Publicado 08 de Agosto de 2021 - 11h23

Por Adriana Fernandes

No ano das eleições de 2022, o Tesouro Nacional prevê entrar com reserva de caixa de mais de R$ 1 trilhão, recurso suficiente para pagar todos os títulos da dívida que vencerão ao longo do ano. Esse é o "colchão de liquidez", recurso que o governo tem exclusivamente para o pagamento da dívida e que funciona como uma espécie de seguro para o enfrentamento de instabilidades e movimentos de alta volatilidade dos preços dos principais indicadores do mercado, como juros e dólar.

Nestes momentos, o Tesouro pode botar o pé no freio reduzindo a venda de títulos, como ocorreu na semana passada, quando o mercado sentiu a pressão provocada pelo aumento de incertezas fiscais e ruídos políticos. O Banco Central (BC) também endureceu o processo de alta de juros e elevou em um ponto porcentual a taxa Selic, para 5,25%, para controlar a alta da inflação.

Para o estrategista-chefe da Renascença DTVM, Sérgio Goldenstein, o Tesouro foi bem-sucedido em recompor o colchão de liquidez depois do aperto no ano passado. "Ele tem hoje uma gordura para momentos de volatilidade e poder reduzir suas emissões de títulos, como fez na semana passada, reduzindo drasticamente a venda de títulos", avalia Goldenstein, que já foi chefe do Departamento de Mercado Aberto (Demab) do BC e especialista nessa área.

Segundo Goldenstein, o mercado vem subindo ao longo dos últimos dias com uma combinação de fatores que tem levado à alta dos juros futuros. Entre esses fatores estão a surpresa negativa com a inflação corrente mais alta, aumento dos núcleos e dos preços de serviços. Entrou mais fortemente no radar e nos preços o impacto do aumento do receio com o quadro fiscal e deterioração do quadro político-institucional.

A discussão de uma nova proposta para parcelar pagamentos de precatórios e a movimentação de líderes do governo para tirar essa despesa do teto de gastos (a regra que proíbe que as despesas cresçam em ritmo superior à inflação) levaram à volatilidade de preços.

Outro fator que preocupa os investidores é o risco de aumento de gastos em ano de eleição. "O somatório desses fatores levou a um deslocamento muito forte para cima da curva de juros e isso gerou movimentos de "stop-loss" (contenção de perdas)", explica Goldenstein.

O especialista aponta risco de piora na situação se houver furo no teto para acomodar os precatórios, valores devidos pela União após sentença definitiva na Justiça. O movimento foi mais intenso na chamada "barriga da curva", mostrando que investidores passaram a ver mais chances de a elevação da Selic ser mais forte.

Máxima histórica

O colchão de liquidez está atualmente em R$ 1,17 trilhão, na máxima histórica depois de ter caído fortemente no ano passado, quando a pandemia elevou os gastos do governo em R$ 600 bilhões para o financiamento das políticas de enfrentamento do novo coronavírus e o governo passou a vender títulos de curtíssimo prazo, elevando os vencimentos em 2021. No fim do ano passado e no primeiro semestre de 2021, o Tesouro foi reforçando o caixa com a venda maior de títulos e a melhora do quadro fiscal.

Desde junho do ano passado, o colchão teve alta superior a 70%, chegando a um patamar que faz frente aos vencimentos de R$ 1,18 trilhão nos próximos 12 meses. O repasse de R$ 325 bilhões do lucro do BC com a variação cambial foi essencial para esse reforço no caixa.

No passado, o governo trabalhava com um colchão de três, quatro e seis meses. Agora passou para 12 meses. Essa reserva começou a ser forçada em 1998, após a crise da Rússia, depois de períodos de sufoco do governo para refinanciar sua dívida. Em 1997, na crise da Ásia, o caixa era praticamente zero.

"É um patamar elevado que nos dá bastante conforto do ponto de vista da estratégia e redução dos leilões em momentos de volatilidade", diz o subsecretário da dívida, Otavio Ladeira de Medeiros (ler mais na entrevista abaixo). Segundo ele, mesmo com dois fortes vencimentos de títulos em setembro e outubro, a estratégia montada é chegar em 2022 com recursos suficientes para as contas.

"Ainda que o colchão diminua marginalmente, acreditamos que chegaremos ao final do ano com caixa superior a R$ 1 trilhão de tal forma que tenhamos pela frente um horizonte bastante tranquilo", explica Ladeira.

Retrato atual. A fotografia hoje da dívida do Tesouro em títulos (internos e externos) aponta uma parcela de 35% atrelada à taxa Selic, as LFTs, e 27% de títulos vinculados à variação da inflação, as NTN-Bs. Um terço dos papéis é prefixado, com taxa de juros definida na hora do leilão e, portanto, de maior risco para os investidores.

Quando a taxa Selic aumenta, o estoque da dívida também sobe. A última alta de 1 ponto porcentual da Selic vai aumentar em R$ 30,8 bilhões a dívida bruta do governo, sendo R$ 18,7 bilhões em títulos que estão no mercado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Adriana Fernandes