Publicado 10 de Agosto de 2021 - 16h43

Por Estadão Conteúdo

Em sua ofensiva contra territórios dominados pelo governo afegão, o Taleban começa a se aproximar da maior cidade do norte do país, Mazar-i-Sharif. O grupo rebelde avança contra a cidade histórica - pilar de controle do governo na região -, em meio a denúncias da ONU sobre violações de Direitos Humanos nas zonas de combate e tentativas de negociações diplomáticas dos Estados Unidos - que seguem com o plano de retirada de tropas do Afeganistão.

O Taleban avança em um ritmo frenético e domina cinco das nove capitais provinciais do norte. No sul, controlam Zaranj, a 6ª das 34 capitais provinciais afegãs sob seu poder. Se conquistar Mazar-i-Sharif, o grupo rebelde terá sob seu domínio um grande centro comercial e uma zona habitualmente opositora - onde os insurgentes encontraram a resistência mais intensa durante sua ascensão ao poder nos anos 1990, inclusive durante seu regime (1996-2001), quando adotaram uma versão extremamente rigorosa da lei islâmica.

Ataques no entorno da cidade foram registrados durante a madrugada. Em Aibak, capital da província de Samangan, na estrada principal entre Mazar-i-Sharif e Cabul, os combatentes do Taleban estavam consolidando seu controle, movendo-se para prédios do governo, disseram os residentes. A maioria das forças de segurança do governo parecia ter se retirado.

Os combatentes se intensificaram nesta terça-feira, 10, quando civis se esconderam em suas casas e um comandante pró-governo prometeu lutar até a morte para defender a cidade. Em Cabul, o presidente Ashraf Ghani tenta conquistar o apoio de milícias regionais, com as quais brigou ao longo dos anos, para se unirem em defesa de seu governo. Ele também apelou aos civis para defenderem o "tecido democrático" do país.

"A única maneira é se autoimpor uma prisão domiciliar ou encontrar uma maneira de partir para Cabul", disse Sher Mohamed Abbas, um fiscal da província de Samangan, quando questionado sobre a vida em Aibak. "Mas mesmo Cabul não é mais uma opção segura", disse.

Além de Mazar-i-Sharif, o Taleban também iniciou ofensivas em Pul-e-Khomri e Faizabad, outras duas capitais de província no norte do país, região que, durante anos, foi a parte mais pacífica do país, com uma presença mínima do grupo. De acordo com o Ministério afegão da Defesa, os rebeldes foram repelidos até o momento.

A Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, cobrou que as diferentes partes do conflito no Afeganistão cessem o combate e, especialmente o Taleban, freie suas operações militares, alegando que informações sobre violações que "podem se assimilar a crimes de guerra e crimes contra a humanidade" continuam a surgir.

"As partes do conflito devem deixar de lutar para evitar um maior derramamento de sangue. Os Taleban devem por fim às operações militares nas cidades. A menos que todas as partes regressem à mesa de negociações e alcancem uma solução pacífica, a situação já atroz para tantos afegãos só vai piorar", escreveu em um comunicado.

Ainda de acordo com a comissária, desde 9 de julho, apenas nas cidades de Lashkar Gah, Kandahar, Herat y Kunduz - onde confrontos mais severos ocorreram -, pelo menos 183 civis morreram e 1.181 ficaram feridos, inclusive crianças. Cerca de 241 mil pessoas estariam desabrigadas.

EUA

Após as vitórias militares do Taleban, o governo dos Estados Unidos ativou sua diplomacia, com uma reunião de seu enviado Zalmay Khalilzad nesta terça-feira em Doha, no Catar. Além dos americanos e do país-sede, participaram presentes representantes de China, Reino Unido, Paquistão, Uzbequistão, ONU e União Europeia.

Khalilzad declarou que nenhum governo que chegar ao poder pela força no Afeganistão será reconhecido internacionalmente. O enviado também afirmou que não há razão para o grupo buscar uma vitória militar ou uma tomada da capital, Cabul, pois isso apenas garantiria ao país e ao novo governo o papel de pária internacional.

Desde setembro do ano passado, Doha serve de sede para negociações entre o governo afegão e o Taleban. Esta tentativa de diálogo foi estabelecida no acordo de paz assinado em fevereiro de 2020 entre os insurgentes e o governo americano, o qual previa a retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão.

A retirada das forças internacionais foi decidida pelo então presidente Donald Trump. Seu sucessor, Joe Biden, adiou a saída em alguns meses, mas as forças americanas e estrangeiras devem pôr fim a duas décadas de sua ostensiva presença no território até o fim de agosto.

Nas últimas semanas, o governo Biden deixou claro que a linha de comando não mudará: Washington manterá o apoio a Cabul, mas são os afegãos que deverão decidir seu destino. "Trata-se de defender seu país. É o seu combate", disse o porta-voz do Pentágono, John Kirby. (Com agências internacionais)

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