Publicado 06 de Agosto de 2021 - 17h08

Por Pedro Venceslau

Por Fernando Scheller

Por Cristiane Barbieri

Por Karla Spotorno

Por Altamiro Silva Junior e Eduardo Kattah

O manifesto que conectou boa parte da elite da sociedade civil em defesa do sistema eleitoral brasileiro teve como objetivo claro dar um basta às constantes ameaças do presidente Jair Bolsonaro à democracia e seus pilares. Na visão dos próprios signatários, esta e outras conclusões podem ser tiradas da contundente mensagem: indica que, para além das diferenças políticas e disputas eleitorais, os segmentos sociais representados no texto estarão unidos quando os princípios constitucionais estiverem sob risco; além disso, a rápida adesão e o fato de pesos pesados dos ambientes empresarial e financeiro terem assinado o comunicado explicitam a perda de apoio de Bolsonaro em setores importantes.

Lançado na mesma semana em que o Judiciário deu respostas duras às declarações do presidente, o manifesto reuniu empresários, banqueiros, economistas, diplomatas, juristas e diversos outros representantes da sociedade civil. Conforme organizadores, após a publicação em jornais, até o fim da tarde de ontem mais de seis mil pessoas haviam apoiado o documento no site do movimento Eleição se Respeita.

"A democracia é um dos pilares fundamentais da sociedade brasileira. E a eleição é a base da nossa democracia; logo, ela precisa ser garantida. O direito ao voto é igualitário a toda a população e cabe à população fazer sua escolha, seja boa ou ruim. Me parece que a questão da eleição virou uma forma de tergiversação em relação aos problemas reais de nossa sociedade, que são o meio ambiente, a educação e as reformas estruturais, como a tributária e a política", disse o presidente da Suzano, Walter Schalka.

Em março, empresários e banqueiros já haviam aderido a uma carta que cobrava o governo federal por medidas efetivas de combate à pandemia. O manifesto pró-eleições e em defesa da Justiça Eleitoral, porém, representou uma mudança de postura, de acordo com Fábio Barbosa, ex-presidente do Santander e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban): "O sistema é confiável, e não há razão para duvidar da legitimidade das eleições que aconteceram. Vamos ficar quietos assistindo a isso aqui ou vamos participar e colocar nosso ponto de vista?".

O movimento começou com cerca de 30 pessoas ligadas ao Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP) e tomou corpo em 24 horas. "(O manifesto) tem um impacto por ser uma manifestação de empresários que normalmente não se manifestam e evitam entrar em discussões políticas", avaliou Barbosa.

"O meio empresarial se omitiu durante muito tempo", disse Schalka. "E isso é reflexo da forte presença do Estado da economia, que está ao redor de 40%. Então existe receio de falar, um medo de retaliação. Mas eu tomei a decisão de falar. Porque, quando nos calamos, ficamos mais expostos à situação de deterioração (do País)."

"O Brasil é um País pródigo em regulações e legislações, e o empresariado pode ter muito trabalho se quem está no poder quiser perturbar. É compreensível a demora", completou Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu de Consumo Consciente e um dos fundadores da rede de lanchonetes America. "À medida que o presidente faz um acordo com os outros poderes para reduzir os ataques institucionais e, poucas semanas depois, o desrespeita, os riscos à democracia crescem", destacou Mattar.

Para o presidente do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira, que também assinou o documento, constata-se a escalada de uma "crise institucional" , que pode minar ainda mais a imagem do País no exterior. "Estamos vendo ameaças ao estado democrático de direito. O que conquistamos de mais valioso enquanto nação é a nossa reputação de um país com instituições fortes, onde se pode investir, onde a regra do jogo é cumprida, onde não há instabilidade institucional", afirmou. "Se colocarmos isso a risco, cai o prédio. Não podemos brincar com as fundações do prédio. Se você brinca com as fundações, você sabe o destino do prédio, desmorona."

A piora do ambiente político tem consequências diretas na atividade econômica, alerta a executiva Maria Silvia Bastos Marques, que já presidiu o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômicos e Social (BNDES) e atuou por anos no setor privado, incluindo o comando do banco americano Goldman Sachs no Brasil e da Icatu Seguros. "A economia é feita de expectativas. Se você tiver um cenário previsível, se tiver um ambiente de estabilidade, isso contribui muito para a tomada de decisões, para os investimentos de médio e longo prazos."

No Brasil, ao contrário, o ambiente tem sido de crescentes ruídos políticos, além da pandemia e de indicadores econômicos que estão piorando, como inflação e juros em alta. "Você tem vários elementos que não contribuem para um ambiente desejável para a tomada de decisão e para novos investimentos", disse Maria Silvia, para quem a classe empresarial e de executivos do Brasil está ficando mais engajada. "Participo de alguns grupos de discussão do momento do País, do futuro do País e foi onde tomei conhecimento deste manifesto. Chega um momento que é muito importante se manifestar, falar."

José Olympio entende que é preciso usar as energias para avançar uma agenda positiva. "Temos tanta coisa ainda a fazer, vamos acabar com a radicalização, com o confronto. "Houve avanços importantes na agenda nos últimos anos, como a reforma da Previdência, o marco do saneamento, e agora a privatização da Eletrobras começa a ganhar corpo, e a dos Correios entrou na agenda. Temos uma reforma administrativa que eu adoraria ver ser implementada."

'Diversidade'

Economistas como o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga destacam a "diversidade" do manifesto. "Não há substituto para o engajamento das pessoas", afirmou. "Temos hoje bem consolidado a ideia de que as democracias vão sendo comidas pelas beiras, e é importante que haja um posicionamento mais amplo possível."

Sócio da Mauá Capital e ex-diretor do BC, Luiz Fernando Figueiredo aponta o sinal de "alerta" da sociedade civil. "Nossa democracia é forte", disse. "Quando estava no poder, o PT tentou centralizar (com mecanismos para controlar) a imprensa e não conseguiu. O Congresso não aprovou", disse Figueiredo. Na mesma linha, Carlos Ari Sundfeld, professor de Direito Administrativo da FGV-SP avalia que o recado dado é claro: "A Justiça Eleitoral tem o total apoio dos democratas do País. Existe uma mobilização da sociedade para apoiar a estrutura do Estado que existe para punir abusadores. Se não fica parecendo aos eventuais oportunistas de plantão que o caminho está livre, e não está." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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