Publicado 20 de Dezembro de 2021 - 8h16

Por enviada especial

Por Thaís Ferraz

A alta comissária da ONU e ex-presidente chilena Michelle Bachelet declarou nesta terça-feira, 14, voto no candidato esquerdista Gabriel Boric, em um caso raro de manifestação política por parte de um alto funcionário da organização. "Não dá no mesmo votar em qualquer candidato. Por isso, vou votar em Gabriel Boric", disse Bachelet, em vídeo publicado por sua fundação, a Horizonte Cidadão. "E quero fazer um apelo a todos os meus compatriotas para irem votar, respeitando silenciosamente quem pensa diferente."

De férias no Chile, Bachelet afirmou ter vindo ao país para cumprir seu dever cívico. "O que vai ser decidido no próximo domingo é fundamental. Ninguém pode ser indiferente", afirmou, pedindo que o país escolha um presidente que garanta que o Chile siga "em um caminho do progresso, de liberdade, igualdade e direitos humanos."

O apoio público vem após uma reunião privada entre Bachelet e Boric, na casa da ex-presidente, confirmada pelo esquerdista no último debate presidencial, realizado na segunda-feira, 13. "Nós nos reunimos para conversar, assim como me encontrei com o (ex) presidente Ricardo Lagos", disse Boric, ao ser questionado sobre o encontro pela apresentadora de TV Solead Onetto. "Tivemos uma conversa muito boa, porque devo aprender com seus acertos e erros."

O apoio foi questionado por José Antonio Kast, rival conservador no segundo turno, que "lamentou" que a alta comissária da ONU intervenha nas eleições. A fundação de Bachelet, criada em 2018, já havia declarado apoio à Frente Ampla, de Boric, e se colocado à disposição de sua candidatura em novembro, após o primeiro turno.

Incomum

No entanto, a manifestação de Bachelet é um caso raro. De acordo com o manual de conduta da ONU, funcionários internacionais devem "exercer discrição em seu apoio a um partido ou campanha política e não devem aceitar ou solicitar fundos, escrever artigos ou fazer discursos ou declarações públicas à imprensa".

"Isso sai muito do hábito das Nações Unidas", afirma o diplomata Rubens Ricupero, que foi secretário-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). "Imagino que ela fez isso porque foi presidente, deve estar preocupada com a situação. Mas, nos meus muitos anos na ONU, nunca vi algo igual."

Ricupero não acredita, no entanto, que o ato deva ser punido. "O outro candidato (Kast) é da extrema direita, e a não ser que ele vença as eleições e decida levantar essa questão, não deve passar de certa reação. Bachelet pode argumentar que Kast ameaça os direitos humanos, e como ela é comissária, se sentiu na obrigação de defendê-los."

O cientista político Miguel Herrera, do Centro de Estudos Públicos, explica que Bachelet não transgrediu nenhuma norma eleitoral chilena. "Tradicionalmente, o ex-presidente não manifesta apoio a um candidato. No entanto, isso é apenas uma tradição, não uma norma legal", disse.

Segundo Herrera, a posição tem um efeito simbólico sobre parcelas mais tradicionais do eleitorado, como a Nova Maioria. "Pode ter uma certa influência sobre o eleitorado mais duro da coalizão, mas ele é minoritário." Para ele, a manifestação de Bachelet não garante nada. "Bachelet, em certo momento, apoiou Paula Narváez (sua ex-porta-voz), e ela acabou não passando nem das primárias", lembra. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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enviada especial Thaís Ferraz