Publicado 11 de Janeiro de 2022 - 18h43

Por O Estado de S.Paulo

Por Redação

Tropas da Rússia desembarcaram nesta quinta-feira, 6, no Casaquistão, depois que o presidente do país da Ásia Central pediu ajuda para conter os protestos contra o governo - um grande teste para uma aliança militar liderada por Moscou enquanto o Kremlin aprofunda seu papel na crise. "Dezenas" de manifestantes foram mortos, disse um funcionário do Casaquistão, enquanto as forças de segurança locais tentavam conter os protestos que começaram pela indignação com o aumento do preço do combustível, mas se tornaram um desafio para um sistema político praticamente inalterado desde o fim da União Soviética, três décadas atrás.

É a primeira vez que a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (CSTO, por sua sigla em inglês), fundada após a dissolução da União Soviética e composta por seis ex-membros, concorda em enviar "forças de paz" para ajudar um país-membro. Embora o bloco seja visto há muito tempo como a resposta da Rússia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), sua primeira ação conjunta é encerrar um protesto interno, em vez de combater um ataque de uma força externa. O que está em jogo é especialmente importante para a Rússia, efetivamente o líder da aliança, pois sua presença corre o risco de alienar um público que exige uma mudança no regime do Casaquistão, mas ainda não mostrou qualquer sentimento anti-russo.

A agitação, que começou no domingo, também ocorre em um momento difícil para o Kremlin, em meio a um aumento de tropas perto da fronteira com a Ucrânia e antes das negociações da próxima semana com os Estados Unidos sobre as garantias que a Rússia exigiu da Otan de que não se expanda ou coopere com os ex-países soviéticos.

As tensões, agora tanto na fronteira sudoeste quanto na fronteira sudeste da Rússia, ressaltam os desafios para Moscou em manter o que considera sua esfera de influência: Ucrânia, Belarus, Moldávia, Ásia Central e os países do Cáucaso - Armênia, Azerbaijão e Geórgia - todos anteriores membros da União Soviética. "Se você tem grandes ambições de poder, por favor, mostre o que você pode fazer em várias frentes. Muitos outros falharam nisso", disse Alexander Baunov, do Carnegie Moscow Center, no Twitter. "O Casaquistão testará as reais capacidades da Rússia. Vai ser perturbador e preocupante", acrescentou.

As manifestações começaram no fim de semana na região oeste do Casaquistão, rica em petróleo, por causa dos altos preços da energia e se espalharam para outros lugares, incluindo Almaty, a maior cidade do país. Na quarta-feira, os manifestantes incendiaram prefeituras em todo o país e ocuparam brevemente o aeroporto de Almaty. Parte da raiva parecia ser dirigida a Nursultan Nazarbayev, o ex-presidente autoritário do país, que continua a exercer um poder significativo nos bastidores sob o título oficial de "pai da nação".

Quando o governo anunciou na terça-feira que voltaria atrás no aumento de preços, os protestos já haviam se espalhado por todo o país, com demandas mais amplas por maior representação política e melhores benefícios sociais. Aparentemente insatisfeitos com o anúncio, na quarta-feira, de que todo o governo seria demitido e novas eleições parlamentares seriam realizadas, os manifestantes assumiram o controle do principal aeroporto do país.

Um porta-voz da polícia de Almaty disse à mídia local que "forças extremistas" tentaram invadir vários prédios do governo, incluindo o Departamento de Polícia. Vídeo da agência de notícias estatal russa Tass mostrou forças de segurança armadas abrindo fogo perto da praça principal de Almaty. "Dezenas de agressores foram eliminados, suas identidades estão sendo estabelecidas", disse a porta-voz Saltanat Azirbek, segundo a agência de notícias russa Interfax.

A polícia prendeu cerca de 2 mil pessoas em Almaty, disse o Ministério do Interior. Houve vários relatos de tiros em torno da cidade ao longo do dia e na noite desta quinta-feira (hora local), o Departamento de Polícia de Almaty relatou que mais "terroristas" foram mortos em frente à delegacia do distrito de Almalinksy. Pelo menos oito policiais foram mortos, segundo o Ministério do Interior. Mais de 1 mil pessoas ficaram feridas nos protestos, disse o Ministério da Saúde, 400 das quais foram hospitalizadas, 62 em UTIs. A internet do Casaquistão foi bloqueada ontem, e os serviços bancários nacionais, suspensos.

