Publicado 06 de Agosto de 2021 - 9h08

Por Luiz Carlos Merten

Por especial para o Estadão

Ana Maria Magalhães tem sido toda trabalho. Retomou um vídeo sobre Leila Diniz para restaurar a versão longa, de 90 min. - foi divulgada na TV só a de 52 min. -, que será lançado no ano que vem, quando se completarão 50 anos da morte da estrela que condensava, em si, "todas as mulheres do mundo". "Tem toda uma geração que não conhece a Leila, e isso é absurdo", reflete.

Ana Maria também quer retomar seu livro autobiográfico. Já tem 400 páginas. O volume terminará em 1970, quando ela, aos 20 anos, interpretou Como Era Gostoso o Meu Francês, o clássico antropofágico de Nelson Pereira dos Santos. Jura que não será "egoico".

O que ela tem tanto a contar sobre seus 20 anos? "Sou filha de político (Sérgio Magalhães) e irmã de atriz (Helena Velasco). Política e arte sempre fizeram parte de minha vida. Meu pai concorreu com Carlos Lacerda ao governo do Rio, e minha irmã foi atriz de Dulcina de Moraes, além de novelas. Tudo isso era parte da minha vida, dos 4 aos 14 anos." Trabalho, trabalho e agora sua expectativa é pelo lançamento de Mangueira em Dois Tempos, seu documentário sobre a verde e rosa. O filme, que estreou na quinta, 5, nos cinemas, é sobre a construção do som da escola, a batida. Em inglês, o título é Mangueira in Two Beats. Samba e funk. O filme seleciona seus personagens entre ritmistas, passistas. Segue um deles até a China, onde o cara tem uma churrascaria animada por autêntico carnaval brasileiro.

"Não fui até lá porque seria inviável, muito caro", explica a atriz, que encontrou um amigo do filho e ele seguiu direitinho suas indicações sobre o quê, e como filmar. O filme também utiliza material de arquivo de grandes desfiles na Sapucaí, adquiridos do acervo da Globo. Ana Maria pagou, e caro, mas vale a pena reviver o desfile de 1998, quando a Mangueira foi campeã ao homenagear Chico Buarque de Holanda. Meu guri! Atriz e diretora, Ana tem o que se pode considerar um interesse diversificado. Biografou Odete Lara como ficção, Lara, fez um documentário sobre o arquiteto Carlos Reidy, A Construção da Utopia. Ela própria uma mulher forte - rebelde por natureza -, não escolheu Odete e Leila por acaso. Foram guerreiras - ambas já partiram - como ela. As mulheres da Mangueira também são fortes.

A escola foi a última a admitir mulheres na bateria - Mangueira tradição. Só isso já daria um filme. A presença dos evangélicos nas comunidades daria outro. Lá atrás, Ana Maria já havia feito Mangueira do Amanhã, com crianças, meninas e meninas, que já eram direcionadas para seus papéis na escola e no mundo. Alguns - muitos? - tombaram para o tráfico. Ela retoma agora esses personagens. Tudo mudou, o funk veio para ficar, as mulheres, os evangélicos.

Ana Maria também mudou. "Fiquei mais madura, não apenas como mulher, mas como cineasta. Talvez o público não perceba, mas a montagem do novo filme é muito elaborada. Fiquei dez meses montando o filme. Dois tempos, uma galeria de personagens no passado e no presente, material de arquivo. Foi tudo muito pensado para incorporar as mudanças. O que não mudou é a alegria dessas pessoas, a sua resiliência diante da adversidade."

A própria Ana Maria precisou vencer muitas dificuldades. A falta de dinheiro tem sido companheira em quase tudo o que realiza. Nada a faz desistir. "Já teria parado há muito tempo, se fosse desistir." Por que Bill Clinton no filme, também tocando a bateria? "Achei importante, para destacar o que há de universal na nossa música, na nossa gente." Ana tem uma relação de afeto muito grande com filmes e personagens. "Pertenço a uma geração que queria mudar o mundo. Isso não mudou. Ainda sonho com um mundo melhor, mais humano." O lugar da mulher nesse mundo sempre foi uma preocupação. É muito anterior ao #MeToo. Ana Maria viveu, conviveu, trabalhou com os grandes do Cinema Novo. Nelson, Gustavo Dahl, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Leon Hirszman, etc. Você não precisa ser mangueirense para dançar no ritmo - na batida - dela.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Luiz Carlos Merten especial para o Estadão