Publicado 05 de Agosto de 2021 - 17h09

Por Filipe Serrano

O aumento da taxa básica de juros, a Selic, ocorre em um momento delicado para a economia, que ainda se encontra fragilizada em razão da pandemia e com o desemprego atingindo cerca de 14,8 milhões de brasileiros. Com a proximidade das eleições, dificilmente a taxa de câmbio cairá, podendo aliviar as pressões na inflação, o que deve fazer o Banco Central continuar elevando os juros em 2022. Esta é a avaliação do economista Luís Eduardo Assis, ex-diretor de Política Monetária do Banco Central. Em entrevista, ele afirma que os juros mais altos tendem a prejudicar as famílias mais endividadas, e a falta de um plano econômico do governo prejudica ainda mais a situação. "Estamos à deriva do ponto de vista da economia", diz.

Na avaliação do sr., qual é o impacto da alta da Selic para a economia?

A principal questão é que o Banco Central teve de iniciar um ciclo de elevação dos juros com um desemprego acima de 14%. Isso não acontecia antes. A última vez que começou a subir juros foi em 2013, e o desemprego estava na faixa de 7% ou 8%. Esse é o grande dilema. Tivemos um choque no ano passado absolutamente excepcional. Em geral, existe uma correlação negativa entre preço de commodities e taxa de câmbio. No ano passado, essa correlação não prevaleceu. A elevação do preço das commodities foi muito significativa. E houve também uma desvalorização cambial. O aumento do preço das commodities medido em reais foi de 72%, somando esses dois efeitos. É um choque gigantesco.

Essa inflação tende a persistir?

É o que veremos daqui para frente. Podemos torcer, e só torcer, para que os preços internacionais das commodities caiam. Mas é só uma questão de torcer. E o real, bem ou mal, está em linha com a moeda de outros países emergentes. Acho difícil esperar uma valorização maior, com o dólar abaixo de R$ 5, por exemplo.

Por que não?

Por causa da turbulência política, que está encomendada (com a proximidade das eleições). A gente está numa situação única. Qual é o projeto da política econômica hoje? Qual é o plano? Não existe plano. O único objetivo do governo é evitar o impeachment, conseguir chegar até o fim do mandato e, eventualmente, ser um candidato competitivo. Mas isso não dá espaço para planejar a política econômica. Ao contrário. Abre espaço para o populismo fiscal. A gente vê hoje a tentativa de arrumar subterfúgios no Orçamento para engordar o Bolsa Família e tentar combater a impopularidade. Isso não tem nada a ver com planejamento econômico. Estamos à deriva do ponto de vista da economia.

Nesse ambiente, quais os efeitos dos juros mais altos para o consumo e o governo?

A elevação de juros pega as famílias e setor público mais endividados. A dívida pública subiu mais de R$ 1 trilhão no ano passado. Sem falar no impacto dos juros altos para a desigualdade. A pandemia também serviu para aumentar o fosso entre as pessoas de renda mais alta e das pessoas que ganham menos. Isso terá um impacto duradouro, que vai reverberar pelos próximos anos.

O sr. vê esse ciclo de alta se estendendo no ano que vem?

Vejo. Acho que a alta é maior do que o mercado está precificando. À medida que o setor de serviços retome a demanda, a pressão sobre a inflação de serviços, que representa cerca de 37% do IPCA e hoje está baixa, vai gerar tensão adicional sobre a inflação. A não ser que haja uma valorização do real e uma queda forte das commodities. Mas isso não está no mapa, principalmente o câmbio, com a turbulência política.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Escrito por:

Filipe Serrano