Publicado 06 de Setembro de 2021 - 17h11

Por Marcio Dolzan

Por enviado especial. Colaborou Wilson Tosta

O ex-garçom Glaidson Acácio dos Santos, fundador da GAS Consultoria Bitcoin, é conhecido como "faraó dos bitcoins". Suspeito de operar um esquema de pirâmide financeira com criptomoedas, ele foi preso no mês passado pela Polícia Federal, acusado de crimes como gestão fraudulenta de instituição financeira clandestina, emissão ilegal de valores mobiliários sem registro prévio, organização criminosa e lavagem de capitais. Sua detenção jogou nos holofotes a cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, no Rio, que ganhou agora a alcunha de "Novo Egito" - referência às várias empresas suspeitas de esquemas de pirâmide.

Esse ambiente de "corrida ao tesouro" na cidade, por motivos que ainda não se sabe explicar, já teve consequências graves. No início de agosto, Wesley Pessano Santarém, um youtuber de 19 anos que dava conselhos financeiros nas redes sociais e também era sócio de uma empresa que atuava no mercado cabo-friense de criptomoedas, foi morto a tiros.

Ao ser baleado, estava na cidade vizinha de São Pedro d'Aldeia em um Porsche conversível vermelho. O carro importado foi abordado por outro veículo, do qual foi alvejado. Três suspeitos foram posteriormente presos.

Houve pelo menos outros dois casos semelhantes. Em um deles, o dono de uma empresa de investimentos foi ferido à bala, também em um carro de luxo. E em junho um dos sócios da empresa BW estava em um automóvel que também foi alvejado por criminosos. Como o veículo é blindado, escapou sem ferimentos.

Mas, no caso de Glaidson, apesar dos indícios de crime, há na cidade uma onda de simpatia. Nas ruas, ouve-se elogios ao empresário e comentários de que "70% da cidade investe com o Glaidson". Ninguém sabe de onde vem essa estatística ou se é verdadeira. A Prefeitura de Cabo Frio informou em nota não ter "dados ou informações a respeito das operações da empresa em questão".

Essa "simpatia" vem do fato de que os pagamentos generosos - algo como 10% ao mês - prometidos pela empresa continuaram a ser feitos mesmo após a prisão.

"Tenho dois contratos com o Glaidson, que fiz no ano passado. Era para eu receber minha parcela amanhã (sexta-feira passada), mas o dinheiro entrou na minha conta ontem (quarta-feira) mesmo", disse um mecânico de automóveis, que pediu para não ser identificado. Assim que a reportagem se apresentou e explicou que buscava informações sobre a GAS, o próprio mecânico comentou: "Pirâmide financeira, né?"

Foi essa suspeita que rendeu a Glaidson - que até 2013 era garçom em Armação dos Búzios - o apelido de "Faraó". Ao ser preso pela PF na Operação Kryptos, ele tinha em casa R$ 15 milhões em dinheiro vivo e o equivalente a R$ 150 milhões em bitcoins.

Defesa

A defesa do empresário nega que Glaidson tenha cometido algum delito. Diz ainda que "ganhar dinheiro e ter em casa não é crime". Antes de ser preso, incomodado com notícias sobre as empresas suspeitas de pirâmides, Glaidson divulgou vídeo no qual negou envolvimento em irregularidades.

"Venho esclarecer, em primeiro lugar, que a nossa empresa não pactua (sic) com pirâmide financeira", diz o empresário. No mesmo vídeo, ele admite que em Cabo Frio há "inúmeras" empresas que recorreriam a essa prática, que "é crime contra a economia popular".

E prosseguiu na explicação com tropeços no idioma: "A nossa empresa não é empresa de investimento. A GAS Consultoria é uma empresa aonde as pessoas terceiriza a equipe de trade de criptoativo. Nós estamos nesse mercado há nove anos, respirando esse mercado."

Depois da prisão de Glaidson, houve passeatas exigindo a libertação do empresário. Ocorreram também manifestações em apoio a ele nas redes sociais. Nos dois casos, os envolvidos seriam investidores que não se sentiram lesados nas pirâmides.

Em Cabo Frio, muitos pensam da mesma forma que os manifestantes. "Eu não investi com ele porque não tenho dinheiro, mas se tivesse certamente teria colocado", afirmou um homem na casa dos 50 anos, que se disse servidor público aposentado. "Tenho um amigo que tinha duas ou três revendas de automóveis. Ele vendeu todos os carros e colocou o dinheiro lá no Glaidson. Hoje está milionário!", assegurou.

Indagado se era possível entrar em contato com esse investidor, ele disse que se tratava de alguém "muito ocupado e difícil de localizar".

O mecânico ouvido pelo jornal O Estado de S. Paulo não ficou milionário, mas disse que está tendo bom retorno sobre os R$ 5 mil investidos. "Como eu fiz meus contratos no ano passado, eu já recuperei todo o dinheiro. Por isso não estou preocupado com o prisão do Glaidson", comentou. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Marcio Dolzan enviado especial. Colaborou Wilson Tosta