Publicado 05 de Janeiro de 2022 - 8h40

Por Célia Froufe

Arte e finanças sempre andaram juntas. Agora, chegaram a um novo patamar tecnológico, com obras sendo expostas e negociadas por meio do blockchain, uma plataforma conhecida por transacionar criptomoedas. Da mesma forma, compram-se e vendem-se obras virtuais. As que têm feito mais sucesso ultimamente são as NFTs, sigla da expressão em inglês non-fungible token (token não fungível). Na prática, trata-se de uma sequência única que não pode ser modificada e, portanto, consegue vir automaticamente com uma espécie de autenticidade de sua veracidade.

O exemplo do "mundo real" que mais se assemelha ao das NFTs são os álbuns de figurinhas. Compra-se um envelope por um preço mais baixo para a coleção e conta-se com a sorte, para que não venha um item repetido. De preferência, o comprador quer logo ter em mãos a figurinha mais rara, como a do craque de futebol do momento, no caso de um álbum com o tema da Copa do Mundo.

No mundo virtual, o artista (ou grupo) estabelece o número de figuras que vai disponibilizar no mercado e cria um ranking de raridades. No início, é preciso mostrar as ofertas, mas a escassez só é de domínio público quando a coleção é esgotada.

No mundo, as coleções de mais sucesso são as Bored Ape Yacht Club (Bayc), lançada em abril, e a CryptoPunks, de 2017. Cada uma delas é formada por 10 mil itens digitais únicos no blockchain da moeda virtual Ethereum. Às vésperas do Natal, a primeira ultrapassou a segunda, mais "tradicional", em preço mínimo de NFTs pela primeira vez. Nos últimos dias, o preço mínimo atual de um NFT do Bayc era de 53,9 ethers (ETH), ou US$ 215.350.

Para se ter uma ideia sobre até onde isso pode chegar, o Bayc de número 8871 (o terceiro macaco mais raro com pelo dourado) foi vendido em um leilão por US$ 3,4 milhões. Já a figura 7523 da CryptoPunks chegou ao recorde de US$ 11,8 milhões. As obras também podem ser negociadas no mercado secundário e, a cada vez que isso acontece, é pago um royalty para o artista.

Mercado

A febre no mundo contagiou alguns brasileiros. Durante a pandemia, André Monfort deixou a arquitetura e a engenharia civil de lado para explorar esse novo e ainda desconhecido mercado. Depois de estudar um pouco e montar uma equipe, lançou sua coleção no blockchain da Cardano (ADA), outra moeda virtual. A ADA chegou a registrar em 2021 o posto da segunda moeda digital mais negociada do mundo, atrás apenas do Bitcoin, alçou à terceira posição em valor de mercado e hoje ocupa a sexta posição com valor de mercado, de mais de US$ 43 bilhões. Cada uma delas conta com centenas e até milhares de coleções de figuras de arte.

"Estamos tentando surfar essa onda o máximo que der. Pode durar um tempo curto ou pode se consolidar", disse ele, que embolsou junto com a equipe R$ 58 mil de royalties na semana anterior à entrevista. Entre os que já ingressaram no mercado, a ideia é realmente aproveitar o boom antes que grandes companhias, como Disney, comecem a explorar a atividade e acabem retendo muitos clientes, o que poderia deixar a competição desequilibrada.

Num leilão no dia 8 de dezembro, a coleção de arte digital desenhada pelo brasileiro ocupou primeira posição no ranking mundial de volume de negociação da Cardano, faturando mais de R$ 2,2 milhões no lançamento. A Chilled Kongs é composta por 8.888 obras digitais únicas e se esgotou em nove horas. Além de todas as obras terem valorização de mais de 1.000% nos primeiros dias, algumas chegaram a ser revendidas com 25.000% de lucro no movimento inicial. Nos três primeiros dias, a coleção já tinha movimentado mais de 5 milhões de reais no mercado secundário.

O projeto de Monfort também é ligado à música. "Quero manter o movimento, fazer chegar às baleias das NFTs (grandes financiadores ou uma espécie de merchants virtuais, neste caso), que realizam grandes aportes. Gerar uma segunda coleção é uma possibilidade, trabalhar com o metaverso (o universo de determinado personagem) é outra", considerou.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Célia Froufe