Publicado 13 de Novembro de 2021 - 17h26

Por Fernanda Simas

Em fevereiro, a DEA (agência antidrogas dos EUA) apreendeu um carregamento de metanfetamina nos portos de Los Angeles e Long Beach, na Califórnia. Escondida em contêineres, os agentes descobriram 1,7 tonelada da droga, que veio da América Central e seguia para a Austrália, passando por uma das rotas da cocaína usadas por narcotraficantes colombianos. Foi a maior apreensão do tipo até então, e um sinal de um fenômeno crescente.

Dominar uma rota do tráfico é tão importante quanto ter acesso à mercadoria. Uma de suas características é que elas mudam pouco ao longo do tempo. No século 19, os confederados fugiam dos impostos ao contrabandear algodão para o México, depois para a Europa. Junto com o algodão, eles levavam armas com as quais abasteciam Benito Juárez, caudilho mexicano que lutava contra os franceses.

Ao mesmo tempo, bandoleiros mexicanos usavam as mesmas rotas para roubar gado no Texas, remarcá-lo no México e revendê-lo aos americanos. Junto com a boiada, eles levavam tequila, pulque, mezcal e rum, um comércio ilegal que prosperou, principalmente durante a Lei Seca, nos anos 1920. Os pontos de passagem mais importantes eram Tijuana, Mexicali e Ciudad Juárez - praticamente os mesmo que hoje os cartéis usam para atravessar a cocaína para os EUA.

Usando a mesma lógica para obter mais eficiência na logística, o narcotráfico colombiano acrescentou a metanfetamina em sua carteira de produtos. A droga sintética passou a ser despachada para a Europa e EUA colada na cocaína, ainda o carro-chefe dos cartéis da Colômbia. O que mudou com a pandemia, segundo o Escritório da ONU sobre Drogas e Crime (UNODC), foi um aumento das rotas marítimas e uma redução dos envios aéreos.

"As apreensões mais importantes de drogas sintéticas ocorreram em portos e aeroportos. As rotas são as mesmas (da cocaína) e a cadeia de comércio ilícito também", diz o general da reserva Juan Carlos Buitrago Arias, autor do livro Os Princípios Não Se Negociam, sobre as máfias na Colômbia.

Entre as seis principais rotas da cocaína, segundo o governo colombiano, três usam a via marítima e duas têm paradas na América Central: as rotas do Golfo de Urabá-Chocó e do Pacífico Sul. As escalas facilitam o carregamento de metanfetaminas feitas no México, o maior produtor do mundo.

Na rota do Pacífico Sul, em dois minutos, o carregamento deixa a Colômbia e entra no Equador, na região do Rio Mataje, a mesma onde, em 2018, três jornalistas do diário equatoriano El Comercio foram sequestrados e mortos a mando de Walter Patricio Artízala Vernaza, conhecido como "Guacho", chefe dissidente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Em navios, as drogas são escondidas em cargas, no casco ou em partes do convés. Autoridades americanas acreditam que os cartéis mexicanos usam as rotas da cocaína colombiana para traficar metanfetamina em pó ou líquida. Cartéis como Jalisco Nueva Generación, Golfo e Los Zetas fazem o envio para EUA e Europa.

De acordo com Buitrago, a fronteira com a Venezuela também é usada para o tráfico. "As dissidências das Farc ficaram de fora do processo de paz para manter o narcotráfico, que continua sendo sua única fonte de financiamento. E agora aproveitam a aliança com a Venezuela, onde se assentou o Cartel de Sinaloa (do México), principal comprador da cocaína que produzem."

As regiões onde atuam dissidentes das Farc, chefiadas pelo ex-negociador Iván Márquez, são as que ainda apresentam cultivos ilícitos. "Eles estão em Cauca e Catatumbo, ou onde estão as rotas do Pacífico e na fronteira com a Venezuela", explica o coronel da reserva da Colômbia John Marulanda.

ALTA PRODUÇÃO. A Colômbia continua sendo a maior produtora mundial de cocaína. Nos últimos três anos, quase 70% da droga apreendida na Europa veio do país. "Já existem organizações europeias e latino-americanas especializadas no comércio de drogas sintéticas em troca de cocaína e heroína", disse Buitrago, sobre o aumento do tráfico de metanfetaminas.

Em 2020, a área colombiana ocupada por produção de coca chegou a 143 mil hectares, 7% menos do que o reportado um ano antes e 17% menos do que em 2017, quando foi o ponto mais alto da série histórica. No entanto, a produção da droga aumentou em 8%, passando de 1.058 toneladas, em 2017, para 1.228 mil toneladas, em 2020.

"Apesar da redução dos cultivos ilícitos, o aumento da produção de cocaína se deve à adoção de engenharia genética nos cultivos e nas sementes. Na mesma extensão onde antes se produzia uma colheita, agora se produzem até quatro ao ano", diz Marulanda.

A produção aumenta porque o consumo e o lucro crescem. Um quilo de cocaína nos EUA, principal destino do tráfico colombiano, vale até US$ 28 mil. Na Europa, varia de US$ 40 mil a US$ 80 mil. "Nesta luta, a Colômbia está só", disse. "No ano da pandemia, o consumo de cocaína foi recorde nos países europeus. Ou seja, é um problema global que requer uma solução global", afirma Marulanda.

Os cartéis mexicanos também entendem a eficiência logística e trabalham para otimizar o negócio. No informe de 2019, a ONU advertiu que os mexicanos estavam reduzindo sua dependência da cocaína sul-americana e impulsionando a produção de metanfetamina para o mercado americano. Segundo o UNODC, 1 grama de metanfetamina vale de US$ 30 (R$ 158) a US$ 60 (R$ 316). Mas, na Europa e na Austrália, chega a render entre US$ 140 (R$ 739) e US$ 830 (R$ 4,3 mil).

PARCERIA. Atualmente, o maior grupo narcotraficante da Colômbia é o Clã do Golfo, também conhecido como Autodefesas Gaitanistas, que opera as rotas do narcotráfico em parceria com os cartéis mexicanos. A prisão, no mês passado, do líder do Clã do Golfo, Dairo Antonio Úsuga, conhecido como "Otoniel", foi comparada à morte de Pablo Escobar, mas deve ter pouco efeito no combate ao narcotráfico.

"Estamos avaliando vários cenários para entender se esse golpe vai ajudar a melhorar o problema número um da criminalidade na Colômbia. Mas eu duvido. Não é um ponto de virada, mas um ponto de referência. O narcotráfico continua correndo solto no país, na região e no mundo", avalia Marulanda.

Os dois militares colombianos defendem a fumigação como método mais eficaz para se combater os cultivos ilícitos na Colômbia. "É preciso uma combinação de atividades, com benefícios sociais e construção de infraestrutura, um plano articulado de diferentes atividades complementares, simultâneas e paralelas, mas com um peso específico na fumigação", afirma Marulanda. Para Buitrago, a suspensão da fumigação foi "um grande erro". Ativistas e camponesas, no entanto, resistem à fumigação, que pode afetar também cultivos legais e causar danos ao meio ambiente. Além disso, segundo eles, o uso disseminado de herbicidas na Colômbia, nos anos 80, não impediu o crescimento dos cartéis de Medellín e Cali. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Fernanda Simas