Publicado 13 de Outubro de 2021 - 17h18

Por Leon Ferrari

Com os hospitais em colapso, as imagens da pandemia em Manaus seguem vivas na mente de Glauce Galúcio. "Foi aterrorizante, não tinha mais cemitérios para colocar as pessoas." A professora universitária acompanhou a morte de vários amigos, com idade próxima à dela, que tem 40 anos. Viu, ao mesmo tempo, filhos de alguns deles ficando órfãos. Com o objetivo de amparar essas crianças e adolescentes, criou o projeto "Eu Amo Meu Próximo".

Entre as perdas, a morte de uma ex-colega do ensino médio foi a que mais marcou. "Me abalou muito, porque convivia com ela na época do colégio. Depois acompanhei o casamento e o nascimento dos filhos", conta Glauce, que relembra trabalhos de escola, dança e idas ao cinema. Neste caso, os órfãos foram três: o mais velho, de 18 anos, uma de 6 e a caçula, de apenas 3.

"Eu me senti responsável. Se minha amiga não está aqui, eu preciso ajudar os filhos dela, acompanhá-los de alguma forma", diz. Em setembro de 2020, foi Glauce quem se infectou com o mesmo vírus. "É uma doença que nos deixa afetados psicologicamente. Você pensa que vai morrer: está todo mundo morrendo, então você é o próximo", conta.

O quadro de Glauce, porém, foi de sintomas leves, com comprometimento do pulmão menor do que 25%. Após a recuperação, uma pergunta martelava: "Por que eu sobrevivi?". Na visão dela, surgia um propósito.

Em janeiro deste ano, quando Manaus passava pela crise do oxigênio, nasceu o "Eu Amo Meu Próximo", projeto vinculado ao Instituto de Pesquisa e Ensino para o Desenvolvimento Sustentável (Ipeds), com auxílio de estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da Universidade Paulista (Unip). "Percebemos que não havia nenhum tipo de assistência aos órfãos", conta a educadora. "Queremos minimizar a dor e o sofrimento dessas crianças que ficaram órfãs por causa da covid", explica.

Assim, desde janeiro, a iniciativa proporciona ajuda mensal a crianças e adolescentes que perderam ao menos um dos provedores. Além das cestas básicas, materiais de higiene e fraldas descartáveis, há atendimento psicológico, prestado por profissionais voluntários. Hoje, o projeto atende aproximadamente 150 órfãos no Amazonas, principalmente na capital.

Entre eles a história de Ester Moraes, de 16 anos, é marcante para Glauce. Em pouco tempo, a menina de Manaus perdeu o pai e a avó para a doença, precisando ficar aos cuidados de uma tia. "Ela diz que se sente amparada pelo projeto", destaca a educadora.

Glauce aproveita para ensinar aos assistidos que todos podem ajudar. Assim, as crianças e os adolescentes ficam atentos a roupas que não cabem mais e a brinquedos que não usam. No dia da entrega mensal, a professora conta que "eles vêm, cheios de orgulho, com as sacolinhas e dizem: 'Olha, tia, isso aqui é para doar para outras crianças que ficaram órfãs também'."

Doações podem ser feitas pela chave PIX, CNPJ: 41.640.946/0001-08, ou, presencialmente, no Ipeds, na Avenida Djalma Batista, 4.836, em Manaus. Mais informações pelo telefone (92) 99248-0221. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Leon Ferrari