Publicado 22 de Novembro de 2021 - 8h20

Por especial para o jornal O Estado de S. Paulo

Por Thaís Ferraz e Isabela Fleischmann

Quando o Afeganistão colapsou, a empresária Nilofar Ayoubi, de 26 anos, tinha 40 funcionários, a maioria mulheres, sob sua direção. Dona de negócios de tapeçaria, decoração e roupas, Nilofar também era editora do jornal AsiaTimes e coordenava uma ONG de apoio a mulheres no país. Retirada às pressas de Cabul, perdeu tudo, e hoje tenta recomeçar a vida na Polônia.

Durante os dias de caos no aeroporto de Cabul, afegãos que conseguiram deixar o país foram considerados de sorte. Três meses depois, a realidade é mais complexa: muitos permanecem em campos de refugiados ou bases militares, sem saber se poderão permanecer nos países em que estão. Outros ainda lutam por vistos. Para alguns, ainda há a preocupação com a família deixada para trás.

No processo de retirada, entre os dias 15 e 30 de agosto, potências estrangeiras transportaram mais de 120 mil pessoas para fora do país. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que, até o fim do ano, meio milhão de afegãos atravessem as fronteiras com os países vizinhos, Paquistão e Irã, que historicamente recebem o maior fluxo de refugiados.

Ativista e feminista, Nilofar era um alvo para o Taleban. Pouco antes do colapso de Cabul, ela começou a receber ameaças pelo Twitter.

"Fizeram photoshop e colocaram minha foto em um corpo de uma mulher sendo levada à execução pelo Taleban", afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo. "Eles disseram 'não se preocupe, quanto tomarmos Cabul vamos te matar, você não voltará a trabalhar'." Seu escritório e suas propriedades também foram ameaçados por anônimos que diziam pertencer ao grupo extremista.

Fuga

Na madrugada de 15 de agosto, Nilofar recebeu a ligação de uma amiga que havia conseguido fugir para um país seguro. "Ela me disse para deixar o país imediatamente porque eu estava na mira e os assassinatos já tinham começado", conta. "Eu não planejava deixar o país. Foi uma decisão muito difícil para mim, mas no fim eu não tive escolha por causa dos meus filhos."

Nilofar é mãe de três crianças, de 5, 3 e 1 ano. Com a tomada de poder, Nilofar, suas contas bancárias foram confiscadas e suas propriedades, tomadas pelo Taleban. "Agora tudo pertence ao governo e somos os traidores", diz.

Com ajuda de organizações internacionais, ela conseguiu fugir, com o marido e os filhos, para a Polônia. No país, refugiados podem receber proteção internacional, que inclui título de residência ilimitada e autorização de trabalho. Eles também ganham cartões de residência e um documento de viagem que permite o translado na União Europeia e outros países.

Refugiados

Desde a queda de Cabul, o país recebeu 1.137 refugiados afegãos. Parte deles foi encaminhada para acampamentos de imigrantes, como Nilofar. Por semanas, ela e a família viveram em um pequeno quarto com roupas de segunda mão. Durante este tempo, não havia certeza de que eles poderiam permanecer na Polônia. A espera terminou em meados de setembro, quando, com a ajuda de amigos, a família conseguiu um apartamento.

Ozair Akbar, de 26 anos, ainda não teve a mesma sorte. Alvo do Taleban por trabalhar com várias organizações internacionais diferentes, o financista conseguiu deixar Cabul no dia 22 de agosto com a ajuda de militares italianos.

"A semana (da tomada do poder) foi terrível. Eu não saí de casa", conta. Na noite de 21 de agosto, Ozair recebeu uma ligação para ele ir ao aeroporto. Ele conseguiu embarcar, mas não levou a família. Desde então, está na Itália, onde solicitou permanência. "Já se passaram três meses e ainda estamos esperando."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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especial para o jornal O Estado de S. Paulo Thaís Ferraz e Isabela Fleischmann