã do dia 19 de janeiro de 1982 que seu namorado, Samuel McDowell, a encontrou desacordada por ingestão de drogas e bebida alcoólica no quarto de seu apartamento, na Rua Melo Alves, nos Jardins, em São Paulo. Dentro dos 36 anos em que viveu até aquele dia, Elis conseguiu colocar 100, e fez da vida das cantoras que existiam e que haveriam de existir um dilema eterno. Como ser razoável no país que havia abrigado Elis Regina? O sarrafo ainda está nas alturas e, desafiando alguma lei que prevê a evolução da espécie nos esportes, nas ciências e nas artes, Elis, como Ella Fitzgerald, só é superada por ela mesma. "Ela canta melhor a cada dia", disse o amante e produtor Nelson Motta. "Ela canta melhor cada vez que aparece uma nova cantora", dizem os maldosos.

"É assombroso", diz Maria Rita. "E é muito curioso, porque agora, com essa geração ligada nas redes sociais, a galera mais jovem está descobrindo Elis de uma forma que a minha geração não teve como descobrir." Maria não fala só do que sai da voz de sua mãe em uma canção. Aliás, Elis disse certa vez a Renato Teixeira que não se preocupasse com seu resfriado porque "o que canta não é a voz". "Ela não só canta cada vez melhor como está cada vez mais indispensável", diz Maria. "A forma como pensava tão à frente do tempo sobre sociedade, arte, mulher, feminismo... Elis é cada vez mais importante."

E uma filha ainda pode descobrir coisas em uma mãe depois de 40 anos que a perdeu? Ela diz que sim, ainda que não saiba se encontre "novas cores ou sensações", como pergunta o repórter. "É impressionante essa energia que havia ali dentro, esse amor pela vida. E, especificamente como cantora, é cada... (ela faz uma pausa um pouco longa). É sempre um impacto pra mim, algo que eu não sinto com qualquer outra. Ela está entre as maiores do mundo da história da música."

E tecnicamente, como explicar o que fez de sua mãe o que Caetano Veloso chamou de "a maior de todas" em uma entrevista a este repórter, ao lado de Gal Costa? Maria dá a sua percepção: "Algo que me choca até hoje, que pode ter a ver com essas sensações e cores de sua pergunta, é a forma diferente como ela cantava a mesma letra, como usava intenções diferentes na mesma música. Parece que sempre fazia uma nova canção, como se cada vez ganhasse mais espaço dentro daquela música. A música crescia dentro dela e ela crescia dentro da música até que tudo virava uma coisa só."

Álbum, peças, especial de TV, série e relançamentos

As efemérides são pretextos para especiais, mas fazem bem à manutenção em larga escala de um nome que não pode ser maltratado pela história. Assim, 2022 será grande em memórias ativadas de Elis por projetos estimulantes.

O primeiro deles, que já está nas plataformas, é a coletânea Elis, Essa Saudade. Produzido pelos jornalistas e pesquisadores Renato Vieira e Danilo Casaletti, o álbum traz uma coleção de gravações de Elis assinadas por "compositores que estavam em seu coração", como diz Vieira. Cai Dentro (de Baden e Paulo Cesar Pinheiro), Essa Mulher (de Joyce e Ana Terra), As Aparências Enganam (de Tunai e Sérgio Natureza) e Aos Nossos Filhos (de Ivan Lins e Vitor Martins) estão no álbum. Mas a pérola ali é a descoberta de Pequeno Exilado, música de Raul Ellwanger que só foi lançada na voz de Elis, em colaboração com Raul, no álbum do compositor gaúcho, em 1980. Um presente que os fãs mereciam.

João Marcello Bôscoli conduz algumas frentes que colocarão o nome de sua mãe em foco entre 2022 e 2023. Ainda para este ano, promete editar em Dolby Atmos todo o álbum Falso Brilhante, de 1976. "Vamos aprontar para que esteja disponível no dia de nascimento de Elis", diz João. A data: 17 de março.

Amanhã, o programa Fantástico, da Globo, mostra um especial de Elis com a presença de João, Maria Rita e Pedro Mariano, todos entrevistados pelo jornalista Ernesto Paglia. O dominical vai falar também sobre o livro em quadrinhos feito por Gustavo Duarte, um dos principais desenhistas brasileiros.

A HBO vai estrear ao longo do ano uma série em três episódios chamada Elis por João. A narração do produtor será usada enquanto imagens de shows de Elis pelo mundo serão mostradas. Coisas muito raras vão aparecer ali. O especial foi todo bancado e produzido por Marcelo Braga e a HBO vai exibi-lo em 55 países, algo inédito para um artista brasileiro.

O especial Elis & Tom, com imagens de bastidores do álbum gravado nos Estados Unidos e lançado em 1974, deve finalmente ser lançado até 2023 pelo canal Arte 1. O produtor Roberto de Oliveira tem esse diamante nas mãos há anos. Wayne Shorter deu entrevista.

Ao teatro deve voltar Elis, A Musical, o sucesso estrondoso de 2015, ainda sem data ou local de estreia. E hoje, dia 8, estreia, para crianças, o espetáculo Pimentinha! Elis Para Crianças, no Teatro Clara Nunes. Mais uma semente jogada.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Julio Maria