Publicado 18 de Agosto de 2021 - 16h54

Por especial para o Estadão

Por Mariane Morisawa

Desde o sucesso de Big Little Lies, que estreou em fevereiro de 2017, muitas séries de televisão tentaram ser a próxima Big Little Lies, ou seja, um pacote de mistérios com dramas familiares e pessoais de personagens em geral abastadas e um elenco estelar. Por exemplo, The Undoing, que foi ao ar na mesma HBO, escrita pelo mesmo David E. Kelley, e estrelada e produzida pela mesma Nicole Kidman. Na sexta, 20, chega Nove Desconhecidos, mais uma vez escrita por Kelley, agora em parceria com John-Henry Butterworth, e estrelada e produzida por Nicole Kidman. Como Big Little Lies, é baseada em um romance de Liane Moriarty. A diferença é que, em vez da HBO, Nove Desconhecidos estreia no Amazon Prime Vídeo.

"Fale a verdade, Nicole, você fica me implorando para trabalharmos juntos porque sua carreira não está decolando", provocou Kelley recentemente, em um evento da Associação de Críticos de Televisão, realizado virtualmente. "Mas continue insistindo, um dia acaba dando certo", completou o roteirista. A atriz explicou por que tem se dedicado tanto a minisséries nos últimos anos. "Eu trabalhei sempre em séries dirigidas por uma única pessoa, então eu vejo como uma extensão do cinema. É apenas uma versão mais longa", afirmou Kidman no mesmo evento.

Nove Desconhecidos teve seus oito episódios dirigidos por Jonathan Levine, de Casal Improvável. A atriz começou sua carreira na Austrália fazendo minisséries. "Eu sempre gostei. E Krzysztof Kieslowski fez o Decálogo para a televisão muito antes de qualquer um. Ingmar Bergman dirigiu a minissérie Cenas de um Casamento. A sorte é que agora os escritores e diretores estão mais dispostos do que nunca a trabalhar neste território."

Nicole Kidman apontou que, no entanto, é preciso ter rigor quando se trata de uma série de televisão. "Jane Campion, que é uma grande amiga e fez Top of the Lake, me falou como era difícil manter a narrativa vibrante e viva durante seis ou oito horas. As pessoas se esquecem de que é uma forma de arte em si", disse Kidman. "É bem diferente de um filme, que tem uma hora e meia ou duas para ser intrigante e hipnotizante."

Na nova série, a atriz interpreta Masha, a misteriosa guru de um resort de bem-estar. "Eu criei toda uma história de vida para ela, daí o sotaque russo. Ela fala sete línguas, mesmo que na série isso não apareça", explicou a atriz. Na primeira vez que encontrou os outros integrantes do elenco, apareceu encarnada em Masha. "Eu fiquei na personagem, porque precisava permanecer em um espaço de calma e energia curadora emanando. Se alguém me chamasse de Nicole, eu ignorava. Mas foi a única maneira que eu consegui me relacionar com os outros, porque de outra maneira eu me sentiria fazendo uma performance, e eu não queria isso." Para cada um dos atores com quem contracenava, Kidman criou um espaço de atuação diferente. "Então foi uma existência estranha durante aqueles cinco meses."

Masha também usa métodos pouco convencionais - como fazer com que seus pacientes se deitem em uma cova, por exemplo - para ajudar os nove desconhecidos do título. Nem sempre os tratamentos em spas e retiros de bem-estar são tranquilos. Cada um dos desconhecidos chega com seu pacote de problemas, traumas, questões e segredos. Há a escritora Francis (Melissa McCarthy), que vê sua carreira em risco, a recém-divorciada Carmel (Regina Hall), o ex-atleta Tony (Bobby Cannavale), o casal em crise formado pela influencer Jessica (Samara Weaving) e Ben (Melvin Gregg), o jornalista Lars (Luke Evans) e a família composta pelo professor Napoleon (Michael Shannon), sua mulher Heather (Asher Keddie) e a filha Zoe (Grace Van Patten). Ninguém está ali por acaso. Os grupos são formados muito conscientemente, e Masha controla tudo por câmeras de segurança. Não deixa de ser não muito diferente de um Big Brother Brasil.

A série se passa no norte da Califórnia, mas foi rodada em plena pandemia, sob rígido controle, na Austrália, em uma "bolha" criada em Byron Bay. "Era um ambiente mágico e acredito que isso nos ajudou", disse Kidman. "Foi como permanecer em um estado de sonho naqueles quase seis meses. Como estávamos no meio da pandemia, vindos de lugares diferentes, quando chegamos, imediatamente formamos laços fortes." Foi uma experiência bem diferente do que costuma ter em Hollywood, com gente chegando e indo embora o tempo todo. Trabalhar assim foi ideal em uma série sobre pessoas isoladas, explorando emoções difíceis.

Questões

No primeiro encontro com Masha, Francis diz que não quer sofrer. A resposta é: "Você já está sofrendo". "A série discute o que cada um faria para se livrar da dor", disse Kidman à Associated Press. "Ela mergulha em questões existenciais, como o que é a realidade, em que espaço decidimos existir, se é possível alterar isso, se há uma outra realidade, melhor, que podemos acessar." Entre as questões abordadas estão o vício, a influência nefasta das redes sociais, supressão da emoção, síndrome do impostor e luto.

Nicole Kidman contou ao jornal The Sydney Morning Herald que teve de domar sua tentativa de controlar o que acontece. "Algumas vezes na vida a gente percebe que não tem controle. E eu gosto de lidar com essas coisas no meu trabalho porque elas são muito verdadeiras para mim." Para Melissa McCarthy, a série fez pensar muito sobre o quanto estamos dispostos a acobertar nossos problemas. "E isso não faz com que sumam. Não adianta evitá-los, isso não torna a situação melhor. Então, se você já está triste e sofrendo, promova uma mudança."

Nove Desconhecidos chega em um momento em que a discussão sobre saúde mental está na pauta, seja por conta da pandemia ou das atitudes de atletas como Naomi Osaka e Simone Biles, que privilegiaram seu bem-estar em vez de competições e falaram abertamente sobre suas dificuldades. "Acho que este último ano e meio nos deu oportunidades maravilhosas de reflexão e de absorver o que estávamos fazendo antes", disse Regina Hall à AP. "Essa pausa permitiu que as pessoas vissem que tudo bem ser sincero sobre seus sentimentos e é OK não estar OK."

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especial para o Estadão Mariane Morisawa