Publicado 12 de Outubro de 2021 - 17h26

Por Estadão Conteúdo

Três em cada quatro venezuelanos vivem em situação de extrema pobreza, em meio a uma longa crise econômica agravada pela pandemia da covid-19 e pela escassez de combustível, afirmou um relatório apresentado nesta quarta-feira, 5. Segundo a Pesquisa Nacional de Condições de Vida 2021, coordenada pela Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), 94,5% da população venezuelana é pobre e 76,6% está abaixo da linha da extrema pobreza, vivendo com menos de 1,2 dólar por dia.

O relatório - que é divulgado anualmente e foi baseado em entrevistas com 14 mil famílias feitas entre fevereiro e abril - mostra como o agravamento da pobreza na Venezuela no ano passado esteve relacionado à crise de abastecimento de combustíveis e à redução da mobilidade, devido às restrições pandêmicas. A pobreza no país, que sofre com a hiperinflação e está em seu oitavo ano de recessão, aumentou 91,5% entre 2019 e 2020, e a extrema pobreza, 67,7%.

"Atingimos o teto da pobreza", disse o sociólogo Luis Pedro España na apresentação da pesquisa, que estima a população da Venezuela em 28,7 milhões de habitantes, depois que mais de 5 milhões emigraram desde 2014.

Esses números estão longe dos divulgados pelo presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que afirmou, em sua prestação de contas à Assembleia Nacional, que 17% da população vivia na pobreza em 2020, e apenas 4% na extrema pobreza.

Um dos dados mais preocupantes da pesquisa é o desemprego, que atinge 8,1 milhões de venezuelanos (30,3% da população). Desse total, 3,6 milhões são de desalentados que pararam de buscar trabalho e 1,5 milhão de mulheres com filhos que não podem trabalhar porque têm que cuidar deles.

O especialista fala em "crise de mobilidade" devido às quarentenas e à falta de gasolina decorrente do colapso da indústria petrolífera. A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo, mas a má gestão e as sanções dos Estados Unidos, intensificadas desde 2019, afetaram duramente o setor.

Apenas 50% dos venezuelanos em idade produtiva são ativos, de acordo com a pesquisa, cerca de 7,6 milhões. As mulheres são as mais afetadas, com apenas um terço das trabalhadoras em atividade. Entre 2014 e 2021, o emprego formal foi reduzido em 21,8%, o que significa 4,4 milhões de empregos a menos, 70% deles no setor público e 30% no setor privado. Somente no ano passado, 1,3 milhão de empregos desapareceram, o que levou um em cada dois trabalhadores a trabalhar por conta própria.

"Por que na Venezuela as pessoas estão parando de trabalhar?", questionou España. "Porque os custos para isso começam a ser maiores do que a remuneração que você vai receber."

O salário mínimo, complementado por um vale alimentação obrigatório, mal ultrapassa o equivalente a US$ 2 mensais. Este valor, porém, não é mais uma referência no setor privado, onde a renda média gira em torno de US$ 50, segundo pesquisas privadas. Por outro lado, 10% dos venezuelanos concentram 40% da renda nacional.

Ainda assim, afirma o sociólogo, o problema da Venezuela hoje não é a desigualdade, mas a paralisação da produção e a queda abismal da receita do país, de US$ 90 bilhões em 2012 para US$ 5 bilhões em 2020, hoje obtidos principalmente com as exportações privadas não petrolíferas, evidência do fim da economia baseada no petróleo.

"Se distribuíssemos de forma equitativa toda a renda entre as famílias, a média per capita seria de US$ 30 por venezuelano por mês, ou seja, US$ 1 por pessoa por dia, cenário em que todos seríamos extremamente pobres", acrescenta.

O governo Maduro desenvolveu uma política de transferência direta de crédito por meio de títulos em bolívares. No caso de famílias em extrema pobreza, a renda chega a US$ 36 por mês e as contribuições do governo ultrapassam US$ 50, de modo que essas pessoas são totalmente dependentes dos títulos. Ainda assim, essas alocações precisariam ser aumentadas mais de 30 vezes para tirar essas famílias da pobreza extrema.

Diante do colapso, 86,5% das famílias recebem ajuda do governo e 20%, remessas de parentes no exterior. Mas a pandemia atingiu também esses envios: 11% das famílias que contavam com essa renda em 2020 pararam de recebê-la e 22% sofreram sua redução.

O impacto da pandemia na educação também é evidente. Dos 11 milhões de pessoas em idade escolar (3 a 24 anos), apenas 65% estão matriculadas em centros educacionais de diferentes níveis de ensino, uma queda de 5% em relação a 2020, destacou Anitza Freitez, coordenadora do estudo.

O porcentual entre os potenciais alunos universitários - pessoas de 18 a 24 anos - mal chega a 17%. Noventa por cento dos que estudam o fizeram remotamente nos últimos meses devido à covid-19, afetados por falhas em serviços públicos como eletricidade e conexão, e 70% relatam necessidades de melhorias no acesso à internet. (Com agências internacionais)

Escrito por:

Estadão Conteúdo