Publicado 10 de Setembro de 2021 - 8h46

Por especial para o Estadão

Por Mariane Morisawa

Por mais triste que esteja sendo a pandemia, para Bárbara Paz foi um período de muita criatividade. "Eu não tive medo de criar na solidão, nem de falar sobre ela", disse a atriz e diretora em entrevista ao Estadão, por videoconferência.

O curta-metragem Ato, seu segundo filme como cineasta, nasceu logo no começo do isolamento, quando quase todo mundo estava em casa. Paz foi convidada para participar de um workshop com o diretor Matías Umpierrez no festival Teatro em Movimento, da Rubim Produções de Minas Gerais. Dali saíram três projetos, entre os quais o curta, que chegou longe: ele é exibido fora de competição hoje, na seção Horizontes do 78º Festival de Veneza, que se encerra amanhã. "É uma honra, porque não tinha essa pretensão", disse a diretora, premiada no mesmo festival dois anos atrás pelo documentário Babenco - Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou.

Bárbara Paz faz há anos uma investigação sobre a solidão, incluindo o roteiro de um longa-metragem sobre uma mulher que cobra para dar afeto, para dormir junto, abraçar, sem sexo. "Esse serviço existe, e essas pessoas ajudam outras a atravessar a vida de forma menos solitária", disse ela. "É como se fosse Ela, de Spike Jonze, só que, em vez de comprar uma máquina, você 'compra' um humano para ter ao lado."

Essa exploração da solidão vem de uma inquietação pessoal. "Acredito que tudo parte da gente. Essa minha pesquisa existe muito antes da pandemia. Eu me criei muito sozinha, estive bastante sozinha na minha vida. E trabalhei sem saber a solidão e a morte, tão presentes na minha vida. Acabei entendendo que eu podia falar tanto da partida quanto da solidão de uma forma bonita."

Quando surgiu a oportunidade de fazer um curta, não havia outro tema possível para a cineasta. Ela pensou: por que não um prelúdio do longa? Afinal, com a covid-19, a solidão e a perda se tornaram assuntos inevitáveis. "O mundo inteiro estava com isso na cabeça. Queria falar disso porque eu entendo, sei o que é. Então o filme parte da minha solidão para a solidão do mundo." Com mais 15 pessoas, ela se isolou em um hotel em Ouro Preto e fez o que descreve como um pequeno ato, um estado, um respiro. "É um filme que caminha mais para a experimentação da linguagem, para a sensação." O curta praticamente abdica das palavras para mostrar Ava (Alessandra Maestrini) ajudando Dante (Eduardo Moreira) a fazer sua travessia. Quando se faz presente, o grito sai em forma de canto.

A cineasta conversou com o Estadão de Veneza, onde está desde a abertura do festival, no dia 1º, em que causou sensação no tapete vermelho com um figurino composto por uma máscara acoplada a uma mochila carregando uma pequena mata. "Eu queria trazer um pedaço da Amazônia em mim. Mas estão embutidas muitas coisas nessa imagem, não só a Amazônia em si: o que a gente está vivendo no nosso país, o absurdo do que está acontecendo com nosso audiovisual, com a nossa cultura. O Brasil perdeu muita gente. A roupa fala do respiro de que todo ser humano necessita e de que o brasileiro está sentindo falta", disse, emocionando-se. "Foi um momento muito forte."

Como todos, ela não tem certeza de como vai ser quando a covid-19 acabar, ou pelo menos deixar de ser uma ameaça tão grande. A internet já vinha aproximando as pessoas, mas afastando os corpos, um tema que está no longa-metragem que prepara. "As pessoas não sabem ainda como agir quando se juntam, porque estamos em susto ainda. Vai demorar um tempo para voltar. E talvez não volte." Mas, a julgar pela atmosfera no Festival de Veneza desta vez, há esperança de que o desejo de calor humano supere os hábitos adquiridos no distanciamento social. "A quantidade de filmes e de celebridades que vieram é uma coisa absurda. As pessoas estavam precisando de encontro, de abraço, de sorriso. Está sendo meio emocionante. Todo mundo está em uma vibe de festa e de celebração do cinema."

É um orgulho retornar ao festival depois do prêmio recebido com Babenco, eleito o melhor documentário da seção Venice Classics, e representar o cinema brasileiro junto com Deserto Particular, de Aly Muritiba, 7 Prisioneiros, de Alexandre Moratto, e Salamandra, de Alex Carvalho, além de Lavrynthos, filme de realidade virtual de Fabito Rychter e Amir Admoni. "Para mim é superemocionante voltar aqui, depois de ter recebido esse aval do festival. É uma confiança no meu olhar, como se dissesse que minha estrada está certa", afirmou ela, que vê seu lado atriz ficando em segundo plano. "A atriz vai viver em mim sempre, mas cada vez mais eu vou lutar e batalhar para fazer o meu cinema."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

especial para o Estadão Mariane Morisawa