Publicado 18 de Agosto de 2021 - 7h49

Por Fernanda Simas

No mesmo modelo das negociações que reuniram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo colombiano, representantes da oposição venezuelana e do presidente Nicolás Maduro iniciam nesta sexta-feira, 13, no México uma nova tentativa de negociação. Analistas e atores políticos, porém, acreditam que o diálogo deve levar, no máximo, ao fortalecimento do chavismo.

Na pauta do encontro estão, como demandas chavistas, o fim das sanções internacionais e do embargo ao petróleo por parte dos EUA. Como demandas da oposição estão um processo eleitoral justo, um calendário com data definida para a eleição presidencial e a libertação de políticos presos.

"A única coisa que pode acontecer é a tirania de Maduro se consolidar um pouco mais, ganhar mais oxigênio e se estabilizar. Em troca disso, os políticos (da oposição) que estarão lá podem ganhar um pouco mais de espaço, uma prefeitura de alguma região de classe média, por exemplo", afirma o professor da Universidade Simón Bolívar Erik del Búfalo.

Um dos motivos do ceticismo é a baixa representatividade da oposição no diálogo. "Não há nenhum político eleito no grupo da oposição. As pessoas que estão ali tiveram seu mandato vencido há cerca de um ano. O próprio Juan Guaidó está há cerca de oito meses sem cargo público. Além disso, não há alguém com alta popularidade. O que sustenta quem está ali é o reconhecimento de alguns atores externos", diz Del Búfalo.

Guaidó, do partido Voluntad Popular, que se declarou presidente em 2019 após se tornar o presidente da Assembleia Nacional e recebeu o reconhecimento de cerca de 50 países, agora busca novas formas de recuperar a confiança dos venezuelanos em seu plano de mudança. Em entrevista ao Estadão, em julho, ele disse que o diálogo seria uma forma de o governo ganhar confiança de investidores". Procurado, ele não fez novos comentários sobre a negociação que começa hoje.

Do lado opositor estarão no encontro mediado pela Noruega representantes do chamado G4, quatro partidos da fragmentada oposição: Ação Democrática, Primero Justicia, Voluntad Popular e Um Novo Tempo. "Sabendo que o regime é narcoterrorista e ilegítimo, como a oposição senta e conversa com ele? Por isso não apoiamos isso e tanta gente dentro da Venezuela também não acredita no processo", diz o ex-tenente venezuelano José Antonio Colina, que vive exilado nos EUA.

O líder opositor Henrique Capriles (Primero Justicia), candidato presidencial derrotado duas vezes, contrariando Guaidó, afirmou que pretende participar das eleições regionais de 11 de novembro e pede que a população saia para votar. "Não podemos renunciar ao uso desse direito. Vou votar no dia 21 de novembro, é uma decisão que tenho mais do que clara", disse.

Enquanto apenas parte da oposição está representada no México, o chavismo chega em um momento de forte crise econômica. São oito anos consecutivos de recessão e uma redução de 80% do PIB desde 2014 - mesmo assim, Maduro manteve o controle institucional.

"No passado, o processo de paz beneficiou o regime e agora não será diferente", disse Colina, acrescentando que a mudança está longe de ocorrer. "Essa tirania não deixa o poder por meio do diálogo. Ela só acaba com um esquema de forças sustentado desde dentro da Venezuela, com apoio externo."

Segundo Del Bufalo, o chavismo não tem nenhum incentivo para fazer eleições livres. "As próprias eleições internas de seu partido (PSUV) foram boicotadas, porque muitos candidatos que ganharam não estavam alinhados com o que diz a cúpula do partido."

Para o Cepaz, ONG que defende os direitos humanos na Venezuela, o diálogo é bem-vindo desde que não se torne um campo para discussão político-partidária. "Esses espaços precisam estar ligados às necessidades das pessoas e ao sofrimento do povo venezuelano. Não pode se tornar apenas uma discussão política eleitoral. É preciso ter resoluções imediatas para os temas humanitários, da vacinação, dos alimentos e restituição de direitos políticos e civis", afirma a diretora do Cepaz, Beatriz Borges. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Fernanda Simas