Publicado 13 de Outubro de 2021 - 16h23

Por O Estado de S.Paulo

Por Redação

Um terrorista suicida do Estado Islâmico devastou uma mesquita xiita na cidade de Kunduz, no norte do Afeganistão, nesta sexta-feira, 8, matando dezenas de fiéis em uma continuação mortal da campanha do grupo terrorista contra a minoria Hazara. Segundo líder xiita local, mortos podem passar de 70.

O massacre, enquanto a mesquita estava lotada para a oração de sexta-feira, foi o segundo do grupo contra uma mesquita em menos de uma semana. É a concretização dos temores dos hazaras afegãos de que a perseguição do Estado Islâmico não fosse controlada sob o governo do Taleban, que já atacou os hazaras no passado.

Segundo o grupo extremista islâmico, o suicida era chamado de "Mohammed, o uigur", o que implica que ele fazia parte da minoria muçulmana chinesa.

Relatos de testemunhas descreveram uma explosão poderosa com muitas baixas. Matullah Rohani, um oficial do Taleban em Kunduz, disse à mídia local que pelo menos 43 pessoas foram mortas no ataque e mais de 140 ficaram feridas.

Um líder da comunidade xiita local colocou o número de mortos muito mais alto. Sayed Ahmad Shah Hashemi, que representa a população xiita da Província de Kunduz, disse ao The New York Times que mais de 70 pessoas foram mortas no ataque. "Este incidente mortal causou trauma entre os xiitas e outros setores da sociedade", disse Hashemi.

Horas depois da explosão, o Estado Islâmico Khorasan, também conhecido como EI-K, reivindicou a autoria do ataque. Foi o atentado mais mortal do grupo desde o ataque suicida no aeroporto internacional de Cabul, em 26 de agosto, que matou cerca de 170 civis e 13 soldados dos EUA.

O EI-K é um grupo extremista sunita que há muito tem como alvo os muçulmanos xiitas no Afeganistão, concentrando-se fortemente na minoria étnica hazara, que é predominantemente xiita.

Grupo fundamentalista que busca instaurar uma versão radical da lei islâmica se espalhou por todo o país, invadindo uma cidade após a outra até conquistar Cabul

No domingo, o grupo também realizou um ataque do lado de fora de uma mesquita em Cabul, a capital, que matou cinco pessoas.

Nos meses anteriores à retirada das forças americanas do Afeganistão, entre 8 mil e 10 mil combatentes jihadistas da Ásia Central, região do Cáucaso do Norte na Rússia, Paquistão e região de Xinjiang, no oeste da China, invadiram o Afeganistão, segundo um relatório das Nações Unidas em junho. A maioria estaria associada ao Taleban ou à Al-Qaeda, que estão intimamente ligados, mas outros eram aliados do Estado Islâmico.

Conexão com a China

Ao reivindicar a autoria do ataque em Kunduz nesta sexta-feira, o comunicado do EI-K afirma que o assassino era da etnia uigure - uma minoria muçulmana oprimida no oeste da China. A China há muito teme que o Afeganistão possa se tornar um refúgio para militantes uigures que possam tentar atacar os interesses do governo chinês em vingança por seus abusos contra a população muçulmana na Província de Xinjiang.

O recém-instalado governo do Taleban, após derrubar a administração do país apoiada pelo Ocidente em agosto, está lutando para conter um Estado Islâmico revigorado. O grupo tem se tornado cada vez mais antagônico nas últimas semanas, conduzindo ataques e explosões que incluíram combatentes do Taleban entre os mortos. O novo governo também está lutando contra o colapso da economia, já que o financiamento estrangeiro permanece em grande parte congelado.

À medida que os oficiais do Taleban deixam de liderar uma insurgência e passam a formar um Estado funcional, precisam fornecer segurança a uma população devastada por mais de 40 anos de guerra. Mas os ataques do Estado Islâmico minaram as promessas do Taleban.

O principal porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, condenou o ataque nesta sexta-feira e prometeu retaliação. Para a minoria xiita do Afeganistão, a nova era do Taleban viu uma continuação da perseguição e da violência de que foram vítimas por décadas.

Os hazaras ficaram cada vez mais amargos com o governo apoiado pelos EUA do presidente Ashraf Ghani nos últimos anos, acusando-o de fazer pouco para protegê-los contra o massacre sectário. E eles olharam para o retorno do Taleban ao poder com pavor: durante a era da guerra civil dos anos 90 e o primeiro governo do Taleban no Afeganistão, o grupo fez questão de mirar os xiitas hazara. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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