Publicado 12 de Janeiro de 2022 - 7h06

Por Estadão Conteúdo

Anos atrás, ao chegar em casa às sextas-feiras, Jorge precisava se apresentar ao filho mais novo. É que Joelinton, ainda criança, estava pouco adaptado à rotina de trabalho do pai, que envolvia passar dias e até semanas longe de casa. A percepção do garoto mudaria com os anos ao conhecer o futebol. Dali em diante, ele chegava em casa e não encontrava o menino, que só voltava mais tarde, com os pés machucados depois das peladas disputadas no asfalto. Era o começo de uma trajetória do atual destaque do Newcastle, da Inglaterra.

A família vivia na área rural de Aliança, no interior de Pernambuco, a 90 quilômetros do Recife. Jorge trabalhava como almoxarife de uma usina, que garantia a moradia da família, mas deixava faltar condições básicas: energia e água, por exemplo, eram encontrados em escassez. Nunca faltou comida na mesa.

"O Joelinton sempre batalhou muito. É um homem muito forte. Quando era mais novo, lembro que ajudava uma tia dele no trabalho. Ela tinha uma loja de roupas e vendia lanches. Lá ia ele para garantir o dinheiro das passagens para ir jogar bola. Acordava cedo, fazia a comida dele, passava um café e tome futebol", lembra Jorge.

O pai, hoje aos 54 anos, via no filho a possibilidade de concretizar seu próprio sonho. Quando tinha 12 anos, Jorge era um jogador arisco, de habilidade, mas a mãe não deixou que ele fosse jogar no Santa Cruz. "Era outra época", lembra. Quando via Joelinton se destacando, ele sabia que tinha um craque dentro de casa.

Foi com um esforço muito grande que o município de Aliança conseguiu receber uma peneira do Sport. O clube mandou um de seus melhores olheiros, conhecido como João "Maradona", para avaliar os meninos. Com olho atento, ele só precisou de 20 minutos para tirar Joelinton, de 14 anos, e lhe oferecer a vaga no Sport.

"Foi ligeiro. Ele já cabeceava bem, tinha força, protegia bem a bola. Foi o único que eu levei para o Sport naquela peneira. Só tinham dois times e, se não fosse o Joelinton, não iria ninguém para Recife. E veja só: eu vi o Joelinton jogando de meia, não foi de centroavante", lembrou João.

O observador técnico passou 12 anos no Sport e tem para si a revelação de nomes interessantes no cenário brasileiro, como o goleiro Mailson, o lateral-esquerdo Renê e o atacante Mikael, além do próprio Joelinton. Foi pelo jogador do Newcastle, entretanto, que ele precisou arrumar uma pequena briga.

"Quando ele chegou no alojamento, disseram a ele que não tinha vaga lá e que tinha que voltar para casa. Fui buscar ele de novo, tive que ir atrás dele. Briguei mesmo. Falei: 'Esse menino vai dar muitos frutos ao Sport'. Foi dito e feito, né? Ele tem muito talento e ainda deve ir mais longe. Acho que pega seleção brasileira", analisa o observador, que hoje está no Nacional-SP.

A evolução dentro do Sport foi rápida. Por conta do porte físico, Joelinton era uma das apostas na categoria de base do time pernambucano. Ele foi promovido ao elenco principal em 2013 pelo técnico Marcelo Martelotte, mas só começou a jogar em 2014, após a chegada do técnico Eduardo Baptista. Ele até disse que Joelinton tinha nível para atuar na Europa - e desdenharam da declaração.

"Quando desdenharam da frase e colocaram com a camisa do Real Madrid, do Barcelona, são os comediantes da bola. Não era para ir para esses times naquele momento, mas ele está amadurecendo e até pode merecer jogar nesse nível. Eu visualizava ele num time do leste europeu, no futebol alemão, no futebol inglês", lembra o técnico.

Baptista diz que as características de Joelinton já se mostravam afiadas para o ataque no sub-20. Ele, como técnico, não buscava podar a construção do jogador. Via a sua influência mais como responsável por lhe dar todo o entendimento do jogo, especialmente no setor defensivo.

"Conversava bastante com ele. Era um menino que vinha pedindo passagem, que vinha trabalhando sério, e que sempre se destacava quando subia. Se destacava quando treinava com os profissionais. Eu acredito que o ajudei bastante na parte tática, principalmente defensiva, porque ele ainda não tinha essa leitura, e isso é base na Europa. Primeiro, eles ensinam a organizar na defesa e depois o ataque, o que é diferente do Brasil. A gente ajudava na defesa e na questão ofensiva eram as características dele", analisa o técnico.