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Os serviços de notícias relataram novos confrontos nesta quinta-feira entre os manifestantes e a polícia, que usou granadas de choque e gás lacrimogêneo para reprimir a multidão. Os manifestantes também incendiaram o gabinete do promotor em Almaty antes de se dirigirem à residência do presidente. A polícia de Almaty disse que os manifestantes queimaram 120 carros, incluindo 33 viaturas da polícia, e danificaram cerca de 400 empresas, e que mais de 200 foram detidos.

Na noite de quarta-feira, o gabinete do presidente de Belarus, Alexander Lukashenko, anunciou que ele falou por telefone com Putin e depois com o presidente do Casaquistão, Kassym-Jomart Tokayev. Horas depois, Tokayev pediu o apoio do CSTO e afirmou que "gangues terroristas treinadas por estrangeiros estavam apreendendo edifícios, infra-estruturas e armas". Ele não ofereceu evidências ou especificou quais países estavam por trás da suposta conspiração.

"Ele justificou o convite das forças do CSTO para manter a estabilidade porque como se descobriu - de repente, em poucas horas - como ele disse, 'surgiram grupos terroristas internacionais', que ameaçam o país e que é de fato a agressão externa, ", disse Arkady Dubnov, analista político e especialista em Ásia Central. "É uma tentativa muito embaraçosa de explicar esta ameaça de uma forma muito desajeitada para que cumpra a condição do tratado que descreve a possibilidade de uma intervenção se uma das partes estiver sob ameaça", acrescentou Dubnov, que descreveu o governo do Casaquistão como uma pequena réplica do da Rússia."Não há dúvida de que o Kremlin não gostaria de ver um exemplo de tal regime começando a falar com a oposição e cedendo às suas demandas", acrescentou.

O primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, que preside um conselho dentro da aliança militar, anunciou no Facebook que um número não especificado de tropas seria enviado ao país da Ásia Central "por um período limitado" para "estabilizar e resolver a situação".

A Rússia é conhecida por enviar tropas sob o disfarce de missões de manutenção da paz, que estabelecem uma presença permanente nos países anfitriões. A aliança disse que forças da Rússia, Belarus, Armênia, Tajiquistão e Quirguistão também seriam enviadas para o Casaquistão, com o objetivo de proteger as instalações militares e do governo. Moscou também enviou pára-quedistas, disse a organização.

A propagandista do Kremlin, Margarita Simonyan, editora-chefe do canal de TV RT financiado pelo governo, sugeriu no Twitter que, em troca da ajuda da Rússia, o governo do Casaquistão deve fazer várias concessões, incluindo o reconhecimento da Crimeia anexada como território russo e a devolução do alfabeto (em 2017, Nazarbayev ordenou que a escrita oficial da língua casaque fosse trocada do alfabeto cirílico para o latino).

O Casaquistão é o país mais rico da Ásia Central e, com 19 milhões de habitantes, o segundo mais populoso. A agitação generalizada - juntamente com a entrada de forças ligadas à Rússia - provocou preocupações nas capitais regionais e em Washington. O porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Ned Price, pediu a todas as partes que resolvam a situação pacificamente. "Condenamos os atos de violência e destruição de propriedade e pedimos contenção por parte das autoridades e dos manifestantes", disse em um comunicado. "Pedimos a todos os casaques que respeitem e defendam as instituições constitucionais, os direitos humanos e a liberdade da mídia, até mesmo por meio da restauração do serviço de internet."

O Casaquistão hospeda o Cosmódromo de Baikonur, um complexo de lançamento de foguetes alugado para a Rússia. Cerca de um quinto da população do Casaquistão é composta por russos étnicos, e Moscou já enviou "soldados da paz" a países que o presidente Vladimir Putin teme que estejam saindo de sua órbita política. Líderes na Geórgia, Moldávia e Ucrânia reclamaram anteriormente que essas tropas sustentam as forças separatistas pró-Rússia. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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