Publicado 16 de Novembro de 2021 - 8h41

Por Luiz Carlos Merten

Por especial para o Estadão

Karim Aïnouz nos lembra a todo momento sua mãe e o pai, que colocou no centro de seu cinema, em filmes como A Vida Invisível e O Marinheiro das Montanhas. Mas Karim nunca havia aberto a história de sua irmã cineasta, Kamir. Ela veio a São Paulo participar da 45.ª Mostra com seu longa de estreia, Charuto de Mel. Teve direito a sessão com debate no Reserva Cultural. O filme estreou na quinta-feira, 11, distribuído pela Imovision. É ótimo. No encontro com o repórter, no café do Reserva, o que primeiro surpreende são os olhos. Kamir tira a máscara e exibe o sorriso. Contagiante.

O irmão tem marcado presença nos festivais de Cannes e Berlim. Ela fez sua estreia em Veneza, nas Giornate degli Auttor do ano passado. Fez questão de situar sua história no biênio 1994-95, quando ela própria era mais jovem. Se não é rigorosamente autobiográfico, o filme é bastante pessoal. "É a história da minha geração, a de um corpo jovem de mulher dividido entre duas culturas." Neuilly, na França, e Cabylia, na Argélia - naquelas montanhas de cumes nevados em que Karim também filmou Marinheiro. Selma, a protagonista, interpretada pela sobrinha de Isabelle Adjani, Zoe, vive entre esses dois mundos. A tradição argelina, em que o casamento arranjado ainda é regra para mulheres numa sociedade opressora e patriarcal, e a modernidade francesa. No final, as escolhas - de mãe e filha - serão feitas, na Argélia.

IDENTIDADE

"Na verdade, às vezes não me sinto francesa nem argelina. Sinto como se estivesse querendo criar uma terceira identidade. Nesse sentido, estou muito próxima do Karim. Temos o mesmo pai, mas mães diferentes. Fomos criados em famílias diversas, ambas com segredos, marcadas pelo não dito. Tenho certeza de que isso nos influenciou muito para que chegássemos ao cinema." Sua vertente é autoral e independente. "Não me imagino fazendo outro tipo de filme que não tenha a ver comigo."

Como o célebre Gustave Flaubert ("Emma Bovary sou eu"), Kamir poderia dizer que Selma é ela. A descoberta do corpo, da sensualidade. De cara, o garoto, na escola, diz que Selma tem belos seios. "Sou produto de uma cultura, a argelina, que é muito sensual. Para nós, o cheiro é muito importante, o toque. Nós, mulheres, somos comparadas a flores." No filme, parece que o garoto apaixonado, o Julien de Louis Perès, é tolo, será abusivo. "Não é. Queria ser generosa com essa juventude. Já experimentei essa confusão de comportamentos e sentimentos."

UM FAROL

O abuso vem de outra parte - olha o spoiler -, justamente do executivo que a família considera o partido ideal. O pai da ficção é meio parecido com o da realidade. No Marinheiro, Karim conta como o pai conheceu sua mãe ao estudar nos EUA. Voltou para uma Argélia convulsionada pela Guerra Civil, e da qual Kamir apresenta, mais tarde, imagens documentais do temível Estado Islâmico. Para fugir do fundamentalismo, a família refugia-se na França. Selma volta para uma Argélia militarizada. Na cena da estrada, os soldados são atores. "Vivemos uma opressão muito forte." Apesar de eventuais divergências, a mãe foi um farol. "Minha família esteve sempre na luta anticolonialista. Minha mãe, advogada e juíza, me apontou um caminho."

Como é, para uma mulher que sofreu a repressão, filmar cenas de sexo? "Libertador, mas é tudo simulado, você sabe, não?", ela sorri, e os olhos claros se iluminam. A atriz que faz a mãe, Amira Casar, é um assombro, e não apenas pela beleza madura. Fez a mãe de Timothée Chalamet em Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnino. "Seu registro consegue ser delicado e incisivo, ela pode fazer não importa que papel." O Brasil? "Já estive aqui, há uns 15 anos. É outro país muito sensual. Daqui vou ao Rio para outra exibição do Charuto, mas volto a São Paulo antes de retornar à França." Pode até ser que isso nunca ocorra - de Karim virar, para a mídia, o irmão de Kamir Aïnouz. Mas, de cara, Kamir já se emancipou. A irmã de Karim tem identidade própria. Nasceu mais uma autora.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Luiz Carlos Merten especial para o Estadão