Publicado 20 de Junho de 2021 - 7h37

Por Renata Tranches

A possibilidade de o Irã ter um governo mais rígido após as eleições do dia 18 é uma preocupação extra para a família de Elika Ashoori. Seu pai, o engenheiro aposentado Anoosheh Ashoori, um britânico-iraniano, é uma das 15 pessoas de dupla nacionalidade detidas no país. Para Elika, que desde 2017 tem se dedicado a uma campanha para libertá-lo, a eleição de um presidente ainda mais conservador não ajudará.

"Os governos linhas-duras são implacáveis, extremamente antipotências ocidentais e muito brutais em sua abordagem. Nos preocupamos com a segurança de meu pai e de todos os outros cidadãos de dupla nacionalidade", afirmou Elika ao Estadão.

No que ativistas afirmam se tratar de uma diplomacia de reféns, em busca de trocas, o Irã deteve nos últimos anos estrangeiros e cidadãos de dupla nacionalidade sob acusações infundadas, segundo governos internacionais. Em entrevista recente ao Estadão, o embaixador do Irã em Brasília, Hossein Gharibi, afirmou que o sistema legal de seu país não reconhece a dupla nacionalidade. Segundo ele, recorrer à dupla nacionalidade seria uma maneira de a pessoa evitar alguma acusação.

Em agosto de 2017, Ashoori, que vivia no Reino Unido com a família, retornou a Teerã para visitar a mãe doente, de 86 anos, que seria submetida a uma cirurgia. Um dia, como relatou Elika, quando ele e a família deixaram a casa para fazer compras, alguns homens o interceptaram, perguntaram seu nome, puseram um saco em sua cabeça e o levaram em uma van.

"Ele foi levado para prisão Evin e colocado em uma solitária por quatro meses", conta Elika, se referindo a uma das mais notórias prisões do mundo. Em 2019, ele foi condenado a 10 anos, acusado de espionar para Israel, e a mais 2 anos por adquirir € 33 mil ilegitimamente.

Elika explica que o direito de Ashoori de fazer telefonemas foi confiscado após ele fazer gravações de voz para a mulher para que fossem repassadas à imprensa britânica. Nessas mensagens, relata Elika, ele fez um apelo ao primeiro-ministro, Boris Johnson, para ajudá-lo.

"Seus dias são compreensivelmente insuportáveis. Ele está lá há quatro anos, em um porão úmido onde mal vê a luz do sol. As celas estão infestadas de baratas, percevejos, ratos e são divididas com outros 15 internos. Ele contraiu covid há cerca de dois meses, mas nada foi feito. Nenhum teste ou atendimento médico foi dado a ele ou seus companheiros de cela. Felizmente, ele se recuperou, mas ainda sofre com os efeitos da doença", relata Elika.

Para ela, as novas negociações sobre o programa nuclear iraniano podem ser uma chance de rever a situação dos presos. "O que desencadeou esta nova onda de tomada de reféns pelo Irã está intimamente relacionado com a imposição de sanções por (Donald) Trump", disse.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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Renata Tranches