Publicado 14 de Setembro de 2021 - 10h28

Por Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou nesta terça-feira, 14, em seu último evento antes do período de silêncio antes do Comitê de Política Monetária (Copom), que o BC não irá alterar o plano de voo de política monetária a cada número novo de alta frequência de inflação que seja divulgado. Frisou, no entanto, que a taxa Selic será levada onde for preciso para alcançar a meta de inflação. "Vamos levar a Selic aonde precisar, mas não vamos reagir sempre a dados de alta frequência", disse, durante participação no evento MacroDay 2021, do BTG Pactual.

Depois da surpresa negativa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de agosto (0,87%), o mercado passou a precificar aumento entre 1,25 ponto porcentual e 1,50 ponto no próximo Copom, neste mês, o que seria uma aceleração do passo ante a última reunião, em que houve alta de 1 ponto.

O presidente do BC afirmou que nunca houve tantos choques de inflação em um período tão curto no Brasil, destacando as surpresas com alimentos, energia elétrica e combustíveis.

Campos Neto reconheceu que a inflação em 12 meses tem rodado bem acima da meta e disse que o BC tem observado os núcleos para verificar a disseminação.

Segundo o presidente do BC, já era esperado o aumento de serviços e reajustes mais fortes em componentes que foram represados.

Campos Neto ainda repetiu que as expectativas de inflação para 2021 e 2022 estão subindo e que o BC está avaliando as diferenças entre as previsões do mercado e do Copom, indicando novamente que podem estar ligadas às estimativas de hiato do produto e de inércia inflacionária.

Percepção sobre inflação de outros BCs

O presidente do Banco Central afirmou que os bancos centrais pelo mundo estavam otimistas com recuperação com menos inflação, com um processo inflacionário temporário, mas isso não está se mostrando verdade. Ele citou os problemas com a falta de semicondutores e que era esperada resolução em seis meses, agora já se espera em um ano.

Segundo ele, a produção de semicondutores só cresceu na pandemia, o que afasta a tese de disrupção de oferta. "Fica mais fácil dizer hoje que tem algo estrutural acontecendo. A gente espera que tenha normalização, mas que está demorando um pouco mais, o que cria uma persistência inflacionária."

O presidente do BC voltou a destacar que as surpresas negativas têm ocorrido por toda a parte. Nos Estados Unidos, Campos Neto repetiu que há uma inflação contratada em virtude dos preços de aluguéis.

Ele ainda repetiu que os esforços para a economia verde têm demandado mais minerais e metais, impulsionando os preços dessas commodities. Mas ponderou que, recentemente, o preço do minério tem tido queda forte, com estabilização de grãos e metais.

Em relação ao crescimento econômico, disse que o mundo ainda está otimista

Ruídos

O presidente do Banco Central reafirmou também que há melhora na dinâmica fiscal do ponto de vista de estoque, fluxo e convergência, mas que há volatilidade no balanço de riscos, que tem sido afetado pelos ruídos derivados da percepção de parte do mercado em relação a alguns programas do governo. "Há um ruído atrelado a vários programas do governo. Tem a percepção de mercado que estão ligados à eleição", disse, citando a intenção de ampliação do Bolsa Família.

Nesse sentido, Campos Neto afirmou que é necessário avançar na mensagem de credibilidade fiscal. "Grande parte das reformas que fizemos não foram apreciadas como deveriam ter sido."

Campos Neto repetiu que as projeções de dívida atuais são similares às realizadas no início do governo, apesar da pandemia de covid-19.

O presidente do BC também rebateu novamente as críticas de que a melhora fiscal deve-se apenas à inflação, afirmando que há outros fatores influenciando também o resultado fiscal.

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Thaís Barcellos e Eduardo Rodrigues