Publicado 05 de Agosto de 2021 - 9h08

Por Maria Fernanda Rodrigues/AE

A escritora Maria Carolina de Jesus, em foto de 8/4/1961 Estadão/Acervo

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A escritora Maria Carolina de Jesus, em foto de 8/4/1961 Estadão/Acervo

A menina que segura a mão da mãe na foto nesta página, tirada há exatos 60 anos, cumpre agora uma das promessas que fez a ela antes de ficar órfã, aos 21 anos: propagar a sua memória, não deixar que se esquecessem dela. E cumpre outra, que fez a si: colocar a mãe em pé de igualdade com todos os grandes escritores brasileiros.

Carolina Maria de Jesus (1914-1977), que teve um sucesso meteórico em vida e também em vida caiu no ostracismo, tem sido redescoberta nos últimos anos, tornou-se leitura obrigatória em vestibular e começa a ser apresentada agora em suas múltiplas facetas: a escritora politizada que expõe a crueza da fome e da vida na favela; a catadora de papel que preferia roupas com bolso para ter sempre consigo um lápis porque escrever, para ela, era urgente e essa urgência poderia surgir a qualquer momento; a autora de romances, contos, poemas, músicas.

Dois livros de Carolina estão nas livrarias brasileiras: Quarto de Despejo, o clássico revelado por Audálio Dantas, que ganhou uma edição comemorativa da Ática este ano, e Diário de Bitita, publicado pela Editora Sesi-SP. Há obras sobre ela também, como a biografia de Tom Farias, pela Malê. Ou inspiradas nela, como Carolinas: A Nova Geração de Escritoras Negras Brasileiras, da Bazar do Tempo, que teve origem na Festa Literária das Periferias (Flup), e Cartas a Uma Negra, da Todavia, em que a antilhana Françoise Egas, empregada na França nos anos 1960, começa a escrever tendo Carolina Maria de Jesus, sobre quem leu nas páginas da Paris Match, como destinatária imaginária. Haverá muito mais.

Em 2020, Vera Eunice de Jesus, a filha de Carolina, vendeu os direitos da obra de sua mãe para a Companhia das Letras (Quarto de Despejo e Diário de Bitita não estão na lista, ainda). A estreia do projeto de edição dos cadernos de Carolina Maria de Jesus será nesta sexta, 6, com o lançamento de Casa de Alvenaria.

Publicada em 1961, Casa de Alvenaria, a 'sequência' de Quarto de Despejo, em que a autora escreve sobre sua vida de ex-favelada, como estava no título, chega um pouco diferente às livrarias. Agora, são dois volumes com recorte temporal - um para o período em que, após deixar Canindé, ela foi morar com os filhos em Osasco, e outro para os tempos em que viveu em Santana.

Outra diferença é que enquanto a edição original trazia uma seleção de trechos dos diários, de 5 de maio de 1960 a 21 de maio de 1961, a edição da Companhia das Letras traz o conteúdo integral, de agosto de 1960 a dezembro de 1963. Tudo feito a partir dos manuscritos originais, doados, com algum arrependimento, por Vera Eunice para Sacramento, cidade natal de Carolina e que finalmente deve criar um museu para ela. Por sorte, eles já estavam digitalizados - mas não transcritos.

Esse é só o começo, e o conselho curador, coordenado pela escritora Conceição Evaristo e por Vera e composto ainda por Amanda Crispim, Fernanda Felisberto, Fernanda Miranda, Raffaella Fernandez e outras quatro pesquisadoras, vai mergulhar no baú da escritora, que deixou cadernos e mais cadernos anotados. A pandemia prejudicou também o acesso a esse acervo, então não se sabe quando sairão outros livros, já que tudo será transcrito, cotejado, estabelecido. A única certeza é de que há muitos inéditos a serem revelados.

"Eu dormi com a minha mãe até os 18 anos e ela escrevia todas as noites. Pedia para eu não me mexer e escrevia em cima do meu corpo. Ainda me lembro do barulho da caneta tinteiro, e fico arrepiada só de falar", comenta Vera Eunice, aos 68 anos, professora de português do Estado aposentada, mas que segue em sala de aula, agora na educação infantil. Companheira inseparável da mãe, que mesmo tendo menos de dois anos de estudo queria que a filha seguisse o magistério, ela lembra que, pequena, a ajudava um pouco com a gramática. Vera, no entanto, pediu que a escrita dela fosse preservada. Assim, essas novas edições mantêm a grafia, a pontuação e as construções verbais e nominais da autora, entendidas pela editora como "ferramentas de construção literária e marcas autorais imprescindíveis para a adequada recepção de sua obra". Alguma atualização ortográfica, porém, foi feita.

A editora Camila Berto, que está à frente do projeto na Companhia das Letras, ressalta que a obra de Carolina é um mundo. "Carolina Maria de Jesus é uma escritora extremamente talentosa, criativa e perspicaz. Seus diários carregam muito dessa multiplicidade dela. E Carolina é encantadora. É impossível ler e não sair mexido e impactado pela obra. É impossível sair ileso."