O discurso é repetido por Neto Baiano, que era o atacante principal do Sport naquela época. Joelinton era seu substituto, mas entre os dois não havia competição. Neto, mais experiente, conhecia os caminhos para os jogadores nordestinos e sabia as dificuldades impostas a eles.

"Era difícil que ele tivesse uma sequência porque eu estava em uma boa fase, mas o Joelinton sempre teve muito talento. Ele foi fruto da vontade dele de vencer, de aprender, de conquistar o próprio espaço. Tudo para o jogador nordestino é mais difícil, para falar a verdade. As condições, às vezes, não ajudam. O nordestino trabalha pelo menos três vezes mais para chegar longe na carreira", diz Neto.

As previsões de Baptista deram certo em 2015, quando Joelinton foi vendido ao Hoffenheim, da Alemanha, aos 18 anos de idade. O começo no exterior não foi fácil: ele ficou cerca de um ano sem jogar, até que veio um empréstimo para o Rapid Viena, da Áustria. Seu empresário, Brunno Ramos, da empresa Rogon, sabia que a confiança só viria ao entrar em campo.

"Eu lembro que tirei ele nas férias quando chegou o empréstimo para o Rapid Viena. Joe tinha passado uma semana com a família, mas topou ir logo para entrar no clima e conquistar o espaço dele. Jogou 24 meses lá, foi bem utilizado. Quando voltou ao Hoffenheim, tiramos ele nas férias de novo e colocamos para fazer um preparatório de 10 a 12 dias antes da pré-temporada. Quando voltou ao clube, estava voando", conta Ramos.

De acordo com o empresário, todos os jogadores precisam ter três pilares para ter sucesso: excelência técnica/tática, físico e mentalidade. Joelinton conseguiu maestria nas áreas e, por isso, conseguiu dar certo no futebol. "Quando voltou à Alemanha, nós sabíamos que ele só tinha essa chance de conquistar a vaga", reconhece.

Em 2019, Joelinton fez a sua transferência mais recente, para o Newcastle, por cerca de 40 milhões de euros. Ele foi a contratação mais cara da história do clube, que se tornou um dos mais ricos da Europa ao ser comprado por um fundo de investimentos saudita em 2021. A história mais inusitada do atacante aconteceu antes da transferência.

"Quando chegamos na Inglaterra, ficamos em Manchester. Tivemos de passar uma semana escondidos num hotel, quase numa quarentena, para que não reconhecessem o Joe. Ele saía todo encapuzado, discreto, para ninguém falar da transferência dele para o Newcastle antes do anúncio. Até buscaram a gente num carro preto, todo na discrição, para você ter ideia", conta Brunno, aos risos.

O começo de Joelinton na Inglaterra não foi fácil. O seu estilo de jogo não encaixava com o proposto pelo técnico Steve Bruce, os gols não vinham e a torcida pegava no pé do brasileiro. As coisas mudaram com a chegada de Eddie Howe, no fim de 2021, que enxergou em Joelinton o potencial para atuar um pouco mais afastado da grande área.

"Ele será um grande jogador para nós. Nós gostamos muito dele. Ele tem uma boa mistura de capacidade física, habilidade técnica e inteligência tática. Você viu o jogo de pés dele em espaços curtos na terça-feira, quando ele começou como camisa 10 e depois recuou ao meio-campo onde, após poucas instruções, ele mostrou sua consciência tática. Joelinton pode ser o que ele quiser ser. Acho que temos um indivíduo incrível que pode apenas melhorar. Eu não o trocaria. Eu realmente gosto dele como pessoa e acho que podemos levá-lo a alçar voos mais altos", elogiou Howe, após uma partida contra o Norwich.

Para o mundo e para os torcedores do Newcastle, porém, o grande jogo de Joelinton aconteceu no dia 27 de dezembro. Quase como um volante, o brasileiro tomou conta do meio de campo contra a equipe de Cristiano Ronaldo, atuando tanto nos desarmes quanto na construção de jogadas. A partida terminou empatada em 1 a 1.

"Acho que as críticas fazem parte do nosso trabalho, e temos que saber administrar isso. Claro que nunca é bom você ver o torcedor falando negativamente de você, mas sabemos que o futebol é emoção. Mas sempre soube que a única forma de reverter isso era trabalhando duro e entregando o máximo nos treinos e jogos. Fico feliz, hoje, com o carinho que estou recebendo do torcedor. Espero que possamos comemorar muita coisa juntos ainda", disse o jogador.

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