Publicado 20 de Julho de 2021 - 5h07

Por Liz Batista

Quando um jovem atleta nascido no mesmo dia do bombardeio de Hiroshima entrou no Estádio Olímpico de Tóquio, mais do que o início da maior celebração esportiva mundial, o ato simbolizou o renascimento de um país que 19 anos antes sofrera uma das mais violentas ações de guerra da História e agora mostrava sua nova face. Um Japão cuja glória e força não mais se alicerçava no seu poderio militar, mas em seu potencial tecnológico, que alimentava um renovado senso de orgulho nacional nos japoneses.

No outono de 1964, o Japão realizou um sonho antigo, interrompido por uma guerra e todo o horror advindo dela. Em 10 de outubro daquele ano, num sábado ensolarado, a chama olímpica trazida da Grécia entrou no novíssimo Estádio Olímpico de Tóquio para a cerimônia de abertura da 18.ª edição dos Jogos Olímpicos da era moderna.

Aquela foi a primeira Olimpíada realizada na Ásia e também a primeira sediada em Tóquio, cidade que, a partir desta sexta-feira, dia 23 de julho, mais de meio século depois, voltará a receber a maior competição do esporte mundial, agora em meio à uma pandemia de um vírus que coloca a todos de joelhos - a maioria dos japoneses não é favorável à realização dos Jogos.

"O tempo dificilmente poderia ter sido mais formoso, depois de quase uma semana de chuvas. O trânsito na cidade mais populosa do mundo era enorme nas ruas que levam ao estádio, inteiramente tomado pelo público (...)", contava a cobertura do Estadão, na edição de 11 de outubro de 1964.

Diante de um público de cerca de 75 mil pessoas, o velocista Yoshinori Sakai desempenhou um papel de honra no evento. Vestindo uniforme de corrida todo branco, com uma camiseta que trazia estampada a imagem do círculo vermelho, que representa o sol nascente, sobre o logotipo olímpico de cinco anéis, o jovem atleta de então 19 anos carregou a tradicional tocha pelo estádio, subiu os 179 lances de escada que levavam ao ponto elevado onde estava a pira olímpica e ali depositou o fogo que ardeu durante os 15 dias daquela Olimpíada.

Jatos da Força Aérea japonesa desenhavam no céu de Tóquio os arcos símbolos da competição, enquanto cinco bandas combinadas da Força de Defesa do Japão tocavam em perfeita sincronia a música composta por Ikuma Dan para a Olimpíada. Mais de 5 mil atletas, de 93 países, desfilavam sob os calorosos aplausos dos espectadores. A delegação do Brasil, com seus 69 atletas, recebeu "extraordinária aclamação do público", segundo a cobertura do Estadão. O imperador Hirohito - em outros tempos o Deus vivo em nome do qual o Japão levou a guerra ao Sudeste Asiático e lançou o ataque contra a base naval americana de Pearl Harbour em 1941 - agora, tendo renunciado à sua divindade, uma figura de Estado, foi o patrono do evento e responsável por declarar aberto os Jogos.

O sucesso da cerimônia de abertura parecia preconizar o êxito daquela edição. O evento foi cuidadosamente planejado para mostrar uma nova imagem do Japão ao mundo, uma nação que perseverou sobre a destruição e a morte e renasceu forte, sob os novos tempos de paz.

Parte desta mensagem foi simbolizada por Sakai, que além de conduzir a tocha olímpica, estampou o pôster dos Jogos. Apelidado de "bebê de Hiroshima", o atleta nasceu em 6 de agosto de 1945, nos arredores de Hiroshima, no dia em que o bombardeio atômico devastou a cidade. Ele foi escolhido por representar esses dois tempos da História do Japão.

SONHO ADIADO - Escolhida para sediar a Olimpíada de 1940, Tóquio aguardou mais de duas décadas até finalmente receber sua primeira competição esportiva. Em 1937, o Japão entrou em guerra com a China e desistiu de realizar o evento. Com a escalada do conflito global, após a invasão da Polônia pela Alemanha nazista em 1939, duas edições do evento também foram canceladas. Foi só depois de um hiato de 12 anos, três anos após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939/1945), que os Jogos foram retomados, em 1948, na Olimpíada de Londres. Evento para o qual o Japão, assim como a Alemanha, não foi convidado a participar, dada sua atuação na guerra.

Em 1952, com o fim da ocupação americana do seu território e com sua soberania restaurada, o Japão retornou à competição internacional nos Jogos de Helsinque, na Finlândia, com a autorização do Comitê Olímpico Internacional (COI).

No mesmo ano, Tóquio voltou a disputar a eleição para sediar uma Olimpíada, mas não teve sucesso. Aqueles tempos, diferentemente do interesse atual de países em sediar a competição por causa do seu alto custo e investimentos, as nações ofereciam mundos e fundos para receber os Jogos. Era também sinal de prestígio perante a comunidade internacional política. Roma venceu a eleição e sediou a Olimpíada de 1960. Mas o resultado foi diferente na escolha seguinte, em 1959. Com 34 votos à favor, a capital japonesa venceu candidatas fortes e importantes, como Viena, Bruxelas e Detroit e garantiu ao Japão a oportunidade de sediar sua primeira Olimpíada em 1964.

Matéria do Estadão de 27 de maio de 1959 contava como os membros do Comitê Olímpico Japonês comemoraram a decisão com um brinde e efusivos gritos de "Banzai!" O texto também avaliava que um fator favoreceu a escolha do Japão como sede. Foram os bem-sucedidos Jogos Asiáticos, realizados um ano antes, em 1958. Eles haviam mostrado a capacidade da capital japonesa de "organizar tecnicamente os Jogos Olímpicos". O COI e seus representantes deram a chance ao país do sol nascente.

PASSADO E PRESENTE - Muitas das instalações olímpicas usadas pelo Japão em 1964 serão reutilizadas agora, na edição de 2020. Algumas arenas foram construídas, mas a maioria precisou apenas de reforma para receber atletas.

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Liz Batista