Publicado 22 de Novembro de 2021 - 8h06

Por especial para o Estadão

Por Luciana Rosa

Os argentinos votam hoje para renovar 127 das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados e 24 dos 72 senadores. A crise econômica e as divisões internas do peronismo ameaçam a maioria legislativa do presidente argentino, Alberto Fernández, caso ele repita o desempenho que sua coligação - Frente de Todos - teve nas primárias, em setembro.

A situação econômica do país ajuda a explicar o provável fracasso de Fernández nas urnas. A inflação, que ultrapassou os 50% entre janeiro e setembro, provocou uma corrida desesperada dos argentinos para as casas de câmbio, na tentativa de salvar suas economias em peso. Com isso, o dólar vem disparando, deteriorando o poder de compra da população e agravando as contas públicas.

"As explicações para o fracasso do governo são socioeconômicas", disse Julio Burdman, analista político e diretor do Observatório Eleitoral. A taxa de pobreza supera os 40% e o crescimento do PIB não deve repor as perdas de 2020. Acuado, o governo respondeu com velhas políticas heterodoxas, que fracassaram nos anos 80: o congelamento do preço de 1.245 produtos por 90 dias.

A inflação alta tira a confiança no governo. "As coisas aumentam todos os dias. Não há maneira de parar isso, porque o governo não se importa com as pessoas", diz o sapateiro Cristián Pérez, de 80 anos, de Villa Ortuzar, bairro industrial da capital Buenos Aires. Para ele, um dos grandes problemas da Argentina são os impostos, usados, segundo ele, para financiar projetos sociais. "A essa altura da vida, vou morrer aqui", afirma o homem, que preferiu não votar na última eleição presidencial. "Os jovens, no entanto, deveriam todos ir embora da Argentina."

Beatriz Ortiz, que trabalha em uma revista e vive em Belgrano, bairro nobre da capital, vai às urnas hoje votar na oposição. "A situação do país é ruim", disse. "A pobreza cresceu muito. Ninguém estava preparado para uma pandemia, mas o governo não demonstrou compromisso."

Pandemia

A crítica de Beatriz é uma referência a outro calcanhar de Aquiles de Fernández: os escândalos que marcaram sua resposta à covid. O governo até que começou bem, com bastante apoio popular nos primeiros meses de lockdown. Com o tempo, se perdeu. Em fevereiro, o ministro da Saúde, Ginés González García, renunciou após a revelação de que teria distribuído doses de vacina para amigos, servidores e secretários de governo que não faziam parte do grupo prioritário.

Em julho, a primeira-dama, Fabiola Yáñez deu uma festinha de aniversário na sede do governo quando estava em vigor um decreto assinado pelo próprio Fernández proibindo reuniões e a circulação de pessoas. O episódio ajudou a dar fim à lua de mel entre o governo e seu eleitorado.

Os reflexos dos tropeços do presidente podem ser vistos em uma pesquisa recente da Universidad de San Andrés, que aponta uma aprovação - total ou parcial - de Fernández de apenas 26% dos eleitores; e uma desaprovação - total ou parcial - de 72%. Aldo Quispe, de 45 anos, um gari da cidade de Florencio Varela, na Grande Buenos Aires, é um exemplo dessa minoria que mantém a fé no peronismo, que segundo ele lhe deu a chance de reformar a casa e comprar um carro zero "graças a Deus".

Mas a paciência de Aldo também tem limite e a alta do dólar incomoda. "Com esse aumento recente, a prestação do carro subiu 50% de um mês para o outro. É muito para minha família. Mais os gastos de luz e de água, que também aumentaram. Além da comida e do transporte para vir trabalhar."

Fogo amigo

Outro desafio para Fernández são as divisões internas no peronismo. Mais especificamente, o fogo amigo disparado por sua vice-presidente, Cristina Kirchner. Confirmada em setembro a derrota nas primárias (uma espécie de eleição simulada, já que o voto é obrigatório), ela reclamou publicamente da morosidade do governo e atacou o presidente, em carta no Twitter. No texto, Cristina faz referência ao fato de ter feito dele um candidato. "Só te peço que honre aquela decisão", escreveu.

Após o puxão de orelha, Fernández trocou seis ministros, além do porta-voz da presidência, abrindo mais espaço para kirchneristas como o novo ministro da Segurança, Aníbal Fernández, homem forte e voz radical em governos anteriores. É improvável, porém, que a manobra mude o resultado das urnas que, segundo analistas, deve repetir a insatisfação demonstrada nas primárias.

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especial para o Estadão Luciana Rosa