Publicado 14 de Novembro de 2021 - 12h30

Por Felipe Rosa Mendes e Ricardo Magatti

A pandemia de covid-19 dá sinais de enfraquecimento no Brasil, mas as restrições seguem firmes na Fórmula 1. Após ficar fora do calendário em 2020, o GP de São Paulo voltou com filas longas para a torcida, burocracias e limitações para os jornalistas e menos contato com pilotos e equipes tanto no paddock do Autódromo de Interlagos quanto nas entrevistas comandadas pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA).

As mudanças causadas pelas restrições puderam ser constatadas nos três dias do evento, a começar pelos arredores do autódromo. Tornaram-se comuns filas extensas, e não somente por causa do aumento do público pra o GP deste ano. Como cada torcedor precisava apresentar comprovante de vacinação ou resultado negativo do teste de covid-19, a entrada se tornou mais lenta em cada portão. Neste domingo, as filas já apareciam as 8h, seis horas antes da largada.

Aos jornalistas, as limitações começaram dias antes do evento. A F-1 exigiu informações sobre vacinação e testes de cada profissional em dois aplicativos de celular. Foi necessário fazer o exame PCR no próprio autódromo. Ao mesmo tempo, diversos documentos precisavam ser assinados para confirmar comprometimento com as medidas sanitárias vigentes no campeonato.

Na sala de imprensa, é possível constatar o esvaziamento da cobertura nacional e internacional in loco. O GP deste ano contou com um terço dos profissionais que costuma receber. A redução do número de jornalistas no autódromo se justifica pelo maior distanciamento entre pilotos e profissionais da imprensa. Praticamente só os canais de TV têm acesso aos atletas e equipes. Aos demais, é preciso se contentar com entrevistas online intermediadas pela assessoria da FIA. E uma chance rápida no cercadinho reservado aos pilotos ao fim das sessões.

O paddock de Interlagos também conta com menos convidados. Com as restrições, o ambiente ficou menos badalado. Em anos anteriores, era comum ver famosos e VIPs aproveitando os serviços de alimentação e bebida das equipes em cada um dos "hospitality center", os locais onde se reúnem os membros dos times e eventuais visitantes. Os tradicionais almoços servidos para a imprensa e convidados também foram vetados.

Em alguns momentos do evento, o paddock fica vazio, algo raro na história do GP brasileiro. Pilotos encontraram a situação ideal para ficarem mais à vontade sem tanto assédio ou demanda da imprensa. Engenheiros, mecânicos e demais funcionários das equipes podem trabalhar com mais tranquilidade também, agora sob a nova cobertura do paddock - a etapa brasileira é a única a contar com essa proteção. A presença de torcedores passeando pelo pit lane, logo à frente dos boxes, também foi vetada neste ano.

O uso de máscaras, contudo, é flexível nos setores VIPs e nas arquibancadas. Mesmo entre os pilotos, a reportagem do Estadão flagrou diversos momentos em que eles deixaram os protocolos de lado para abraçar fãs, dar autógrafos e bater fotos no aeroporto, em restaurantes e até no Allianz Parque, o estádio do Palmeiras. Já no paddock seguem as regras são rígidas da F-1.

TORCEDORES - Apesar das restrições, os fãs de automobilismo não desanimaram. Ricardo Junior, de 35 anos, veio de Boston, nos Estados Unidos, para acompanhar o GP. Ele investiu cerca de R$ 10 mil entre passagens aéreas, hospedagem, ingressos e comida. Havia vindo em 2018 pela primeira vez.

"E a segunda vez em São Paulo. Eu sou fanático por Fórmula 1. Não perco mais nenhuma aqui", diz o dono de uma transportadora, que vai assistir à corrida do setor G. Fora do Brasil há 21 anos, ele considera que o evento "superou as expectativas em relação a público" e aprovou as mudanças, sobretudo as relacionadas ao entretenimento, como a presença de DJs e o telão maior. Mas reclamou da falta de acessibilidade nas arquibancadas e do preço dos itens.

"Eu e meus primos passamos muito mal com a comida. Também escutei de amigos de arquibancada que não gostaram do que comeram", reclama. Nas arquibancadas, a cerveja era vendida a R$ 13,50 e o refrigerante a R$ 9. A batata custava R$ 21, o cachorro quente, 18. Pelo hambúrguer, o torcedor tinha de desembolsar R$ 35.

Rodrigo Ortega, de 46 anos, não veio de tão longe quanto Ricardo, mas teve de viajar alguns quilômetros para ver a prova brasileira, de volta ao calendário da F-1. Ele saiu de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, para assistir ao evento pela 15ª vez. "Eu venho todos os anos desde 2006, conta o gerente de infraestrutura de TI e fã do líder do Mundial de Pilotos. "Neste ano estou torcendo para o Max Verstappen e gosto muito do Daniel Ricardo também".

Rodrigo ficou satisfeito com a estrutura montada e gostou da ampliação das arquibancadas. "Para mim a principal mudança foi que a arquibancada da geral está ampliada, indo mais para além da curva 4", opina o torcedor, que se acomodou no setor G. Ele gastou R$ 3 mil entre passagens e ingressos, fora os gastos com alimentação e transporte.

Escrito por:

Felipe Rosa Mendes e Ricardo Magatti