Publicado 01 de Julho de 2021 - 8h08

Por Julio Maria

O filme de Nauenberg, apesar de ter suas imagens captadas em 2004, atualiza-se no discurso de King. Um dos primeiros artistas a tocar para plateias mistas nos Estados Unidos, B.B. King sabia o valor de uma história bem contada. Ao receber jornalistas e jovens fãs, valorizava cada palavra por saber exatamente as dores do silêncio. Sua postura, para além das questões raciais embrenhadas em cada passo que dava, é também uma lição aos artistas encastelados. B.B. King tratava quem queria ouvi-lo com gratidão, jamais com desprezo. E a frase que diz ao final do filme Black, White and Blues é um ensinamento sublime: "Antigamente, ninguém queria ouvir o que eu tinha para dizer. Hoje, vocês tomaram um tempo para virem até aqui e conversar comigo. Eu queria agradecer por vocês terem feito isso". Além de aprovar o filme, o artista pediu que ele fosse exibido no B.B. King Museum, um local em Indianola que tenta pagar uma parte ínfima da conta eterna com seu filho ao celebrar sua trajetória.

A noite em que foi vaiado em uma casa de shows dos Estados Unidos por ser negro se tornou um marco para Dr. King. Ao falar sobre ela, sua voz cai alguns tons. Assim que se recompôs no palco, lembra que olhou para seus músicos e começou a tocar Sweet Sexteen em lágrimas. Um de seus blues mais famosos é um lamento cortante, como em quase todos os blues, por uma mulher que se vai, deixando o amante em pedaços. Mas, naquela noite, uma das estrofes ganhou outro sentido.

King conta que, depois de ser vaiado, os versos a seguir foram cantados para os garotos que desdenharam de sua cor, de seu povo e de sua história: "Você pode me tratar mal, baby / Mas eu vou continuar te amando do mesmo jeito / Você pode me tratar mal / Mas eu vou continuar te amando do mesmo jeito / Mas, dia desses, baby / você vai dar um monte de dinheiro para ouvir alguém chamar meu nome". As entradas para ver B.B. King, pagas por negros e brancos, poderiam passar dos R$ 1 mil em seus últimos shows.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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