Publicado 20 de Julho de 2021 - 14h23

Por Estadão Conteúdo

Os atuais líderes iranianos admitiram que não vão garantir a retomada do acordo nuclear antes de saírem do governo, e afirmaram que estão deixando para trás um programa atômico no limiar do que é necessário para a construção de uma bomba.

O presidente eleito em junho, Ebrahim Raisi, um clérigo ultraconservador, terá que concluir as conversas que visam restabelecer o acordo assinado em 2015, afirmou na quarta-feira o presidente Hassan Rohani, um moderado, em um de seus últimos pronunciamentos antes de deixar o cargo.

Horas depois, seu ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, publicou no Twitter um gráfico indicando que o estoque de urânio enriquecido do Irã quase que triplicou desde junho deste ano. "A mesa está posta. Nós esperamos, se Deus quiser, que o 13º governo do Irã complete o trabalho", afirmou Rohani, que deixa a presidência em 3 de agosto.

O acordo assinado em 2015 entre o Irã e as principais potências globais suspendeu as sanções da ONU, dos EUA e da União Europeia ao país em troca de fortes controles sobre seu programa nuclear.

Em 2018, no entanto, o governo de Donald Trump abandonou o pacto, restabelecendo as punições americanas. Em represália, Teerã passou a desrespeitar os limites ao grau de enriquecimento de urânio e ao estoque que pode manter.

Diplomatas afirmaram à agência Bloomberg nesta semana que é improvável que o Irã retome as negociações até meados de agosto, com o começo da gestão de Raisi. O diálogo foi iniciado em Viena, já há três meses.

As conversas estão sendo observadas com cautela por empresários do mercado de energia, antecipando um aumento nas exportações de petróleo e gás do Irã se as sanções americanas forem suspensas.

A disputa entre dois inimigos de Teerã, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, está impedindo integrantes da Organização de Países Exportadores de Petróleo (Opep) de aumentar a oferta.

Nas redes sociais, o chanceler Zarif afirmou que, em 2015, o então presidente Barack Obama percebeu que suas "sanções paralisantes" não iriam "paralisar o Irã ou suas centrífugas" e que seu sucessor, Trump, teria achado que "uma pressão máxima" conseguiria domar o país persa.

O Irã quase que dobrou seu estoque de urânio enriquecido a 60%, disse Zarif, alertando o presidente dos EUA, Joe Biden, para que "olhe de perto" os números de estoque e capacidade nucleares mais recentes do Irã.

Esse nível de enriquecimento de urânio é tecnicamente indistinguível dos 90% necessários para fazer armas nucleares, afirmou à Bloomberg o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Mariano Grossi, em junho.

De 10 kg a 15 kg de urânio altamente enriquecido podem ser usados para produzir uma arma nuclear básica, de acordo com estimativas da Federação de Cientistas Americanos.

O Irã sempre sustentou que o seu programa nuclear é destinado a usos civil, mas o fato de ter o potencial de fabricar uma bomba causa preocupação em países do Ocidente e em Israel, a única potência atômica do Oriente Médio.

Hassan Rohani, o atual presidente, culpa o Parlamento dominado por conservadores pelo fracasso em reviver o acordo, depois da aprovação, no início do ano, da lei que limitou as inspeções da AIEA. Ele disse ainda que as sanções dos EUA teriam sido suspensas em março se a lei não tivesse sido implementada.

"Eles arrancaram a oportunidade das mãos do governo", afirmou Rohani em comentários na TV estatal. "Quatro, cinco, seis meses de oportunidades foram perdidas, e eles certamente vão se arrepender". (Com agências internacionais)

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