Vera, personagem frequente nos diários, conta que não gosta muito de relê-los. Foi uma vida muito difícil, com uma pequena trégua de três anos, quando Carolina ganhou algum dinheiro com Quarto de Despejo - e que gastou (também ajudando muita gente, segundo a filha).

"É muito complicado para mim. Queria ler sua obra como leio Machado de Assis, mas não consigo. Começo, paro, me emociono, lembro dela. Agora, como fiz o prefácio de Casa de Alvenaria, voltei a reler e cheguei à conclusão de que minha mãe foi mais infeliz na sala de visita do que no quarto de despejo", conta Vera, empenhada na promessa de manter vivo o legado de sua mãe e de colocá-la, como ela diz, ao lado de nomes como Clarice Lispector, que ela conheceu.

 

Conceição Evaristo: 'Éramos os personagens'

Conceição Evaristo, uma das mais respeitadas escritoras brasileiras, que inspirou jovens mulheres negras a entrar na literatura, leu Carolina Maria de Jesus nos anos 1960, com a mãe e as tias, que trabalhavam como empregada. "A gente lia Carolina sendo também Carolina", diz, hoje, aos 74 anos, em entrevista ao Estadão. Voltar a essa obra tantos anos e tantas histórias depois, como membro do conselho editorial que está trabalhando nos inéditos da escritora, tinha novos significados.

O que Carolina representa para a literatura brasileira?

Ela representa essa possibilidade de ampliação de uma criação literária brasileira. Carolina chega exigindo espaço para novas formas, inclusive de compreensão do que seria literatura, quebra com a hegemonia literária liderada por autores brancos - homens e mulheres -, e chega se apropriando da língua, do texto literário, desse desejo da literatura a partir das classes populares. Sua escrita também institui novas formas de escrita. Tenho chamado isso de uma gramática do cotidiano. Ela brinca com a língua portuguesa a partir de outra experiência linguística e navega pela língua culta. Sabe que está produzindo literatura e trabalhando com a arte da palavra.

O que sua obra ainda nos diz?

A obra de Carolina é muito atual enquanto uma obra que traz, de uma maneira bem explícita, a partir da vivência, a realidade de grande parte da população brasileira. Ela revela as dificuldades e carências em termos materiais que ainda hoje atinge muita gente, e revela as outras carências da sociedade. A carência de Carolina, o desejo dela pela escrita e pela leitura, é um desejo e um direito do povo.

E o que Carolina Maria de Jesus significa para a senhora?

Tenho uma relação muito especial com Carolina e hoje, mais do que nunca, ela se aprofunda em termos de significados e simbologia. Li Carolina nos anos 1960, em Belo Horizonte. Quando eu e minha família lemos Quarto de Despejo, éramos personagens do livro. O que Carolina vivia em São Paulo, minha família vivia em Belo Horizonte. Com Carolina, conhecemos a sobra do lixo. O que nos faltava era a fartura, o exagero, o desperdício do outro. A gente lia Carolina sendo também Carolina. Muitos anos depois, hoje, ler e pensar Carolina, estando em outro patamar, ganhando distância para ler e cada vez mais entendê-la, é muito simbólico. É quase como um milagre. Jamais imaginei, quando a li pela primeira vez, que estaria aqui falando dela. Ela tem esse sentido simbólico na minha vida. É olhar para trás e ver o que ficou lá. E na questão da literatura, ela significa, para nós, mulheres negras, que temos o direito da escrita e da literatura. Carolina é exemplar no sentido da coragem, de se meter num espaço que socialmente não era possível para ela, e isso é o que, de certa forma, eu faço também quando relembro que minha mãe e minhas tias trabalharam em casa de escritores mineiros. É uma reviravolta no jogo.

Conhecemos mais a Carolina dos diários. E a romancista?

O grande desejo de Carolina foi trabalhar a ficção, a poesia. Mas o primeiro texto dela publicado foi um diário e isso criou uma expectativa no público e na imprensa. Ela ficou cerceada. Mas uma leitura atenciosa de Quarto de Despejo e de Casa de Alvenaria mostra a veia ficcional de Carolina.

Publicar esses textos inéditos é uma justiça que se faz a ela?

Sou radical. É uma justiça que chega tardiamente. Era necessário que ela estivesse presente. Essa homenagem, os livros… Seria tão bom se isso tivesse acontecido em vida. Carolina morreu muito decepcionada e o que me chama mais atenção é que ela foi vítima de uma crise asmática. Metaforicamente, isso indica que Carolina morreu engasgada. Ela ainda tinha muito o que dizer, e precisava dizer.

 

LEIA

CASA DE ALVENARIA 1: OSASCO

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Companhia das Letras

(232 págs.; R$ 39,90; R$ 27,90 o e-book)

 

CASA DE ALVENARIA 2: SANTANA

Autora: Carolina Maria de Jesus

Editora: Companhia das Letras

(520 págs.; R$ 59,90; R$ 39,90 o e-book)

Escrito por:

Maria Fernanda Rodrigues/AE