Publicado 23 de Novembro de 2021 - 20h21

Por Estadão Conteúdo

O governo de Belarus deu dois passos concretos nesta quinta-feira, 18, para amenizar a crise de refugiados na fronteira com a Polônia. O regime de Alexander Lukashenko desativou o principal acampamento de imigrantes no principal posto de fronteira com o país vizinho e, em paralelo, repatriou 413 iraquianos para Bagdá, depois de uma rodada de negociações com a chanceler alemã, Angela Merkel, uma das principais líderes da União Europeia.

As recentes medidas do governo de Belarus tem como objetIvo diminuir a crise diplomática com a União Europeia, mas diplomatas em Bruxelas veem as iniciativas com cautela, já que há poucos dias Lukashenko vinha ameaçando cortar o fornecimento de gás para o bloco em pleno inverno.

O Ocidente acusa Belarus de orquestrar a crise para tentar dividir a UE e como represália pelas sanções europeias que foram impostas à ex-república soviética em virtude da perseguição a opositores, o que Minsk nega.

O regime de Lukashenko liberou a passagem para a fronteira com a Polônia, membro da União Européia, atraindo milhares de migrantes, mas agora está lutando para tirá-los de lá e decidir o que fazer com eles. Cerca de 7 mil migrantes permanecem em Belarus, sendo 2 mil deles em um acampamento na fronteira.

O voo de repatriação com mais de 400 imigrantes iraquianos marcou o primeiro passo concreto de do recuo de Belarus. De acordo com um representante da diplomacia iraquiana, 431 pessoas estavam a bordo do voo da companhia Iraqi Airways. Horas mais tarde, o maior acampamento de imigrantes na fronteira com a Polônia foi desmontado pela polícia. Dias atrás, o local foi palco de confronto entre os refugiados e a polícia polonesa.

Segundo a porta-voz da presidência de Belarus, Natalia Eïsmont, o país vai organizar a repatriação de 5 mil migrantes e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, negociará com a UE um corredor humanitário para a passagem dos 2 mil restantes até a Alemanha, informação que não foi confirmada por Berlim.

O bloco europeu acusa Lukashenko de usar os imigrantes como "armas". O porta-voz da UE Eric Mamer disse a repórteres nesta quinta que não haveria negociação com Belarus.

A Comissão Europeia confirmou que terá "discussões técnicas" com Belarus sobre a repatriação para seus países dos migrantes que estão na fronteira. Ao mesmo tempo, várias companhias aéreas anunciaram o veto de migrantes em voos para Belarus.

Diálogos

Lukashenko, que reprime há quase três décadas os opositores políticos e os meios de comunicação independentes, conversou nos últimos dias em duas oportunidades com Merkel sobre a crise migratória.

Os grupos de ajuda humanitária afirmam que pelo menos 11 migrantes morreram desde o início da crise. Equipes de emergência polonesas informaram nesta quinta-feira que ajudaram um casal sírio que passou um mês e meio na floresta. "O filho de um ano e meio deles morreu na floresta", afirmou o Centro Polonês de Ajuda Internacional (PCPM) no Twitter.

A Rússia, aliada do presidente de Belarus, recebeu com satisfação o contato direto entre UE e Minsk e voltou a negar qualquer envolvimento na crise. "É do interesse da Rússia que a Europa finalmente caia em si e pare de considerar que a Rússia é responsável por todos os males", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov.

Os países-membros do G7 pediram a Belarus o fim imediato da crise. "Pedimos ao regime que ponha fim imediatamente a sua campanha agressiva (...) para evitar novas mortes e mais sofrimento", afirma um comunicado conjunto dos ministros das Relações Exteriores de Reino Unido (que ocupa a presidência do G7), França, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Itália e Japão, assim como da União Europeia (UE).

Prisões e conflitos

O exército da Polônia anunciou a prisão de quase 100 migrantes que tentaram atravessar a fronteira a partir de Belarus durante a madrugada desta quinta e acusou o governo de Minsk de ter provocado a operação.

O ministério da Defesa da Polônia afirmou no Twitter que as forças bielorrussas primeiro fizeram um reconhecimento do local e, "muito provavelmente", causaram danos à cerca de arame farpado que marca a fronteira. "Então, os bielorrussos forçaram os migrantes a atirar pedras contra os soldados poloneses para desviar a atenção, enquanto a algumas centenas de metros de distância acontecia a tentativa de atravessar a fronteira", completou.

Em outro caso de violência na fronteira, um vídeo divulgado por guardas bielorrussos mostra um cão da guarda fronteiriça lituana mordendo um homem que estava em um saco de dormir no chão, no limite entre os países. Os guardas lituanos admitiram o incidente e explicaram que tentavam provocar o recuo de um grupo de migrantes e não viram a pessoa que estava no chão. (Com agências internacionais)

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