Publicado 03 de Janeiro de 2022 - 19h41

Por Rayssa Motta

A Delegacia de Açailândia, município maranhense a 567 quilômetros da capital São Luís, deve concluir até a próxima semana o inquérito sobre as agressões ao jovem Gabriel da Silva Nascimento, de 23 anos, que foi atacado dentro do próprio carro, na frente do prédio onde morava.

O caso foi revelado pela Rede Mirante, afiliada da Globo no Maranhão, e confirmado pela reportagem do Estadão. O blog apurou que a expectativa é que, tanto o relatório da Polícia Civil quanto o parecer do Ministério Público do Estado, peçam o indiciamento dos agressores por tentativa de homicídio.

Um dos pontos-chave é que, assim como no caso do George Floyd, ex-segurança negro que virou símbolo de luta antirracismo após ser asfixiado até a morte por um policial branco nos Estados Unidos, Gabriel também foi sufocado ao ser imobilizado no ataque.

"Eles pisam no pescoço do Gabriel, depois se ajoelham sobre o pescoço dele. Em um terceiro momento, tem um mata-leão. Então tem um foco nas vias respiratórias. Em nenhum momento eles param, eles são detidos. Ali, tecnicamente, foi uma tentativa de homicídio", explica o advogado Marlon Reis, que foi chamado pelo Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos (CDVDH) de Açailândia para assumir a defesa de Gabriel no processo.

O caso deve ser levado a júri popular, o que na avaliação do advogado terá impacto positivo para ampliar o debate público sobre casos de violência racial. Para o defensor, se trata de um caso claro de racismo. Reis também atuou no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado pelo Carrefour após o espancamento e morte de João Alberto Silveira Freitas.

"Isso vai abrir um debate sem precedentes. Vai haver uma discussão pública sobre o assunto, a nível de tribunal do júri. O debate social tende a se intensificar nesse caso. É uma oportunidade rara de debate público sobre violência racial", afirma ao Estadão.

As agressões aconteceram na manhã do último dia 18. Os autores do ataque são o empresário Jhonnatan Silva Barbosa e a dentista Ana Paula Vidal, moradora do mesmo prédio de onde Gabriel se mudou após o episódio. Recepcionista de um banco, o jovem estava no carro que comprado há poucos meses e se preparava para sair rumo a uma confraternização do trabalho.

Imagens de câmeras de segurança mostram o momento em que ele é chamado de ladrão e passa a ser agredido pelo casal. Gabriel é derrubado, alvo de chutes, pisões e tapas em uma sessão de espancamento que dura quase três minutos. Ana Paula chega a colocar os joelhos na barriga do jovem, enquanto Jhonnatan pisa em seu pescoço. Os ataques só cessam quando um vizinho avisa que a vítima é moradora do prédio.

COM A PALAVRA, AS DEFESAS

A reportagem busca contato com a defesa de Jhonnatan e Ana Paula. O espaço está aberto para manifestação. Em nota enviada ao programa Fantástico, da TV Globo, a dentista pediu desculpas e negou que tenha sido racista.

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Rayssa Motta