Publicado 21 de Agosto de 2021 - 8h05

Por Beatriz Bulla

Por correspondente

"Secretário Blinken, como o presidente Joe Biden entendeu isso tão mal?", perguntou o âncora da CNN americana, Jake Tapper, ao secretário de Estado americano neste domingo, 15, ao abrir uma entrevista sobre a tomada de Cabul pelo Taleban. O apresentador deixou clara a percepção geral no país - e na equipe de Biden - conforme os acontecimentos no Afeganistão se acumulavam: as coisas saíram do controle antes do imaginado.

Ao longo do domingo, nos bastidores e publicamente, autoridades americanas defenderam a retirada dos soldados, mas disseram ter havido um erro de cálculo. A expectativa do governo americano era de que o Taleban levasse meses até conseguir tomar Cabul, após a retirada das tropas. "Aconteceu mais rapidamente do que esperávamos", disse Antony Blinken na televisão.

Da casa de campo presidencial em Camp David, Biden participou de uma teleconferência com a vice, Kamala Harris, Blinken e seu time de segurança nacional. Em férias de verão, ele não alterou os planos de voltar antes de quarta-feira à Casa Branca até o momento. Também não fez pronunciamentos públicos e nem deu entrevistas. Coube ao Departamento de Estado a tarefa de explicar publicamente o posicionamento do governo.

A Casa Branca divulgou uma fotografia do democrata, de camisa polo, em sua sala de controle diante das telas através das quais falou com sua equipe. Mas a imagem que rodou o mundo foi justamente a que Biden prometeu que não se repetiria: a de soldados americanos evacuados do Afeganistão pelo telhado da embaixada, em avião militar. A imagem rapidamente foi associada à de Saigon, no Vietnã.

"Isso não é Saigon", rebateu Blinken, ao vivo na televisão. "Fomos ao Afeganistão há 20 anos com uma missão, e essa missão era lidar com as pessoas que nos atacaram em 11 de setembro (de 2001). E nós tivemos sucesso nessa missão", disse o secretário de Estado.

O atoleiro afegão

O recém lançado livro The Afghanistan Papers: A Secret History of the War, do jornalista investigativo Craig Whitlock revela que os americanos sabiam que a manutenção do governo afegão era insustentável. Todos sabiam que era uma questão de tempo, mas o governo democrata apostava que esse tempo tardaria mais a chegar.

Funcionários do governo americano, respondendo a críticas sobre a retirada rápida do Afeganistão, afirmavam que os militares afegãos superam o Taleban, com cerca de 300.000 soldados para 75.000. "Eles têm uma força aérea, uma força aérea capaz", algo que o Taleban não tem, disse John F. Kirby, o secretário de imprensa do Pentágono, na sexta-feira. "Eles têm equipamentos modernos. Eles se beneficiam do treinamento que oferecemos nos últimos 20 anos. É hora de usar essas vantagens."

No fim de junho, os relatórios da inteligência americana estimavam que o governo afegão se segurasse no poder por algo entre seis e 12 meses após a retirada completa dos soldados americanos, prevista para 31 de agosto. O prazo veio sendo encurtado, mas dias antes do estopim deste domingo os americanos ainda apostaram em uma manutenção do governo de Ashraf Ghani por alguns "meses". A quinze dias do prazo final para saída das tropas, Ghani deixou o país.

O argumento de Blinken à CNN, ao qual o governo Biden se apega, é o de que é errada a ideia de que manter as tropas no país seria o suficiente para evitar que o Taleban retomasse o controle do Afeganistão. A retirada dos soldados tem raro apoio bipartidário nos EUA, com maioria de eleitores democratas e republicanos a favor do fim da guerra que já dura 20 anos.

O colapso do governo afegão mais rápido do que o esperado, com o consequente uso de militares para a retirada imediata de pessoal americano e a tomada de Cabul pelo Taleban coloca em xeque não só a decisão de retirar as tropas, mas a estratégia usada pelo governo Biden. "Todo mundo viu isso se aproximando, menos o presidente", criticou o líder republicano no Senado, Mitch McConnell. Parlamentares democratas também pressionaram Blinken e outras autoridades do governo Biden, ao serem atualizados sobre a situação pelo telefone.

No sábado, Biden culpou Donald Trump por ter assinado um acordo com o Taleban no qual se comprometeu com a retirada das tropas ainda neste ano. O acerto do antecessor com o grupo extremista, segundo Biden, colocou o Taleban na "posição militar mais forte desde 2001". Ele disse: "Eu herdei um acordo feito por meu antecessor" que "deixou o Taleban na posição mais forte militarmente desde 2001 e impôs um prazo de 1 de maio de 2021 às forças dos EUA".

O presidente submergiu em Camp David enquanto as manchetes do mundo estamparam a volta do Taleban e seu governo é apontado por críticos como culpado pela queda do governo afegão. Ao longo da semana, conforme o Taleban avançava no país, ele disse que não se arrependia de sua decisão: "Mais um ano, ou mais cinco anos, de presença militar dos Estados Unidos não teria feito diferença."

O democrata - e a Casa Branca - lembram a todo o tempo da responsabilidade compartilhada entre os dois partidos dos EUA pelos 20 anos de guerra. "Fui o quarto presidente a presidir uma presença de tropas americanas no Afeganistão - dois republicanos e dois democratas. Eu não iria, e não irei, passar esta guerra para um quinto", escreveu Biden, um dia antes da tomada de Cabul. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Beatriz Bulla correspondente